Arcade Fire: uma festa de sabor 'gourmet'

Foi um dos melhores concertos da história lisboeta do Rock in Rio e deixou claro que a música dos Arcade Fire pode chegar a muitos sem ceder à sua alma.

Um festim de canções bem nascidas, grandiosas nas formas e seguras na interpretação. Uma banda oleada e absolutamente capaz de dominar o palco e as plateias que passam à sua frente. E um alinhamento brilhante, que naturalmente destacou o irresistível disco que editaram em finais do ano passado, mas que soube dosear instantes dos anteriores, sobretudo de 'Funeral', álbum de estreia editado há precisamente dez anos e que merece já um lugar de referência na história da música do século XXI.

Sem pirotecnias, mas cientes da necessidade de pensar imagens para dar um corpo de palco às canções, os Arcade Fire mostram contudo que, na hora de estar em frente a uma plateia, o foco da atenção de quem os vê (e escuta, claro) deve estar sobretudo na música. E talvez por isso se explique de forma clara a excelência da atuação com que fecharam o dia de ontem no Palco Mundo e que viveu não apenas de um corpo de canções de travo gourmet, mas também de qualidades performativas que traduzem mais de uma década de trabalho continuado, num registo que tanto lhes conferiu um domínio dos instrumentos e da comunicação (não apenas verbal) com a plateia, como neles mostrou um grupo que nunca cedeu perante a progressiva ampliação da sua base de admiradores. De resto, poucos fenómenos de berço 'indie' atingiram este estatuto, parecendo claro que podem ter ainda conquistas a fazer sem que esse trajeto comprometa os caminhos naturais da sua música.

O concerto abriu ao som do tema-título do álbum editado em finais de 2013 e, ao passar depois por canções como Flashbulb Eyes (ensopada em sabores dub) ou Here Comes The Night Time (já na reta final do alinhamento), mostrou quão largos são hoje os horizontes de uma banda que representa a essência do que de melhor tem uma música que sabe escutar, integrar e assimilar. Sinais de personalidade que, na verdade, os distinguem entre o cada vez mais cheio (e nem sempre proporcionalmente interessante) caldeirão dos acontecimentos 'indie'. As eletrónicas, com maior evidência que nunca na música dos Arcade Fire no álbum de 2013, não tiveram semelhante protagnismo em cena, tanto que de fora do alinhamento do concerto ficaram temas como Supersimetry ou Porno, as faixas do disco onde as guitarras falaram menos alto. Houve breves referências em português (com Win Butler a mostrar ter melhor sotaque que Mick Jagger), e um piscar de olho à noção de saudade ao som de The Suburbs.

Não faltaram os cabeçudos - os Bobbleheads, como lhes chamam - que descobrimos há alguns meses quando os Arcade Fire deram a conhecer os primeiros sons de Reflektor, o seu quarto álbum de estúdio num teledisco de Anton Corbijn. Vinham na pele de duplos (um deles não era senão a neo-zelandesa Lorde, que minutos antes tinha ocupado o mesmo espaço) e partilharam o palco com os elementos da banda nas três derradeiras canções do alinhamento. A obra em vídeo do grupo teve ainda outra citação em palco quando algumas das imagens do mais recente We Exist, que desafiam as visões normativas de género, acompanharam essa que é uma entre as melhores canções do disco. A multidão (que atingia os 47.500, em números oficiais às 23.30) não repetia as enchentes dos dois dias anteriores. Mas, tal como os Arcade Fire, trouxe algo de novo ao Rock In Rio.

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