"As pessoas podem deixar de gostar de nós amanhã"

Richard Reed Parry, um dos elementos dos Arcade Fire, falou ao DN nos camarins antes da atuação do grupo no Rock in Rio. Aqui fica a transcrição completa da conversa.

Como conseguiram, em dez anos, passar do patamar de um projeto indie canadiano a um fenómeno de expressão global sem que isso tenha implicado quaisquer cedências no plano da criação musical?

Creio que é uma questão mais difícil de responder que o que inicialmente parece. Porque julgo que se tem de equacionar o fazer bem as coisas e o ser popular. E isso não é uma coisa fácil de conseguir, mas é também algo sobre o qual não temos controlo. Que as pessoas ainda gostem daquilo que estamos a fazer é ótimo. Ainda estamos a tentar chegar às pessoas, a trazer o que conseguimos aos nossos concertos e a procurar algo que seja cool, bonito, bom e que tenha significado. Não costumamos aceitar oportunidades que surjam e que têm apenas a ver com dinheiro. Não licenciaremos as nossas canções a todos os que queiram fazer um anuncio de um automóvel ou algo no género. Mas temos a sorte de sermos populares como somos, por isso nem temos a pressão para ter de fazer nada assim. No fundo não sei bem qual será a resposta, mas acho que tentamos fazer com que cada decisão nossa nos seja confortável e faça sentir bem.

A popularidade é volátil...

As pessoas podem deixar de gostar de nós amanhã. Alguém dirá que fizemos algo errado, que tomámos o passo errado. E talvez não fosse o passo errado, mas apenas o passo errado para manter um estatuto de superpopularidade. Mas enfim...

São um grupo grande. Como se mantém uma certa disciplina de trabalho com tanta gente envolvida?

Não é difícil manter a disciplina, mas é mais difícil manter as coisas focadas e todos num mesmo comprimento de onda, fazendo com que sintam que estão a trabalhar na mesma coisa ao mesmo tempo. É como um casamento a seis que depois se transforma num casamento a dez.

A mais evidente presença das eletrónicas em Reflektor, por exemplo, surgiu depois de todos estarem nesse mesmo comprimento de onda face ao seu maior protagonismo?

Não foi uma coisa súbita para nós, mas antes um processo gradual de evolução. Já havia, por exemplo, muitas electrónicas no The Suburbs, nós é que não as puxámos tão para a frente. Mas lá estavam de vez em quando. Nada foi não natural.

Novas ferramentas, ou seja, novos instrumentos, fazem a diferença na história da evolução da música de um grupo?

Algo que seja natural e que nos faça sentir que estamos a evoluir no sentido de qualquer coisa deixa-nos com a vontade de continuar a experimentar com esses sons. E parece-nos certo. Não queremos que as roupas nos vistam a nós. Queremos ser nós a vestir as roupas.

Há uma ideia de necessidade de desafio que lancem a vós mesmos quando embarcam no processo de criação de um disco novo?

Tentamos. Mas às vezes não funciona. Não há uma fórmula... Veja-se, por exemplo, o caso do Normal Person, canção de que gosto muito com a forma com que surgiu no álbum. Na origem era bem diferente. Era muito mais lenta, muito mais cheia de sintetizadores. Parecia mais uma coisa de uns Primal Scream ou Ride, ou algo assim... Mais brit pop, uma coisa mais solta... E não estava a resultar. O Win veio depois com ideias. E quanto mais as tocávamos mais parecia uma coisa dos Rolling Stones ou Nirvana... E a canção foi-se ajustando. E no fim funcionou. Neste caso os sintetizadores, que poderiam soar a algo novo, não funcionaram para nós. Precisamos da tecnologia para avançar. Mas neste caso avançar não era o que precisávamos. O que o cérebro aponta, o que faz sentir bem, é por aí que vamos.

Recuando no tempo podemos lembrar que David Bowie, um dos músicos que mais sabe conjugar o verbo desafiar, foi dos primeiros a apoiar publicamente os Arcade Fire...

E foi muito bom. Deu-nos um alcance a que antes não teríamos chegado. Ele está aqui há tantos anos e tem um trabalho incrível. Mas é impossível quantificar quanto é que uma presença dessas vale e o que abre caminho ao quê. Mas para nós foi sentir que alguém da velha guarda estava a apoiar o que estávamos a fazer. Foi encorajador,

Chegaram a partilhar o palco e a gravar um EP ao vivo...

