Marina foi de Espanha a África a nadar e chegou à Póvoa

O festival literário Correntes d"Escritas reúne 80 escritores, a maioria estrangeiros. Estivemos à conversa com alguns destes autores, a saber das suas histórias.

Termina hoje na Póvoa de Varzim mais uma edição das Correntes d"Escritas, a 18.ª que dá a maioridade ao mais antigo festival literário do país. Como é habitual, ao corrupio de escritores vindos de toda a lusofonia juntam-se os da língua espanhola, também de todas as partes onde se fala a outra língua ibérica. Autores que estranham que o encontro se localize numa pequena cidade mas que tenha muito público no auditório para os ouvir, que seja logo às dez da manhã e num dia de semana, ou que estes tomem notas sobre o que dizem.

Jordi Llobregat veio de Valência para promover o seu livro, O Segredo de Vesálio, cidade onde é diretor do festival literário Valência Negra, por isso ainda mais encantado fica com as multidões que acorrem ao cineteatro onde a maioria dos eventos acontece: "Conheço muitos festivais e este tem uma característica, é muito literário e não lhe falta público, pois são muitos os que não conseguem atrair leitores suficientes." Recorda que leu um estudo recente onde se dizia que se escritores aceitassem todos os convites precisariam de cem dias por ano para viajar: "Ou seja, não tinham tempo para escrever se vivessem a promover o seu trabalho. É importante o contacto com os leitores e que se vendam livros nesses eventos, porque vivemos um tempo em que as sociedades só são livres se houver cultura."

Claudia Piñero veio de muito mais longe, da Argentina, e teve em tempos um romance publicado em Portugal. Dentro de meses terá um segundo e a Póvoa surge por essa razão: "Já estive em Portugal a convite da Gulbenkian mas só agora, à segunda vez, pude aceitar o convite das Correntes." Está impressionada com o que vê: "Fiquei muito surpreendida com os temas sugeridos para debate e nervosa com a sua exigência, pois é preciso pensar bem o que dizer e obriga-nos a elaborar um discurso para não defraudar o público." Também repara que a sala está sempre cheia de leitores: "Na maioria dos festivais, as conversas são muito mais improvisadas do que aqui e muitas vezes repete-se o que já se disse antes."

Também do outro lado do Atlântico chegou a espanhola Marina Perezagua, que vive e é professora universitária em Nova Iorque. Quando se olha para a sua bibliografia salta à vista o sucesso mundial do romance Yoro, amplamente traduzido e que refaz o legado da bomba nuclear de Hiroxima. Outro dado da sua biografia que surpreende é o facto de no ano passado ter atravessado a nado os 14 quilómetros que separam o Sul de Espanha do Norte de África: "Era um desafio antigo, de quando era menina e em dias claros via terra do outro lado do mar e imaginava chegar até lá nadando." Mesmo que houvesse algo que a perturbasse então: "De vez em quando dava à costa um cadáver, por isso fui crescendo a pensar que era uma privilegiada por ter nascido 14 km a norte." Foram 3 horas e 56 minutos de natação que não esquece: "Treinei bastante, mas o mar é que tem a última palavra. Tive sorte em o conseguir fazer."

Mais distante estava o mar da Póvoa, mas também lá chegou. É a primeira vez que vem, mas já percebeu que a "logística" é muito eficiente: "Há mais diálogo do que é costume entre escritores e a maioria não proporciona esta fluidez de conversas entre colegas." Marina Perezagua não gosta da exposição pública dos festivais: "Essa é a parte pior. Tenho quatro livros e nos três primeiros nunca fui a um encontro destes. Sou muito tímida e não aprecio vender um produto pois não é o meu trabalho. Aqui, é mais fácil fazê-lo e apoiar os editores que apostam nos meus livros." Agradece o sucesso imediato de Yoro e as boas críticas: "Tenho muitos colegas que escreveram livros fantásticos e passaram despercebidos." A trama do romance surgiu-lhe após o atentado do 11 de Setembro: "Parti de um cenário verdadeiro, mas o resto é criação e falar de um outro Ground Zero." O tempo é o da Segunda Guerra Mundial, que não está na moda: "Seria mais fácil escrever sobre a Guerra Civil de Espanha! Este passa-se em parte no Japão, o que foi um desafio." Já tem um novo romance, que relata as aventuras de Quixote e Sancho na atual Nova Iorque, tema que ganhou força com a era Trump.

Do Brasil, da cidade de Santos, chegou Alexandre Marques Rodrigues para falar do seu romance Entropia. Conhece bem o ambiente dos festivais: "Estranha-se mais quando são fora do país, mas para mim é uma experiência nova lançar um livro num país onde a perceção da minha história é muito diferente." É que ao ouvir as opiniões dos leitores portugueses, descobriu que o seu romance é bem mais brasileiro do que até então pensava: "Lá, ele é muito pouco brasileiro, porque não é o estereótipo do país e aqui os comentários são ao contrário. O retrato da emigração alemã e a música clássica destoam um pouco no Brasil." Quanto ao Correntes d"Escritas compara-o à FLIP: "É um universo diferente e curioso e lembra-me Paraty e o festival de lá por causa de ser uma cidade mais pequena e com uma arquitetura muito antiga." Uma das situações que mais o surpreendeu foi a resposta de uma mulher-polícia quando se perdeu nas ruas da Póvoa de Varzim: "Ela disse-me logo: é por causa do Correntes? Sente-se que a cidade acolhe o evento."

Nasceu em Cuba, mas agora Karla Suárez vive em Lisboa depois de ter estado em Roma e Paris. Já é a quinta presença desde 2002, data e que apresentou no festival o seu primeiro romance: "Aqui encontramos pessoas de muitos lados, escritores da América Latina, África e Europa. É um ponto de reunião que se torna importante até na vida profissional de um escritor. Até conheci aqui o meu marido!" Para a autora de Um Lugar Chamado An-gola, que trata da presença de cubanos naquele país após a independência em 1975, o Correntes permite partilhar muitas ideias com gente bastante di-ferente e tem muito público: "O que é ótimo após a solidão da escrita do livro."

É a primeira vez que Tony Tcheka deixa a Guiné-Bissau para vir à Póvoa apesar de já ter sido convidado várias vezes: "Nunca foi possível conciliar agendas." Está a gostar: "Há muito convívio entre escritores e, principalmente, encontro muita gente ligada ao ensino e à educação e especialistas em literatura. É isto que torna este festival tão diferente, porque não esperava que fosse tão aberto e com tanta participação. Os debates continuam fora do auditório, durante as refeições e no hotel." Por isso conclui: "Uma coisa é conhecer os livros, outra os seus autores." Até agora não ficou desiludido com quem conheceu: "É bom ver os autores sem o seu fato de operário das letras." Como não tem os seus quatro livros editados em Portugal, espera que a partir de agora isso se torne uma realidade.

Para o espanhol Ignacio del Valle o Correntes d"Escrita é quase uma rotina: "Venho pela terceira vez promover as aventuras do meu detetive. Todos os festivais literários são uma ilha de esperança em qualquer país porque se pode falar o que se quer e todas as opiniões têm valor." No entanto, avisa o autor de Céus Negros: "Os festivais não são todos iguais, e o importante é que se renovem. No caso deste, fazem falta mais autores novos."

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