As canções de uma vida partilhadas num disco feito a dois

Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti falaram com o DN sobre o álbum em que interpretam temas de José Afonso e Jacques Brel.

A ideia de gravar um disco com Bernardo Sassetti já andava a "fervilhar" na cabeça de Carlos do Carmo há algum tempo, mas foi em Janeiro deste ano que a proposta foi feita ao pianista. Apesar dos muitos projectos que tinha em mãos, Sassetti decidiu embarcar neste projecto com Carlos do Carmo, que acaba agora de chegar às lojas. Nele os dois artistas reinterpretam canções de nomes incontornáveis como José Afonso, Sérgio Godinho, Jacques Brel ou Fausto, além de apresentarem dois inéditos.

"Há aqui um diálogo absoluto. E o que acho interessante neste disco é que há também uma tensão constante. A concentração é levada a um extremo tal, porque tinha de ouvir muito bem o sentido da palavra e perceber de que forma é que lhe iria responder e o que lhe dava para a palavra voltar a entrar, e o contrário também aconteceu". Assim nos explica Bernardo Sassetti a forma como estas canções foram nascendo, com uma extrema espontaneidade, onde nada era premeditado.

"Ficávamos hora e meia a conversar, a falar dos nossos filhos, da nossa vida, da nossa história, dos aldrabões, e depois íamos para o piano esboçar ideias e apaixonavamo-nos logo pelo tema. Nada foi pensado", conta-nos Carlos do Carmo, que foi o responsável por escolher algumas das suas canções preferidas para este álbum.

A espontaneidade com que os temas foram registados foi tal que quatro das dez canções foram gravadas no primeiro take. "Eu raramente reoiço os meus discos e este continuo a ouvi-lo, ando à procura de defeitos, mas como aquilo é tão espontâneo encontro muito poucos. Se fizéssemos outro take era apenas diferente", salienta Carlos do Carmo. Bernardo Sassetti acrescenta: "Numa altura em que os trabalhos de estúdio são muito estruturados, de tal forma que as pessoas se cansam deles, porque está tudo demasiado polido, aqui o que se ouve é tal e qual o que fizemos naquele momento, não há cá limpezas".

No entanto, nem todas as canções foram uma tarefa fácil. Quand on n'a Que L'Amour, de Jacques Brel, foi uma das que deu mais luta: "É um hino ao amor e tinha uma dúzia de possibilidades de cantar o Brel. Mas como é um hino tem um arranjo que tem toda a força do mundo. Na altura o Bernardo olha para aquilo e pensa 'como é que dois gatos pingados dão volta a isto?'. Ele até punha as mãos na cabeça e pela primeira vez senti-me deveras inquieto, mas também sentia a segurança que ele ia dar a volta ao texto", explica-nos Carlos do Carmo. Sassetti confessa que por vezes se sentiu "preocupado", e apesar de ter sido "o grande tormento" no final tornou-se "a grande alegria".

A concentração que era empregue em cada canção era tanta que Carlos do Carmo deixou mesmo uma confissão: "Depois de sair da cabine de gravação, íamos para o estúdio ouvir e eu literalmente atirava-me para cima do sofá". Daí que ainda não tenham planeado se este disco será levado para cima dos palcos: "Ainda estamos a saborear tudo isto. O disco ainda vai andar uns dias fora e nós precisamos de pensar, de reflectir, porque nunca fizemos um concerto só nós os dois e se o fizermos deve ser do género de ter enfermeira à porta do camarim para me levarem para o hospital", brinca o fadista.

No final, Bernardo Sassetti destaca que, além do repertório escolhido, onde se encontram ainda temas de Léo Ferré ou Violeta Parra, "há aqui uma química, que neste momento também pertence às pessoas. Nada disto foi feito com qualquer intuito comercial, há sim uma concentração absoluta entre duas pessoas que se foram conhecendo muito bem. E, de facto, ficámos muito amigos".

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