Chuva de flores caiu sobre Alfama em noite de festival

Ricardo Ribeiro, Gisela João, Ana Moura e António Zambujo foram alguns dos fadistas mais aplaudidos na primeira noite da segunda edição do Caixa Alfama.

Eram oito da noite e no Largo do Chafariz de Dentro uma multidão assistia à Marcha de Alfama, que inaugurava assim a segunda edição do Caixa Alfama. Turistas, lisboetas e portugueses de outros cantos do País invadiram durante horas os recantos do bairro lisboeta, palmilhando as suas ruelas em busca do fadista predilecto, sempre de mapa na mão. "Se não fosse isto nunca na vida conheceria estes locais todos ou andava sequer por estas ruas", comentava com o DN uma das milhares de fãs de fado que na noite de sexta-feira acorreram em peso em Alfama.

No Grupo Sportivo Adicense, subindo uma escadaria estreita, encontrou-se a jovem Carmo Moniz Pereira, que subiu ao palco improvisado passando entre as pessoas que lotavam este espaço. Não precisou de microfones ou de ampliação sonora, cantando como antigamente se cantava o fado, de olhos nos olhos com o público, sem efeitos ou artificios. Assim se atirou à Viuvinha, fado Jaime Santos, celebrizado na voz de Amália Rodrigues. Tal como Amália, também Carmos Moniz Pereira experimentou interpretar versos de Fernando Pessoa num fado tradicional, tendo dado voz ao poema Por Quem Foi Que Me Trocaram.

Eram muitos os fadistas que dominavam este primeiro dia de Caixa Alfama e o tempo limitado. Bastante próximo do Grupo Sportivo Adicense encontramos o Largo das Alcaçarias, onde se estreou o projeto Urbanos. Carminho, que esta noite encerrará o festival no Palco Caixa, encontrava-se na plateia, que não se coibiu de cantar com os jovens fadistas que integram este projeto, concebido pelo guitarrista Diogo Clemente, entre eles Peu Madureira, Diogo Rocha, Zé Maria Souto Moura, Rodrigo Rebelo de Andrade e Bruno Fonseca.

Saltámos até á Igreja de São Miguel e no caminho o fado continuou a ouvir-se nas muitas casas de fado de Alfama, onde quase se pode traçar um trajeto paralelo ao festival. E muitos são os que param à porta dos restaurantes para ouvir o fado mais castiço que aí se canta, entre mesas repletas de iguarias da cozinha tradicional portuguesa.

Sendo a igreja um espaço de culto religioso, a relação do fado com a fé esteve no centro do espetáculo apresentado, Cantar é Rezar, com a presença novamente de Carmo Moniz Pereira, mas também de Matilde Cid e Francisco Salvação Barreto.

Mas porque este ano o festival decidiu abrir a sua programação a nomes fora do fado, no regresso ao Grupo Sportivo Adicense conseguimos encontrar um lugar para assistir ao concerto de Ana Bacalhau, vocalista dos Deolinda que foi desafiada pela organização a preparar um concerto especial. José Pedro Leitão, seu colega de grupo, acompanhava-a em palco e entre o público encontrava-se um outro membro da banda, Luís José Martins. "Estou nervosíssima", confessou a cantora aos presentes logo que chegou ao palco. "Não sou fadista, mas gosto muito de fado e respeito-o imenso, daí nunca o ter cantado em público", acrescentou. A expressividade que já a caracteriza nos Deolinda foi transposta para os fados tradicionais que cantou, alguns deles do repertório de Hermínia Silva que confessou ser uma das suas "grandes influências".

O Centro Cultural Dr. Magalhães Lima é a sala mais afastada das restantes que acolhem os concertos do Caixa Alfama. Nestas alturas o mapa é mesmo o melhor amigo do homem e é graças a ele que as centenas de fãs de Gisela João conseguem chegar ao seu destino. Entrar no centro cultural foi toda uma outra aventura, uma vez que à hora que chegámos ao local já a fadista cantava os fados tradicionais que a tornaram uma das maiores promessas do panorama do fado atual. Mais que uma promessa, Gisela João é mesmo um caso sério. Fez acompanhar por uma orquestra e soube ter a força interpretativa necessária para esta ocasião. À saída do centro cultural os admiradores não lhe poupavam em elogios.

O final de noite ficaria reservado para o Palco Caixa, junto ao rio. Depois de Katia Guerreiro, ouviu-se Ricardo Ribeiro cantar "cada um é para o que nasce e eu nasci para o fado", versos de Fernando Farinha do fador menor Destino Marcado. Ainda recitou um poema de José Régio e mostrou como através da preservação da tradição fadista ele faz o fado acontecer. Houve oportunidade para muitos risos. Durante a sua interpretação de Nem às Paredes Confesso, Ricardo Ribeiro fez imitações, com uma boa dose de humor, de Tony de Matos, Vicente da Câmara (que esta noite atua no festival), João Braga, Rodrigo, Maria da Fé (que também vai dar um concerto hoje em Alfama) e António Zambujo, que subiu ao Palco Caixa, na companhia de Ana Moura, após a voz do Largo da Memória.

Zambujo (que celebrava o seu aniversário) e Ana Moura encerraram este primeiro dia de festival com um espetáculo que já apresentaram no Centro Cultural de Belém e nos Coliseus de Lisboa e do Porto, partilhando um com o outro os seus repertórios, cantando mornas de cabo-verde ou canções da música tradicional portuguesa (nomeadamente O barco vai de saída, de Fausto). A despedida fez-se com Desfado, canção da autoria de Pedro da Silva Martins que deu título ao quinto álbum da cantora, interpretada de cor pelo público que atirava flores e mais flores aos dois fadistas. Uma primeira noite ganha.

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