Mundo das artes lembra grande figura do pensamento português

Para a presidente da Associação Portuguesa de Realizadores, a morte de Manoel de Oliveira traz um sentimento de desproteção, "como se a Terra perdesse a camada de ozono".

A atriz Leonor Silveira afirmou hoje que o trabalho com o realizador Manoel de Oliveira lhe moldou a identidade e foi determinante no "rumo pessoal e profissional". A atriz, que se estreou no cinema aos 17 anos, em "Os canibais" (1988), afirmou hoje em comunicado que foi com Manoel de Oliveira que aprendeu "a gostar de cinema, a reconhecer o belo e a pensar no poder do tempo". "O meu amor pelo Manoel transcende a partilha artística. Esta é uma perda insuperável, mas a memória que me deixa será sempre feliz. Eu era uma atriz improvável. Hoje ele é o meu Mestre e eu a sua musa", afirmou.

A presidente da Associação Portuguesa de Realizadores, Margarida Gil, considerou que o cinema de Manoel de Oliveira tornará eterno o cineasta que hoje faleceu aos 106 anos. Para a Margarida Gil, o realizador é uma das grandes figuras do pensamento português, por ter refletido "como poucos" sobre a condição humana.

"Destaco a sua importância no século XX e XXI. Uma pessoa que carregou toda a memória do século XIX e XX e que refletiu sempre, através do seu cinema, sobre a humanidade e Portugal dentro da história da humanidade. É para mim talvez a grande figura do pensamento português. Pouca gente refletiu tanto sobre a condição humano como Manoel de Oliveira", afirmou à agência Lusa a realizadora, para quem a morte do cineasta traz um sentimento de desproteção, "como se a Terra perdesse a camada de ozono".

O fundador do Fantasporto, Mário Dorminsky, disse hoje que o cineasta Manoel de Oliveira foi "um marco no cinema em termos históricos", um "visionário" e um "precursor" do "neorrealismo italiano", com o filme Aniki Bóbó (1942), por ter trabalhado com atores não profissionais. Foi também um "precursor a nível mundial" com o documentário "Douro Faina Fluvial" (1931), defendeu. "Creio que o Manoel de Oliveira nos deu muito (...) Ao longo de 60 anos deu a imagem de Portugal de um país de cultura, mas que na verdade é um país inculto", declarou à Lusa, emocionado, referindo que Manoel de Oliveira é um marco pela "sua idade" e "pela sua vontade de viver e de trabalhar".

O ex-diretor do Museu de Serralves, no Porto, João Fernandes, disse hoje que, quando alguém como Manoel de Oliveira desaparece, a melhor forma de o celebrar será sempre criar condições para quem faz cinema em Portugal. "Sempre lutou por isso e sempre foi um exemplo de grande dignidade, porque nunca se submeteu a qualquer tipo de resignação, nem de demissão, nem nunca desistiu, por mais difícil que fosse e por mais impossível que parecesse fazer o próximo filme. Ia sempre lutar para o fazer", disse o subdiretor do Museu Reina Sofia, em Madrid.

"Apesar de ser conhecido nestas últimas décadas, passou muitas décadas em que não teve condições para desenvolver o seu trabalho. Quantos filmes o Manoel de Oliveira poderia ter feito que nós não vimos, porque ele não teve condições para o fazer nas primeiras décadas do seu trabalho?... Mesmo assim, fica-nos um tesouro imenso. Para ver, rever, pensar, repensar", acrescentou.

A ex-diretora da Cinemateca Portuguesa, Maria João Seixas, afirmou hoje, em Lisboa, que a morte de Manoel de Oliveira "é uma perda inestimável para o cinema e para a cultura portuguesa". "Esta perda magoa-nos e entristece-nos a todos, mas os grandes criadores não desaparecem. Ficam para sempre", comentou, em declarações à agência Lusa. "Era um grande senhor do cinema e da cultura, e fica um grande vazio que nos compromete a todos", disse Maria João Seixas, acrescentando que "apesar da pobreza que deixa, iluminou muitos com o seu génio".

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