Algodão atua esta noite no Maus Hábitos, no Porto

É a primeira vez que Carlos Nobre, Pacman dos extintos Da Weasel, apresenta ao Porto o projeto Algodão, já com dois discos na calha. O concerto será hoje, às 22.30, no espaço Maus Hábitos. O músico falou com o DN.

Para um projeto mais intimista o nome do primeiro álbum não deixa de ser curioso, Uma Falaciosa Noção de Intimidade.

Sim, isso é uma frase de um dos temas do disco. Não sei, se calhar foi uma tentativa de baralhar um bocado as cartas todas que lá estão. Este primeiro disco, tal como o segundo, é muito pessoal, muito intimo, mesmo. Mas a intimidade que se partilha é sempre feita de uma forma que acaba por ser subjetiva e daí pode ser falaciosa ou não. Eu acho que escolhi este título para tentar baralhar só um bocado as coisas porque na verdade a intimidade não é falaciosa. Não ao longo deste disco, pelo menos.

Qual é o aspeto positivo de tocar para menos pessoas em salas mais pequenas?

É sem dúvida o contacto com as pessoas, é bastante diferente. Não tem a ver com uma preferência especial minha, tem mais a ver com o tipo de música em volta do Algodão. Só faz sentido em espaços pequenos porque a música e as palavras requerem uma atenção e concentração diferente do que num grande concerto. O lado positivo é perceber muito melhor qual é a reação das pessoas. A interação do público também é mais calorosa, porventura. Essa proximidade possibilita um contacto muito diferente de um concerto de grandes dimensões onde estamos afastados do público. Não sabemos bem que se está a passar na plateia e o público não percebe muito bem o que se está a passar no palco. Esse é o lado positivo.

Qual tem sido a reação dos seus antigos fãs, os fãs dos Da Weasel, face a este projeto?

Os Da Weasel, tocavam para pessoas de diferentes idades e vários gostos musicais. As pessoas que conheciam os Da Weasel a fundo, algumas delas, gostam do Algodão, se calhar as que conheciam somente o lado superficial dos Da Weasel não se identificam muito com este projeto, não sei.

Os Da Weasel terminaram mas as pessoas ainda não esqueceram o líder carismático que Carlos Nobre foi. Isso acaba por ser um entrave no momento de apresentar novos projetos com uma nova linha identitária?

Não sei, eu acho que tem tanto de entrave como de ajuda. Por um lado as pessoas podem ter muito carinho por Da Weasel e gostar mais da banda do que outro trabalho que

venhamos a fazer. Por outro lado, o facto de ter uma cara conhecida pode ajudar a abrir algumas portas, portanto tem tanto de positivo como de negativo.

Algodão já conta com dois discos mas o último, A Gramática Da Paixão Dramática, foi apontado com tendo uma maior transversalidade sonora e uma maior amplitude lírica.

Sim, foi uma evolução mais ou menos natural a partir do momento em que queria fazer o primeiro disco sozinho. Aquele primeiro passo queria que fosse solitário. No momento de apresentar o álbum ao vivo fi-lo já com dois músicos. Em conjunto criámos um química muito grande e no segundo disco houve, inclusivamente, composições deles e do meu irmão o Jay-jay. Em Uma Falaciosa Noção de Intimidade, o primeiro álbum, a música foi feita para servir a palavra, na Gramática da Paixão Dramática as coisas estão mais equilibradas. Apesar do Algodão ser um projeto onde a palavra tem sempre uma grande preponderância, claro. Neste segundo disco já a voz e a palavra servem a música, que deixa de ser uma rua de sentido único. Há mais vocalidade , mais frases melódicas.

Já explicou que a ideia base do último disco recaía essencialmente numa componente eletrónica, mas os temas acabaram por ter uma componente acústica mais forte, porquê esta mudança?

Não sei, sei que ela aconteceu. Houve uma transposição para instrumentos mais orgânicos, sim, mas foi um caminho que se escolheu a dada altura. Não houve assim um objetivo claro com isso, foi acontecendo. Se calhar o próximo disco será mais maquinal ou não, não sei.

Uma das novidades do novo álbum são as participações da Margarida Pinto e da soprano Catarina Molder. Porquê estas escolhas?

Quanto ao tema Uma mulher,queria que fosse uma mulher a cantá-lo. Já tinha participado no álbum Apontamento, da Margarida Pinto, lançado em 2006, e gostei muito. Ela acabou por reescrever a letra e dar-lhe o input que só uma mulher poderia dar. Foi bom porque para além de uma voz bonita é uma mulher com uma alma muito grande. Acho que conseguiu meter esses dois elementos na participação dela, o que foi muito bom. A participação da Catarina Molder não foi algo premeditado, aconteceu porque cruzámos caminhos aquando da gravação do programa Super Diva- Ópera para Todos, na RTP2. O tema, apesar dos sintetizadores, baterias, loops e por aí fora, tinha uma componente algo barroca. O som de alguns pianos deu-lhe uma estrutura mais clássica apesar da linguagem instrumental ser completamente outra. fez-se a coisa na hora e correu bem.

Até porque o Algodão não engana, este projeto seria decerto diferente se fosse concebido antes. Foi preciso esperar por uma maior maturidade, por um maior crescimento interior?

Sim. Não tive consciência do processo se desenrolar dessa forma mas essa é a leitura. O Algodão Não Engana acontece num momento em que ainda estava concentrado numa digressão dos Da Weasel. Tive que fazer as coisas muito espaçadamente e os textos não foram escritos para serem lidos, cantados, vistos ou musicados. Comecei a fazer esse exercício duma forma quase esporádica, como passatempo, e ao fim de um tempo juntei uns quantos temas e fiz um site onde os disponibilizei. O que é certo é que gostei muito de fazer esse exercício e a verdade é que alguns demónios, que precisavam de ser exorcizados, ficaram com o Algodão não Engana. Eu não precisei de esperar porque as coisas vão-se fazendo, mas de facto, dá para perceber que teve de haver o Algodão Não Engana para haver depois o Algodão.

As mulheres, as paixões e as relações continuam a ser sempre temas recorrentes?

Sim. Neste disco passa tudo por sentimentos muito exacerbados, daí o nome Gramática da Paixão Dramática. Tratam-se de paixões sejam elas amorosas ou não, uma coisa quase adolescente. Paixões assim pelas coisas, pessoas, momentos, por tudo. Foi o que aconteceu neste disco. O primeiro disco era muito virado para as mulheres importantes da minha vida, no segundo disco ainda lá estão, mas há espaço para outras coisas.

Como tem sido partilhar o palco com Gil Pulido e Nelson Correia?

Muito bom. É muito fácil trabalhar com esses dois putos. O contacto entre os nós os três aconteceu muito facilmente e estou muito contente por trabalhar com eles.

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