Miguel Araújo: "Se não fosse a guitarra não tinha filhos"

A Lisboa que amanhece no dia da entrevista faz soar adjetivos gastos e descomedidos. Mas nem o caos causado pelo dilúvio nem a consequente falta de pontualidade do entrevistador perturbam Miguel Araújo. Com a sua "guitarra anã" aproveitou o tempo: "Estava à sua espera, saiu-me uma musiquinha e gravei-a logo. Esta vai ser um grande êxito", e ri-se. O cantor e compositor tem novo disco em nome próprio. Giesta, sucessor de Cinco Dias e Meio e Crónicas da Cidade Grande é uma viagem à infância do autor de Os Maridos das Outras.

Giesta é o nome da terra (subúrbio do Porto) onde passou a infância. Também nasceu lá?

Tragam toalhas e um balde! Não, nasci na maternidade. Vivi lá até aos 10 anos. O meu pai e os seus irmãos é que nasceram em casa.

A casa da avó foi engolida pela urbanização.

Quando eu nasci já tinha sido engolida. A casa de que falo no disco é do lado materno. A minha família paterna é mesmo do Porto, Baixa, mas o meu trisavô comprou uma quinta e instalou-se lá. Do lado materno, o meu avô era médico, afastou-se do bulício da cidade e fez uma casinha numa zona que nos anos 50 era rural, com vacas a pastar, e o comboio ao longe a deitar vapor. Nos anos 70 foi o caos total e quem for lá agora vê o que eu vi. São prédios e prédios num subúrbio.

Mas ainda se brincava na rua?

Havia espaço para a brincadeira, mas no jardim da casa da minha avó.

Porque decidiu fazer esta viagem ao passado?

Não é bem decisão. Em nenhum dos discos parti de uma ideia e comecei a fazer músicas em função dela. É mais ao contrário. Estou sempre a fazer músicas e tenho dezenas e dezenas feitas ou partes, e agrupo-as a posteriori. Hoje em dia faz sentido lançar um álbum assim e não um conjunto de 12 temas dispersos.

Ainda não tem 40 anos e já está a fazer um disco revivalista.

Estou na meia-idade. É a altura dos balanços. Mas não é um disco saudosista ou revivalista. É um disco de memórias, como o José Luís Peixoto escreveu sobre a infância em Ponte de Sor aos trinta e tal anos no Cal. O último fiozinho que me ligava ao sítio onde nasci era a casa da avó paterna, que foi vendida. O fio fica cada vez mais tenso até que rompe. Adoro a terra e vou lá com todo o gosto, mas já não há natais, o último dos meus tios que morava lá morreu.

Esse tio foi um dos que o levaram para a música?

Não, era irmão de um dos músicos que tinha uma banda. A certa altura os meus primos, filhos desses tios, acharam que fixe era termos uma banda, mas não sabíamos tocar. Foi-me proposto o posto de baixista. O meu tio Sérgio, que é o mentor da banda, disse: "O Miguel é muito bom rapaz, mas não deve ter jeito nenhum para a música porque o pai é um desastre". O meu primo respondeu que eu tocava bem flauta nas aulas. Então eu fiz uma audição a tocar flauta. Eu não sabia na altura, mas tinha grande ouvido. E depois da audição compraram-me um baixo. Aprendi a tocar muito rápido, tenho um jeito natural para os instrumentos.

Aprendeu a tocar sozinho?

O meu tio desenhou-me num papel A5 como é que se punham os dedos e como é que se afinava. Fez-me um esquema que foi o que meti na cabeça até hoje, foi a minha aula musical. O que sei de teoria musical é esse papelinho. E ainda hoje, inconscientemente, é esse papel que está na minha cabeça. Eu tinha muito mais interesse que os meus primos, passava horas agarrado à guitarra e horas a ouvir música e a ver os concertos que gravava na televisão, punha para trás para ver onde é que os guitarristas punham os dedos.

Os tios emprestavam música?

Sim, um deles, que já morreu também, era um dos guitarristas da banda, tinha uma grande coleção de discos, coisa que em minha casa não havia. Não havia aparelhagem sequer. Nunca ouvi falar de ninguém que não tivesse música em casa. O meu tio gravava-me em cassetes coletâneas de Stones, Bob Dylan e assim. Os tios foram os meus mentores e foi essa a música com que me cultivei e pela qual me apaixonei. Viciei-me numa música que já não existia. Estávamos em 1989 e o meu pai revelou-me que os Beatles já não existiam. O pessoal da minha escola ouvia outras coisas, New Kids on The Block, Technotronic. Odeio a música dos anos 80, Depeche Mode, Duran Duran, detesto essa porcaria toda. Era eu contra o resto do mundo. Perguntava a toda a gente quem era o Eric Clapton e ninguém sabia.

