Lusitânia, a terra que os romanos demoraram 200 anos a ganhar

O Museu Nacional de Arqueologia mostra a partir de hoje uma exposição que reúne estátuas, utensílios e marcas da província que ia do Douro ao Algarve e se estendia até Espanha.

É preciso recuar a antes de Cristo para situar o nascimento da Lusitânia romana, a província que une parte do território que é hoje Portugal e parte Espanha. Mais precisamente: abaixo do Douro e até ao Algarve, parte da Extremadura espanhola e uma pequena parte da Andaluzia. A época do nascimento de Augusta Emerita, Mérida, fundada do zero , como Brasília, compara José María Álvarez Martínez, diretor do Museu Nacional de Arte Romana da cidade espanhola e comissário da exposição. Foi lá que a exposição Lusitânia Romana se viu primeiro, entre março e . Hoje é inaugurada no Museu Nacional de Arqueologia (MNA).

Fronteiras à parte, 20 séculos depois, o museu espanhol e o museu português reuniram 210 peças (81 de Portugal e 129 de Espanha), entre elas vários tesouros nacionais, das guerras pela conquista do território ao legado que este povo deixou em localidades tão distintas como Bobadela, em Oliveira do Hospital, a Quinta das Longas, em Évora ou Almendrejo, perto de Badajoz. O abastecimento das populações faz-se por via marítima, do Mediterrâneo até ao porto de Olissipo, (Lisboa) e também pelo Tejo. "A margem está marcada por um caminho de sirga que servia para os animais puxarem barcaças", explica Carlos Fabião, professor da Faculdade de Letras.

O primeiro de dez núcleos temáticos da exposição contextualiza começa antes da chegada dos romanos. "Há uma grande diversidade de povos, não há uma unidade étnica", aponta o investigador, também ele comissário científico da exposição.

Uma das primeiras peças é uma dessas placas e "foi encontrada dentro de um forno em Arronches e fala de um sacrifício às divindades". Álvarez Martinez sublinha que está escrito em latim com a fonética da Lusitânia. Uma das opções para esta exposição foi traduzir para português de hoje todas as inscrições, nota António Carvalho, o terceiro comissário científico da exposição e anfitrião da exposição como diretor do MNA. Assume-se quando não se consegue ler tudo.

"[Os romanos] Demoraram dois séculos a impor-se na Península Ibérica", conta o diretor do museu espanhol. "César conquistou a Gália em 25 anos". "Topograficamente é complicado", justifica Álvarez Martinez. Há relatos de como os soldados eram obrigados a comer ervas e animais de caça".

Tentam submeter os povos locais e, como provam várias peças da exposição, os indígenas chegam a ter poder no governo romano. É o que diz o relógio oferecido por um cidadão de Augusta Emerita à aldeia onde fica hoje Idanha-a-Velha, recebido por quatro locais. Uma vez vencidos, "continuam a viver como antes", diz o diretor do Museu de Mérida. E submissão não é metáfora. "Dois governadores de províncias hispânicas chegaram a acordo com os locais e esse acordo foi recusado em Roma."

Pressão demográfica

Uma outra teoria é lançada por Carlos Fabião durante a visita à imprensa, ontem de manhã. "O crescimento demográfico implica a reorganização e pressão sobre os recursos". Há relatos que sustentam esta ideia, falando de uma população sempre em marcha, com os seus haveres".

Viriato emerge nesta época, no decurso de uma guerra com o "pérfido governador Galba". Fabião relata a história: "Ele diz que se eles se desarmarem lhes dá terras. Eles fazem-no e ele dizima-os". Viriato sobrevive e quando um governador promete instalar a população, ele não acredita. A guerra com os romanos dura até à sua morte. Pelas vitrinas do primeiro núcleo da exposição, desfiam-se capacetes, uma falcata (espécie de pequena espada), pequenas estátuas e várias peças em prata, amalgamadas, em resultado de terem sido escondidas. São testemunhos da empreitada romana para conquistar uma zona que pretendem entregar em forma de agradecimento aos militares e pelo seu minério.

Um dos tesouros da exposição é uma placa com um contrato de exploração do couto mineiro de Vipasca (Aljustrel), que contém informações sobre os mercenari (trabalhadores por conta de outrem), legislação sobre o mestre-escola, impostos e outros detalhes da concessão. É uma das duas únicas que se conhecem em todo o império romano.

A exposição documenta a vida económica da época e resgatou ânforas destinadas a servir de contentores para preparados de peixe e, acredita-se, vinho. De Mérida vieram dois detalhes da vida em sociedade. Uma telha e uma fragmento de cano para o transporte de água.

A exposição encerra a 30 de junho em Lisboa, encerrando a programação da Mostra España 2015. Viaja até Madrid em julho para se mostrar no Museu Arqueológico Nacional.

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