Sim. Foi muito especial. É inspirador tocar ao lado de lado de alguém que vem das primeiras gerações do pop/rock e, sem dúvida, da primeira geração do art rock.

Têm tocado várias versões de temas de outros músicos em digressão. É um espaço de prazer do grupo? De diversão?

É super divertido. Gostamos de ligar os concertos que fazemos aos locais em que tocamos. E assim, em vez de dizer "olá Lisboa", olhando para um papel, dirigimos uma canção à cidade. Hello Detroit... Então tocamos uma canção de Detroit... Mas acho que não faremos nenhuma em Lisboa.

Editariam essas versões em disco?

Não creio. São versões de rock'n'roll... São divertidas de fazer.

E um disco ao vivo?

Ainda não o fizemos... Na verdade gravamos tudo quando tocamos...

E será esta a digressão para fazer um disco ao vivo?

Ainda é cedo para o dizer, por isso não sei. Mas seria cool.

Como decidiram que canções juntar às do novo álbum para os alinhamentos dos concertos desta digressão?

Pela primeira vez desde Funeral, nos primeiros concertos desta digressão só tocámos temas do Reflektor. Quando começamos depois a fazer alinhamentos mais extensos começamos a fazer uma ou outra canção antiga. E então passámos a incluir canções que, se fosse uma caixa de velocidade, estivessem na mesma mudança.

O novo álbum foi-nos inicialmente apresentado juntamente com o teledisco para o tema-título, com realização de Anton Corbijn. Até que ponto interferem no trabalho das imagens que acompanham a vossa música? É um trabalho importante?

Muito importante mesmo. Muitas vezes há quem queira realizar um teledisco para uma das nossas canções... É ver caso a caso. Se for interessante ou bom aceitamos fazer. Com o Anton fomos nós quem o procurou. Pensámos: "quem seria bom para fazer isto?" Decidimos que seria ele. Contactá-mo-lo demos algumas ideias e ele foi depois pensar. A realizadora que fez o Afterlife foi diferente. Ela apresentou as ideias e disse quanto ia custar e nós respondemos apenas OK, parece bom... Estava inspirada e nós aí não tivémos aí qualquer input... E ficou espantoso. Nesse caso era ela a fazer a sua peça de arte.. É belo quando assim acontece.

We Exist, o novo teledisco, como surgiu?

David Wilson queria fazê-lo. E uma vez mais foi a sua visão, ligada à nossa canção... A canção e o vídeo não tinham a ver, mas encontraram-se de forma complexa e poderosa. Era como a bela e o monstro e sabíamos que ia resultar..

O palco também envolve elementos visuais. A lógica de trabalho é semelhante à dos vídeos?

Há elementos nos quais pensamos nós mesmos... Temos uma grande equipa a trabalhar connosco. Há propostas, há muito diálogo. No fim é um esforço de equipa.

Como vivem hoje em dia a vossa relação com o público?

Não é fácil quando se atinge uma certa dimensão. Não se consegue ter uma relação com as pessoas. Consegue-se com uma ou algumas mais pessoas, mas quando são milhares as que vemos nos concertos é impossível . Conseguimos ter atenção pelos aspetos importantes do concerto, da arte e de como fazemos as coisas... Tentamos não tocar em sítios maus, manter os bilhetes a um preço acessível. O equipamento, a equipa... A coisa torna-se muito complexa. Mas tentamos não fazer mal. Não queremos vender porcaria vazia. Tentamos fazer o melhor. Por vezes há quem escreva e se chegue a nós ou alguém que nos conhece e fala... Mas estamos para lá do ponto de conseguir responder aos emails...

Pessoalmente como acompanha o que vai acontecendo no mundo da música?

Vou mas vezes atrás no tempo, escuto mais música do passado que do presente, descobrindo coisas que na altura falhara ou que aconteceram mesmo antes de eu ter nascido. Mas temos uma grande comunidade musical e saímos e ouvimos coisas. Depois a verdade é que os músicos estão sempre a trabalhar em música e os meus amigos músicos trabalham em coisas diferentes. Mas quando estou em digressão quase não escuto música porque se está à sua volta a todos os momentos. Não há fome aí...

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