As canções que unem Ana Moura e António Zambujo

Os dois fadistas cantaram juntos no Coliseu de Lisboa pela segunda noite consecutiva para uma casa cheia. Sexta-feira seguem para o Coliseu do Porto.

A certa altura da noite Ana Moura lembra como um dos objectivos com este concerto conjunto com António Zambujo era também o de contar uma história. História essa que começou nos fados tradicionais, mas depressa passou pelos muitos outros mundos que também marcam as personalidades musicais de cada um dos intérpretes. Mas, inevitalmente, duas horas depois de uma aclamada atuação, foi ao fado que ambos voltaram, como que a mostrar que essa ligação à canção de Lisboa nunca terá fim, apesar das viagens paralelas que, entretanto, possam encetar.

Se foi um concerto aclamado, isso também se deve muito à cumplicidade entre os dois cantores. É algo que se sente desde o primeiro minuto que pisam o palco. O tom grave de Ana Moura (e cujo impacto tanto entusiasmo criou entre a plateia) alia-se com cumplicidade na voz mais terna de António Zambujo, criando um novo território que conquista diferentes públicos.

Além do seu repertório, os dois intérpretes recuperaram também canções que são "afinidades" que têm entre si, temas que os influenciaram, nomeadamente as mornas de Cabo Verde. E em dueto cantaram Ncria Ser Poeta, de Paulino Vieira, e Lua Nha Testemunha, de Cesária Évora, durante a qual os cantores não se coíbiram de alguns passos de dança.

Cumplicidade é mesmo a palavra a reter da noite por momentos como este. Não só no canto as suas vozes se complementam, mas a forma descontraída com que lidam um com o outro, as brincadeiras lançadas por Zambujo (imitando, a certa altura, os gestos a que Ana Moura recorre quando canta), transparecem um entendimento artístico e pessoal de salutar .

Nesta fase já tinham chamado a palco o convidado Jon Luz, no cavaquinho, que se juntou à banda que os acompanhou, de oito elementos.

Outro dos fascínios que Ana Moura e António Zambujo têm em comum é também a música tradicional portuguesa e depois do cantor ter lembrado como "Zeca Afonso é o maior de sempre", decidiram, ainda assim, homenagear Fausto, com o célebre O Barco Vai de Saída, entoada também pelo público. "Cresci a ouvir o meu pai cantar esta música", confidenciou no final Ana Moura.

Além dos seus repertórios, cada um arriscou cantar um tema do seu colega. Primeiro foi Ana Moura, com Flagrante, e mais tarde foi Zambujo, que se atirou ao conhecido Búzios, da fadista, sem deixar de salientar, entre risos, "cá se fazem, cá se pagam".

Já no encore António Zambujo protagonizou, sozinho no palco, um dos momentos mais aplaudidos da noite. Depois de muito pedida, o cantor interpretou a sua Lambreta, confidenciando até que gostaria de ver um "mar" de isqueiros à sua frente, pedido que foi prontamente acedido pelos milhares que encheram o coliseu. "Estou-me a sentir o Rui Veloso", disse em tom de brincadeira.

E como se celebrava o dia do pai, o cantor recebeu a visita do filho João, que permaneceu em palco até ao fim do concerto.

Se Ana Moura e António Zambujo têm duas carreiras bastante aplaudidas não só em Portugal, mas além fronteiras, isso muito se deve ao que se viveu no Coliseu de Lisboa. Ambos dominam com uma personalidade vincada o seu "ofício" e mostram que têm uma identidade musical complexa, onde não só vive o fado (mas este nunca é deixado para segundo plano).

Depois das duas datas em Lisboa, esta sexta-feira os músicos seguem para o Coliseu do Porto.

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