A aclamação de Camané numa noite no CCB

Fadista apresentou o seu melhor durante um concerto de duas horas e convidou Mário Laginha, Carlos Bica e os Dead Combo para partilharem consigo o palco.

As cortinas ainda não tinham sido corridas quando começamos a ouvir Camané. Dono de uma voz muito particular, e que é no fado uma das que dá mais intensidade às palavras que interpreta, antes de se apresentar ao público que esgotava o Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (Lisboa), interpreta à capella Complícadissima Teia. E o mundo não parece ser suficiente perante a força daquela voz, que apenas ouvimos, mas da qual não vemos desde logo um rosto.

A simplicidade da mise-en-scène de palco acaba por refletir essa declaração de intenções. O que ali interessa é a voz de Camané, o seu talento interpretativo, o fado que carrega consigo. A coletânea que ontem à noite apresentou no CCB, O Melhor 1995-2013, apresenta essa força maior que é Camané no fado. E não o é só pela intensidade que dá às palavras que canta. É-o também pelo requinte interpretativo, pela entrega genuína, ao mesmo tempo que analisa intelectualmente cada fado. E se ontem ao fim de duas horas o CCB se levantou para o aplaudir, então também aplaudiu as escolhas criativas de Camané, os poetas e fados que tem cantado ao longo das últimas duas décadas.

Ontem, entre essas escolhas, estiveram alguns amigos de longa data. Com Mário Laginha recordou o espetáculo Vadios que há cinco anos apresentou naquela mesma sala, juntamente com Bernardo Sassetti, e interpretou Ai, Margarida, um poema de Álvaro de Campos com música do pianista. Antes saiu por momentos do fado e entregou-se, ao lado de Laginha, à Inútil Paisagem de Tom Jobim, já depois de terem arriscado uma versão de Abandono, de Amália Rodrigues, que só com a voz de Camané e o piano de Mário Laginha ganhou uma outra dimensão.

O contrabaixista Carlos Bica foi outro dos convidados do concerto de Camané e acabou mesmo por proporcionar o momento cómico da noite quando sai de palco enquanto não era suposto, tendo o fadista de o chamar até ele voltar ao seu "posto".

Convidou ainda a dupla Dead Combo, com quem tem mantido uma estreita colaboração. Camané já conhece o guitarrista Tó Trips desde os tempos da tropa, confessou ontem no concerto, e Pedro Gonçalves é também um grande amigo. A três recuperaram Inquietação, de José Mário Branco, e Vendaval, que foi dos temas mais aplaudidos da noite.

Não faltaram os fado emblemáticos do percurso de Camané. De Saudades trago comigo a um Mais um Fado no Fado, sem deixar de passar por Sei de um Rio, muito pedido entre os encores pelo público e que o fadista não deixou de parte.

Mas mesmo tendo sido este um concerto de celebração dos 18 anos de carreira de Camané, este mostrou como se mantém uma força vital no meio, revelando novos temas como Gola Alta, com fado de Alfredo Marceneiro, e Ai Silvina, Silvininha, mais um inédito de Alain Oulman que lhe vai parar às mãos, aqui com poema de António Gedeão.

No CCB viveu-se a aclamação merecida de Camané. E sabemos que vamos poder contar com ele na melhor forma para os tempos que aí vêm.

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