A defesa da liberdade por Sérgio Godinho no São Luiz

O músico iniciou ontem a sua série de espetáculos sob o mote da Liberdade, com Gisela João, Maria João Luís e Jorge Benvinda como convidados.

"Foi por estas e por outras que se fez o 25 de Abril". Foi com estes versos que Sérgio Godinho iniciou ontem à noite, no Teatro São Luiz, em Lisboa, a sua série de concertos sob o mote da Liberdade, a propósito dos 40 anos do 25 de Abril, concertos que só terminarão no sábado em Lisboa, seguindo depois para o resto do País.

"Estamos num País cheio de insuficiências e de esperanças que têm o acesso bloqueado", assim se dirigiu o cantautor pela primeira vez ao público que enchia o São Luiz, antecipando desde logo a canção O Acesso Bloqueado, um dos seus temas mais recentes, comprovando assim como a temática da liberdade (ou a falta dela) une toda a sua obra, desde os tempos de Os Sobreviventes até aos nossos dias. Até porque, como o próprio músico afirmou ontem em palco: "A liberdade está sempre ameaçada. Defendamo-la".

Ouvir os versos da canção que também dá título a este espetáculo, Liberdade - "so há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação, só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e decidir" - motivou um dos primeiros momentos mais aplaudidos da noite, porque as suas palavras se mantêm tão atuais em pleno século XXI.

Além da sua banda, constituída por Nuno Rafael, Miguel Fevereiro, Nuno Espírito Santo, João Cardoso e Sérgio Nascimento, Sérgio Godinho contou ainda com alguns convidados. O primeiro foi Jorge Benvinda, vocalista dos Virgem Suta, com quem interpretou, entre outras, a icónica Maré Alta.

Já a atriz Maria João Luís proporcionou um dos momentos mais emocionalmente tensos e intensos da noite, ao declamar O Fugitivo.

Gisela João foi a terceira convidada. Descalça em palco deu verdadeiramente um novo corpo às conhecidas Etelvina e Balada da Rita (esta um pedido expresso da fadista, se não ficaria à porta do São Luiz a cantá-la na mesma, contou entre risos Sérgio Godinho) e interpretou um tema novo do músico, Tem o seu preço, um fado-marcha composto para a peça Tropa Fandanga, do Teatro Praga.

Foi ainda recuperada a memória (musical, pessoal, social, política) de José Afonso, através do tema Na rua António Maria e também de uma reinterpretação pungente de Os Vampiros, cujo arranjo tão cru permitiu com que a sua mensagem ganhasse uma carga ainda mais visceral.

Aliás, algo marcante neste espetáculo (sendo algo a que Sérgio Godinho já nos habituou) é a forma como modifica substancialmente os arranjos das suas próprias canções, que à medida que os anos passam vão ganhando novos corpos, mantendo, também assim, uma atualidade cabal.

Atual é também a mensagem de Maçã com bicho, como salientou o músico, canção incluída em 2000 no álbum Lupa, sobre a perversidade das praxes.

Chegou a despedir-se duas vezes, sob constantes ovações do público que encheu o teatro lisboeta e com quem cantou no final O Primeiro Dia, dando o adeus final com Liberdade, com todos os convidados em palco, uma repetição que tem tudo de necessário porque, como também este espetáculo nos relembrou, a liberdade tem de ser cuidadosamente preservada e recordada.

Ler mais

Premium

Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.