Entrevista aos Jurassic 5: hoje tocam no Optimus Alive

O coletivo de hip hop, que se reuniu recentemente depois de seis anos separados, estreiam-se hoje no Optimus Alive, no Palco Optimus, a partir das 19.10. O fundador DJ Nu-Mark falou com o DN.

- Oficialmente separaram-se há seis anos. Como é que foi possível esta reunião?

Passou um ano e na altura perguntaram-nos se queríamos voltar a tocar e nós dissemos que não, que estávamos a fazer uma pausa. Dois, três anos passaram até que chegou aos seis anos. O Coachella [festival norte-americano] chegou-se à frente e, na verdade, achámos que era o local ideal para lançar esta reunião. Foi tão simples quanto isto.

- Como é que foi voltarem a tocar todos juntos depois de tanto tempo separados? Havia nervosismo?

Tem sido muito bom. O Coachella criou alguma ansiedade porque sabíamos que ia lá estar uma série de pessoas que nos queriam ver outra vez. Pessoalmente eu não costumo ficar nervoso antes de ir para palco porque adoro estar em palco e atuar. No entanto, quando foi o Coachella, a verdade é que já não tocávamos há seis anos. E depois, cinco minutos antes de subirmos para o palco, o Cut Chemist deixa cair um gira-discos portátil e aquilo parte-se em bocados e depois não encontrávamos a agulha do gira-discos. Ao mesmo tempo aparece o Paul McCartney nos bastidores e eu fico a olhar para o Cut Chemist e a pensar 'vou ajudá-lo ou vou tirar uma fotografia com o Paul McCartney?'. Claro que fui tirar uma foto (risos). Depois lá conseguimos colar uma das minhas agulhas a um gira-discos, tudo em cima da hora... por isso nesse momento estava muito nervoso.

- E esta reunião poderá trazer canções inéditas ou um novo álbum?

Talvez sim, talvez não. Não queremos pensar muito nisso. Mas não temos nada pronto.

- Como é que sente as grandes mudanças que se deram na indústria musical desde que se separaram até hoje?

A indústria mudou completamente. Quando lancei o meu álbum no ano passado percebi que tinha de dar um pouco de música nova às pessoas todos os meses. É interessante, porque por causa do YouTube à capacidade de se dar atenção a algo diminuiu bastante, as pessoas não querem ouvir 16 canções de uma vez. Por isso, se fizéssemos um disco novo com os Jurassic 5 não faço ideia de como o iríamos lançar, além de que estilisticamente e artisticamente tudo mudou, tudo tem 808s [batidas eletrónicas programáveis].

- Vê isso com algo negativo?

Não sei porque é que as pessoas o fazem. Para mim é um pouco estranho que seja tão omnipresente, porque eu gosto de ouvir coisas com maior variedade. Gosto de musicalidade e melodia, e hoje em dia a maioria das coisas são muito simples, apesar de existirem exceções.

- Quando os Jurassic 5 se formaram, há 20 anos, em Los Angeles, o gangsta rap era dominante. Como foi começar o grupo quando não faziam parte desse circuito?

Muitos desses grupo vinham de South Central de Los Angeles, mas nenhum de nós fazia parte de um gangue ou vendia crack. Nós fomos influenciados pelas origens do hip hop. Atenção que eu adoro N.W.A., mas os MCs não queria seguir a mesma mensagem, queriam fazer algo diferente. Mas não foi nada deliberado, acho que foi apenas uma questão de gosto. Simplesmente éramos muito influenciados por Juice Crew, Public Enemy, De La Soul.

- Mas foi difícil começar e não fazer parte desse mundo?

Foi definitivamente difícil. Na costa oeste [dos EUA] as pessoas adoram esse tipo de música [gangsta rap]. Dito isto, foi fácil destacarmo-nos porque soávamos a algo muito diferente do que estava a acontecer. Pudemos lançar-nos na Europa. Mas demorou até arrancarmos. Inicialmente os Jurassic 5 eram dois grupos separados e na altura tentávamos arranjar contratos discográficos e não conseguíamos nada. Só quando nos juntámos é que as pessoas começaram a dar-nos atenção, mas foi difícil, porque quando as pessoas gostam muito de um estilo só se focam nisso.

- E como é que se lida com todos os egos de um grupo de seis membros?

Houve uma altura em que passávamos os anos a viajar. Perdemos vida social, estávamos longe da família. E, por um lado, tornámo-nos irmãos, mas como todos os irmãos, também discutimos. Acontece. Mas uma pessoa segue em frente e tenta ultrapassar essas questões.

- Uma vez que estavam ligados a uma grande editora, sentiram alguma vez pressão para ter um grande êxito?

Pessoalmente eu pensava mais em fazer a melhor música que consigo enquanto tinha um contrato. Não pensava tanto na questão do êxito. Mas quando nós começámos a rádio tinha mudado muito e existiam pessoas a pagar para que a sua música passasse na rádio. Logo, o que acontecia era que não passava propriamente boa música na rádio, mas sim aquela de quem tinha dinheiro para pagar. Não percebíamos porque é que as rádios não passavam as nossas canções, apesar de esgotarmos concertos. Aí pensámos que talvez precisássemos de um êxito. Chegámos a ouvir pessoas das rádios a dizer que não passavam o What's Golden porque ninguém da editora lhes tinha pago. Foi estranho, porque todas as pessoas conheciam a canção. Mas sim, houve alguma pressão. Mas com estas políticas entre rádios e editora, fomos ficando para trás...

- Não é cansativo ter de lidar com certas decisões que, na verdade, nada têm que ver com a música propriamente dita?

É extremamente cansativo porque uma pessoa como eu só tenta fazer boa música. Mas eu tento não pensar muito nessas questões, apesar de agora ser engraçado estar aqui a contar estas coisas, mas se pensar muito nisto não consigo criar nada. Ainda hoje faço música e só me tento divertir ao máximo.

- E porque é que acabaram em 2007?

Estávamos cansados. Decidimos tirar uma longa pausa e dedicarmo-nos às nossas carreiras a solo, às nossas famílias. Na altura a cena musical estava a mudar bastante... Tudo apontava para que parássemos.

- O que é que os vossos fãs vão poder esperar desta reunião?

Que venham com bom espírito e a querer passar um bom bocado. Porque, sinceramente, esta poderá ser a última oportunidade para nos verem. Não sabemos mesmo quanto tempo é que esta reunião vai durar. Se gostam de hip hop sugiro que venham ao concerto.

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