E o canto?

Começou no outro dia. Quando digo que não sou um cantor natural ou que não tenho jeito para cantar, as pessoas pedem-me para não o afirmar, "é uma estupidez e parece falsa modéstia". Mas não é, porque o contrário passa-se com os instrumentos: eu tinha muita facilidade para tocar, na escola era o tipo da guitarra, levava a guitarra para todo o lado, tinha jeito e ouvido.

E sucesso entre as meninas.

Senão estava lixado. Se não fosse a guitarra não tinha filhos hoje. Do que dependesse de mim o nome Araújo não passava. Eu era muito envergonhado e ainda sou.

A guitarra é um grande desbloqueador.

É, só que eu não cantava, tinha vergonha. Fiz parte de mil bandas no liceu e nunca era o vocalista. Só comecei a cantar ao compor para os Azeitonas. Os Azeitonas é uma banda, não no mau sentido, mas no bom sentido, totalmente amadora. Eu era o que desafinava menos, então cantava em algumas das músicas. Já tinha quase 30 anos quando comecei a cantar.

Saiu naturalmente?

Nada. Para já tenho problemas de rinite e de sinusite. É como alguém ter artroses nos dedos e dedicar-se ao piano.

Entretanto começou a ter aulas?

Se me fossem dizer como é que são realmente as coisas eu passava-me. Já não vou a tempo. Bem ou mal, é assim que sai a voz.

E a prova é que o público gosta. De outra forma não enchia os coliseus com o António Zambujo.

Vinte e oito vezes... é como um daqueles vídeos de um tipo que cai de skate e que fica viral, às tantas torna-se inexplicável. Nós fomos os gajos que caíram de skate, mas na vida real.

Será também pela vossa forma de estar, diria que de anti-estrelas?

As pessoas que gostaram do concerto apontavam o nosso à vontade e tal. No teatro há o conceito da quarta parede, a que divide a cena do público. A Eunice Muñoz não se pode descoser como nós, quando aparece alguém e dizemos "Chegaste atrasado, senta-te aí, já vamos a meio". Na maior parte dos concertos também há essa quarta parede, o músico está a fazer o seu número. As pessoas gostaram de ver uma antiperformance, músicas a parar a meio, não sabermos a letra e vê-la no iphone... Mas esse facto não puxa 80 ou 90 mil pessoas.

Voltando à questão da memória, no livreto vai ao pormenor, por exemplo, de falar na camisola do Paulo Dimas no programa do Raul Durão.

Ah, agora está outra vez na moda, são aquelas ugly sweaters, com padrões aos losangos. A minha mãe espetava-me dessas também, com calções.

Mas isto para perguntar: como é que chega aos pormenores?

Não sei. Reparo mais nos pormenores das coisas do que nas coisas em si. Noutro dia alguém perguntou num grupo se sabiam marcas de lavatórios. Ninguém sabia e eu lembrei-me de dois nomes.

É também nos pormenores das letras que uma geração se revê.

Acho que sim, mas espero que vá além disso. Adoro discos em que há referências de que não faço a mínima ideia do que são. Prendo-me muito mais a uma música que seja detalhada do que se for lacónica. Paradoxalmente torna-se mais ampla com pormenorezinhos. Há uma música dos Dire Straits que dou como exemplo, que é o Wild West End, em que Mark Knopfler descreve o seu dia.

E o que é o chicote na porta da despensa, no tema 1987?

É um pormenor que ninguém sabe. A minha avó era viúva e na despensa da cozinha tinha um chicote para se defender dos ladrões. E ameaçava-nos com o chicote caso nos portássemos mal. Claro que isso nunca aconteceu, mas tínhamos medo. A minha avó vivia com duas irmãs e tinha 13 crianças a cargo, por isso tinha de ser com a ameaça do chicote.

Outro momento do disco é sobre a ida à cidade. Era um deslumbramento ir à cidade?

