A banda pop portuguesa que mais vendeu diz adeus

Os Delfins despedem-se da capital com um concerto no Coliseu dos Recreios.  Os bilhetes esgotaram há um mês. Por isso, a banda "podia continuar", diz Miguel Ângelo,  que assume também uma "abordagem ao mundo da estética pop única em Portugal".

Há um antes, um durante e um depois no percurso dos Delfins. Nascidos há 25 anos em pleno baby-boom do Rock Rendez-Vous, estiveram ligados à histórica editora Fundação Atlântica (de Miguel Esteves Cardoso e Pedro Ayres Magalhães), casa onde gravaram o primeiro single. Ao concorrerem ao Festival da Canção, a imprensa retraiu-se. De resto, a relação entre os Delfins e os media nunca seria pacífica. "A maior surpresa [do concerto de hoje] não foi para nós, mas para alguns comediantes que julgavam que nos tinham enterrado e para alguns media que nos ostracizaram: Coliseu tecnicamente esgotado um mês antes!" As palavras são de Miguel Ângelo, a propósito do espectáculo de despedida de Lisboa, marcado para esta noite no Coliseu dos Recreios. No dia 14 de Novembro, será a vez do Coliseu do Porto.

Reatando a história, o primeiro "terço" de vida dos Delfins, sensivelmente entre 1984 e 1994, trouxe três discos pop puros e duros, duas obra conceptuais - Ser Maior - Uma História Natural e Breve Sumário da História de Deus. Embora algumas das canções mais emblemáticas descendam desse período, Miguel Ângelo, formado em Arquitectura, che-gou a equacionar o exercício da profissão. Por esta altura, estava a terminar a aventura acústica Resistência - um dos primeiros supergrupos portugueses - que contava com a participação do próprio e do guitarrista dos Delfins Fernando Cunha, entre outros.

Quando poucos adivinhariam, os Delfins tornam-se no grande fenómeno de vendas nacional. Em 1995, a colectânea Caminho da Felicidade trouxe- -lhes o êxito nunca concretizado anteriormente. A alguns êxitos radiofónicos como Baía de Cascais ou Nasce Selvagem, juntaram o inédito Sou como Um Rio.

A partir daí, tudo mudou. As digressões passaram a ser constantes, embora o investimento no território brasileiro nunca tenha trazido frutos. Durante quatro anos, os Delfins foram a banda portuguesa mais badalada, resultado para o qual contribuiu também o disco Saber Amar. 500 mil unidades de dois álbuns tornaram-nos na banda pop portuguesa mais bem-sucedida.

Pelo meio, Miguel Ângelo e o guitarrista Fernando Cunha gravaram a solo. O vocalista foi também o apresentador dos programas Cantigas da Rua, da SIC, e Miguel Ângelo ao Vivo, da RTP.

À etapa de maior sucesso, seguir-se-ia a ressaca do êxito. Primeiro, foi 7, de onde foi extraído o polémico tema Sharon St7one. O processo de afastamento entre o público e o grupo continuou com a gravação da canção principal do concurso Big Brother, então estreado na TVI. Discos como Babilónia e digressões como Lótus Rádio e De Corpo e Alma passam em revisão parte da carreira, mas a mudança parecia iminente.

O registo homónimo de 2007 mostrou a banda à procura de uma sonoridade muito diferente da pop. Fernando Cunha ainda gravou. Chegou mesmo a participar na digressão seguinte, mas acabou por deixar os Delfins, sendo substituído por Mário Andrade. Foi o início do fim:"O Fernando Cunha perdeu o perfil e ficou sozinho, mas nós os quatro não podíamos usar o nome sem ele. Aliás, sem mim, os Delfins também não poderiam continuar. Por outro lado, e devido ao peso do nome do grupo, também não se ligou muito aos últimos discos de originais que lançámos, o Delfins e A Solidão do Sonhador..., que na minha opinião contêm das melhores coisas que já gravámos", explica Miguel Ângelo.

Para hoje, o vocalista garante a presença do "nosso presidente", referindo-se a José Eduardo Bettencourt. Quanto aos Delfins, deixam "uma abordagem ao mundo da estética pop única em Portugal e muitas canções que no futuro poderão ser lembradas por miúdos de dez anos".

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