Morreu o Nobel da Literatura Dario Fo

O dramaturgo, autor de quase 100 peças, ganhou o Nobel em 1997

O escritor italiano Dario Fo morreu esta quinta-feira, aos 90 anos. No dia em que se entrega um novo Nobel da Literatura, Itália diz adeus ao seu Nobel, que estava internado há 12 dias num hospital em Milão devido a problemas respiratórios.

O dramaturgo, autor de quase 100 peças, incluindo muitas sátiras ao poder, ganhou o Nobel em 1997, um ano antes de José Saramago. Foi também ator, ilustrador, pintor, ativista e viveu um romance de meio século com a atriz Franca Rame, a sua musa.

"Com Dario Fo, Itália perde um dos maiores protagonistas do teatro, cultura e vida cívica do nosso país", disse o primeiro-ministro Matteo Renzi. "A sua sátira, a sua investigação, o seu trabalho em cenografia, a sua multifacetada atividade artística são o legado de um grande italiano ao mundo."

Dario Fo nasceu a 24 de março de 1926 em Sangiano, na Lombardia.

Ganhou notoriedade internacional em 1969 com "O Mistério Bufo", uma epopeia dos oprimidos inspirada na cultura medieval. Em 1970, apresentou outra das suas obras primas, "Morte Acidental de um Anarquista", em que recorda a estranha morte do combatente Giuseppe Pinelli, que em 1969 se atirou da varanda da sede da Polícia de Milão, onde estava detido. Autor de "A Marijuana da Mamã é a Melhor", "Casal Livre" ou "Não Devemos Pagar", Dario Fo foi um batalhador e instigador de uma rebelião contra os poderosos e os hipócritas.

O seu ativismo político foi especialmente relevante nos convulsos Anos de Chumbo, entre os anos 70 e 80, quando criou a organização "Socorro Vermelho Militante" para proporcionar assistência legal aos presos políticos da esquerda.

Na década de 90 estreou "O Papa e a Bruxa", obra em que representa um pontífice autor de uma encíclica inverosímil, na qual defendia a liberalização da droga, o controlo da natalidade e o regresso da Igreja à pobreza.

O seu livro mais recente, publicado em setembro, incide na figura do investigador Charles Darwin: "Somos macacos por parte do pai ou da mãe?". Continha questões sobre a origem da vida e estava ilustrado com os seus desenhos.

Também no livro que publicou pouco antes de completar 90 anos, "Dario e Deus", no qual dialoga com a jornalista Giuseppina Manin, o Nobel se interroga sobre a religião e a espiritualidade, sob um ponto de vista irónico e satírico, características que sempre definiram as suas obras.

Os dardos de Fo vão em todas as direções, desde a defesa da desobediência civil em "Aqui Não Paga Nada" à história alternativa do descobrimento espanhol da América em "Isabel, Três Caravelas e Um Castelo".

Destacou-se também pela pintura, sobretudo na última etapa, com os seus "falso Picasso", ou de novo causando polémica pelo retrato que fez da atual ministra para as Reformas, Maria Elena Boschi, e que foi leiloado para financiar o Movimento Cinco Estrelas (M5S) de Beppe Grillo, que o dramaturgo apoiava fortemente.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG