Biografia do Gato Negro Victor Gomes lançada em outubro

A primeira biografia de Victor Gomes, o "rebelde" vocalista dos "Gatos Negros", autoria de Ondina Pires, vai ser publicada em outubro e além de entrevistas incluiu fotografias, discografia e contextualização histórica que enquadra o rock'n'roll em Portugal.

"O Victor Gomes faz muita questão em deixar um legado. Ele tem 74 joviais anos. Comecei a fazer entrevista e a juntar acervo. Descobri que o Victor continua a ser um rebelde. Vejo coisas que ele faz agora e parece um 'punk' de 17 anos, aliás 'teddy boy' como ele gosta de dizer. Continua a ser uma pessoa rebelde e é bastante independente", explicou à Lusa Ondina Pires autora da biografia do mítico vocalista de 'rock'n'roll'.

No dia em que Victor Gomes cantou na Trafaria, em 1963, à frente dos "Gatos Negros", nunca mais "nada seria como antes" explica Ondina Pires na biografia referindo-se à sua primeira atuação em Portugal.

"Os jovens do público dançavam em transe. Uma bomba energética tinha caído no salão nobre dos Bombeiros da Trafaria. Logo ali deu-se o frutuoso casamento com os Gatos Negros e nunca mais nada seria como antes, para bem da cena musical portuguesa. Foi amor à primeira vista" (página 34), escreve a autora sobre o primeiro concerto em Portugal depois de uma vida em Angola e Moçambique.

O primeiro tema: "Tutti Frutti" de Little Richard provocou momentos "eletrizantes" junto do público da Trafaria, em Almada.

"Musicalmente, eles faziam versões mas o que interessa no Victor Gomes é a interpretação. Podemos pegar numa canção de mil maneiras diferentes e ele era singular", sublinha.

"Havia um especial cuidado com a parte cénica: os movimentos dos músicos coordenados com os ritmos, as danças acrobáticas do Victor, que passaria a ser conhecido em Portugal como o 'Tarzan do Rock', as coreografias pensadas por ele atraíam as audiências", refere a escritora.

O livro refere que em 1963, Victor Gomes "estava muito à frente" no que diz respeito às movimentações de palco e às "possantes vocalizações".

"Ele transfigurava-se e entrava numa vertigem dionisíaca de dança, saltos, 'rebolanços' no chão, manuseamento do microfone, algo inaudito nessa altura", escreve a autora que recorda que os restantes membros da banda entravam "igualmente em transe".

Não muito tempo depois os jornais em Portugal escrevem que tinha nascido "uma estrela" apesar de anos antes em Angola e Moçambique, Victor Gomes ter sido "aclamado" rei do 'rock'.

As questões mais pessoais de Victor Gomes são também abordadas como a morte de um filho em Angola, ainda criança, até ao período da Revolução, assim como o "exílio" na antiga Rodésia onde chegou a integrar uma "pequena companhia de mercenários" destinada a combater junto à fronteira com Moçambique, após a independência de Portugal.

"Eu gostaria que houvesse maior intervenção dos meios de comunicação social em relação aos músicos mais velhos e é por isso que quero promover um encontro de gerações. Quando apareceu Rui Veloso, toda a gente diz que é o pai do 'rock' mas na verdade os grupos portugueses nunca deixaram de existir. Nos anos 1960 e 1970 houve grupos, os Tantra, a Anarband, Aqui del Rock, Corpo Diplomático, mas as rádios, e na altura a RTP, não ligavam aos portugueses", lamenta Ondina Pires.

"A música de intervenção eclipsou qualquer tentativa de expor a música rebelde e experimentalista", diz Ondina Pires.

Ondina Pires é autora dos livros "Scorpio Rising: Transgressão Juvenil"; "Anjos do Inferno" e "Cinema Vanguarda" e esteve ligada à música como baterista e vocalista nos anos 1980 e 1990.

A biografia de Victor Gomes (edição de autor, 173 páginas: bilingue, português/inglês) vai ser lançada em outubro e inclui fotografias e imagens da época e inclui um prefácio de Luís Futre, editor da discográfica "Milk Shake" e coautor do livro "Portugal Eléctrico".

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