A obra-prima de Nick Cave com os Bad Seeds

O novo 'Push The Sky Away' é p 15º álbum que Nick Cave apresenta com os Bad Seeds, grupo central à sua obra discográfica desde 1984.

Título: 'Push The Sky Away'

Artista: Nick Cave & The Bad Seeds

Editora: Bad Seeds Inc. / Popstock

Classificação: 5 / 5

É certo que o título deste texto pode parecer uma certeza talvez demasiado absoluta quando estamos tão perto da data do lançamento do disco e perante uma obra onde não faltam grandes momentos. Na verdade são vários os discos marcantes que a obra de Nick Cave conheceu depois do fim dos Birthday Party. Com os Bad Seeds estabeleceu um primeiro - e pungente - período de produção que alcançou em Tender Prey (1988) um patamar de excelência. Dois anos depois, contudo, um homem num processo de profundas mudanças - novo relacionamento, a descoberta do Brasil e da cidade de São Paulo e particular e livre de "dependências" - dava-nos em The Good Son (1990) uma das suas mais belas coleções de canções. Um processo de evolução vocal - cedendo na visceralidade de outrora rumo a um espaço mais próximo do crooning - e um progressivo aprofundar de um relacionamento com a escrita (sem que tal implicasse o abandonar de temas, demandas e focos de interesse) talhou um percurso que ocasionalmente gerou outros instantes maiores, como podemos recordar nos álbuns Murder Ballads (1996) (2), No More Shall We Part (2001) ou o díptico Abbatoir Blues / The Lyre of Orpheus (2004).

Depois deste último disco, e ao longo dos últimos anos, Nick Cave aprofundou um relacionamento o cinema (assinando argumentos e bandas sonoras) e entretanto deu luz verde a um percurso alternativo mais próximo das raízes bluesey do rock'n'roll com os Grindermen (através dos quais gravou dois álbuns entre 2007 e 2010).

Push The Sky Away, assinalando o seu reencontro com a medula da sua obra - que são os Bad Seeds - cinco anos depois de Dig lazarus Dig!!!, é na verdade um fruto natural deste alargamento de horizontes de que tem vivido o seu percurso recente. E reflete claramente a partida de Mick Harvey, parceiro maior de longos anos, para o lugar da condução dos destinos musicais das novas canções tendo entrado Warren Ellis, colaborador não só nos Grindermen mas, sobretudo, na composição de música para cinema.

A noção de cenário que a experiência no cinema (e a companhia muito particular de Ellis) trouxe nestes últimos tempos aos universos de cave revela-se agora determinante na condução dos destinos que fazem do novo disco uma coesa, coerente e bem ordenada coleção de canções. Como páginas de um diário, compostas certamente com o mar (da sua atual residência) pela frente sucedem-se canções que mantém inalterado o protagonismo da voz de Nick Cave mas onde as guitarras surgem secundarizadas, cedendo maior visibilidade ao trabalho dos violinos, das teclas e de uma mais elaborada construção cénica feita de texturas ( por vezes orquestrais) que acentuam o carácter melancólico e a aparente placidez das canções. Aparente porque, no fundo, sob toda a elegância de formas que conduzem a composição revelam-se afinal histórias do lado errado da noite, da face mais sombria do amor, mantendo bem presentes olhares, figuras e sensações que têm cruzado marcas de expressão autoral centrais na obra de Nick Cave.

O trabalho lírico - que a presença central da voz destaca - revela-se como a outra das forças maiores e mais profundas da alma de um disco que cruza o belo das formas com um saber veterano na construção de narrativas, de personagens e de reflexões na primeira pessoa. Um disco de rutura? Nem por isso. Até porque um interesse recorrente (e transversal) pelas genéticas dos blues emerge em Higgs Bosom Blues. Ou pela nota final em que, no tema que dá título ao disco e encerra o alinhamento, deixa claro que o rock'n'roll é espaço de desafio que quer continuar a desbravar, ao cantar: "And some people say that it is just rock'n'roll / oh but it gets right down to your soul / you've gotta just keep on pushing".

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