A herança árabe também cabe na guitarra portuguesa

A guitarrista Luís Amaro mostra o novo disco 'Meditherranios' hoje e amanhã, às 21.30, no Museu do Oriente

Todos conheceram Luísa Amaro ao lado de Carlos Paredes. Mas há cinco anos,com Canção para Carlos Paredes, diz, "fechei um ciclo e encetei um percurso próprio, desbravando, solitária, uma terra de ninguém": a terra da criação individual. E, "espírito inquieto e irreverente" que se define, olhou à volta e "não vi inovação,nem risco". Ela tem uma palavra para isso: "mesmice". Observou o mundo em "tempos de intolerância". E este país, que "sofreu grande influência cultural árabe e a abandonou, a esqueceu". A re-ligação, nela, fez-se por ouvidos e olhos: "pus-me a ouvir música de alaúde árabe, música da Beira Baixa e de outras regiões, fui ao Festival de Mértola e ao "Músicas do Mundo". E li as 1001 Noites e as antologias de poesia árabe do Adalberto Alves para me imbuir daquele universo", explica.

No som idealizado, porém, "quis que a guitarra portuguesa mantivesse o lirismo, sensibilidade e aquele chorar muito nosso, muito belo e... muito português". No fundo, a sua identidade. Que "ficaria em perigo, se a aproximasse demais da música árabe", reconhece.

Inédita é a junção aqui operada de guitarra portuguesa e guitolão, tocada pelo virtuoso António Eustáquio: "quis evitar a guitarra clássica para fugir ao som tradicional e pensei no guitolão para fazer baixo-contínuo, mas acabou fazendo contracantos comigo!", conta. A função primitiva "foi parar ao clarinete-baixo" [Gonçalo Lopes]. A sobriedade deste e da percussão árabe/iraniana [tar e zarb por Baltazar Molina] no disco "foi opção do produtor: quis "puxar" mais o som das guitarras", explica. Fala por si: "fez-me um som fabuloso!"

Ora, ao vivo "a coisa será diferente: ouvir-se-á mais o clarinete e a percussão". Desta, que a "situa ritmicamente", diz ser "subtil e delicada, de um rendilhado muito especial".

Deliberada foi a opção de não usar a voz humana: "a guitarra já canta, e guitarra com voz, caía-se no fado, mesmo sem querer. E eu quis fugir de todas as coisas que me aproximassem do fado". Mas há um reverso nesta opção: "Um espectáculo sem voz é mais difícil para os espectadores: a voz orienta-os." Excluiu a voz "a ideia de criar uma sonoridade que não pudesse ser comparada com nada. É a minha música".

Percebe que "este trabalho rompe com tudo", mas também o quer como "possibilidade de um humanismo com o lado de lá do Mediterrâneo". Pois "estas linhas musicais, os timbres que se cruzam e se casam, acho que é o que o mundo precisa".

Face aos mercados do lado de lá da fronteira, Luísa acha que Meditherranios tem "todos os argumentos: guitarra portuguesa em diálogo instrumental, sendo a guitarra um emblema da nossa música tradicional; depois, é música feita cá por músicos portugueses, e todos eles excelentes; é a proposta de uma nova sonoridade, para lá do fado; e há ainda a presença de um instrumento inédito [o guitolão, criado por Gilberto e João Pedro Grácio]".

Luísa já explora além-Meditherranios: "comecei a fazer outras músicas, ir para outro tipo de ambiente sonoro, mas, por enquanto, ainda me sinto bem 'aconchegada' aqui". Uma coisa sabe: "Quero continuar a fazer música de câmara." A memória de Meditherranios está ainda fresca: "todos se empenharam muito, por amizade e porque estavam a gostar. Ou, como dizia o Baltazar: 'por curte'!."

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