Um bocado, mas não era só meu, era da cidade em si. Quando abriu o centro comercial Brasília havia excursões, porque foram as primeiras escadas rolantes em Portugal. E a música fala sobre uma coisa engraçada, que continua até hoje, que é esse fascínio pelo estrangeiro. O Centro Comercial Dallas tem uma fachada em espelho e esse nome por causa da série de TV americana. Se uma pessoa quer aferir a mentalidade de um povo é olhar para os nomes dos estabelecimentos. O 1987 é isso.

E também é o feito do FC Porto.

Em Munique já tinham a festa preparada. Foi uma coisa incrível, ainda por cima com um golo de calcanhar. Vibrei com esse momento, era puto, mas não gosto nada de futebol. É-me totalmente indiferente, é como as telenovelas brasileiras.

Não jogava a bola?

Zero, não tenho jeito nenhum. Mas adoro as músicas que falam sobre futebol, como uma do Caetano Veloso em que fala dos melhores passes do Pelé.

A capa de Giesta é um desenho seu. É o álbum em que mais se expõe?

Não é bem expor. Foi tudo feito em minha casa: desenhei a capa, gravei o disco, fiz as músicas. É um álbum caseirinho, pronto. O disco é um bocado tosco, de certa maneira. A minha música é sempre um bocado tosca. Mas não é no mau sentido, eu gosto de música tosca. O disco de que mais gosto do Paul McCartney é o primeiro dele. Foi gravado em casa, tem músicas que acabam a meio, ouve-se enganos.

Mas aqui não há nada disso.

Ouve-se a cadeira a ranger, vê-se que não é uma superprodução feita em estúdio. E a capa também tinha de ser tosca e caseira para refletir o que está lá dentro.

Agora é colunista da Visão. Como está a ser a experiência?

Estou a gostar, mas saem com mais facilidade músicas do que textos. É uma angústia porque deixo sempre para o fim. Ninguém me vai destruir por causa das crónicas, mas as pessoas não permitem muito estes namoros extraconjugais. Tenho muito mais público para a música do que para as crónicas, obviamente. A sensação que dá é que ninguém vai ler. (risos)

Gosta de ser levado a sério?

Há quem me leve a sério. Não tenho uma persona artística definida, nem quero ter. Nem teria jeito para trabalhar uma imagem de mim próprio. A única maneira que consigo em ir para o palco é com a roupa que tenho vestida. Às vezes vou para o palco com a chave do carro e o telemóvel. Foi a maneira que encontrei de ir para o palco senão eu entrava em pânico. Deve ser a coisa menos encenada do mundo. Mas não vou trabalhar à volta da minha imagem em torno de uma eventual unanimidade. Isso é impossível.

Falámos das letras. E musicalmente, sente mudanças neste disco?

Inevitavelmente. Apesar de ter a mania de que não me afirmo como cantor, sou obviamente cantor porque sou eu quem as canta. Cantor, músico, produtor, guitarrista, contrabaixista, pianista, autor das músicas e das letras. E tenho vindo a evoluir em cada um deles.

E dessa forma sente mais o peso da responsabilidade?

Gostava de não me preocupar com esses detalhes. Invejo imenso o Zambujo, por exemplo, que não faz a mínima para que estúdio vai, chega lá, canta. E ainda com o táxi a trabalhar, acabado de gravar o disco, vai-se embora. Há coisas que só dá para experimentar na intimidade do lar, então montei um estúdio em casa por causa disso. Gosto mais da abordagem de estar ao meu ritmo, sozinho, sem gente a ver. Faço as coisas da maneira que quero.

No meio disto, há tempo para escrever para outros músicos?

Não escrevo propriamente para outros músicos. Já disse em entrevistas que sim, mas é mentira. Estou sempre a fazer músicas; quando alguém me pede vou ver o que tenho e acabo a letra em função à voz. Tenho muita dificuldade em lidar com encomendas concretas. Fiz isso para um filme, A Canção de Lisboa. Arrependi-me e acho que não vou voltar a aceitar. Como é que me posso comprometer com uma coisa que ainda não existe? Tinha de olhar para o guião e depois construir quatro temas.

Toca todos os dias?

Toco, mas não é praticar guitarra. É uma coisa esquisita, mas é assim que as canções aparecem. É um trabalho meio inconsciente. Quando tentei fazer as primeiras letras, aí para aos 15 anos, e durante 10 anos, não consegui fazer nenhuma, porque achava que era um trabalho consciente, uma pessoa sentar-se e agora vou fazer uma música. O processo não é de maneira nenhuma esse. É uma melodia que anda a assobiar-nos na cabeça.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG