Luísa Sobral: "Dá muito trabalho voltar à simplicidade"

Foi, a expensas próprias, à procura da diferença, para mudar. Gravou um disco inteiro lá longe, com um produtor e um grupo de músicos "desconhecidos" mas internacionalmente famosos. Agora, Luísa fala de Luísa e do estado de graça. Ah, é verdade: também foi mãe

Chega ao terceiro disco "adulto" e define-o através de três palavras: "orgânico", "cru" e "canção". Talvez aqui coubesse mais uma: pessoal, até por se chamar simplesmente Luísa. Depois de There"s A Flower in My Bedroom, lançado em 2013, viveu três meses em Paris ("a fazer turismo, ver concertos e exposições"), até reencontrar a segurança e a certeza de que quer estar por aqui. Fez uma digressão africana - pela África do Sul, pelo Botswana, pelo Zimbabwe e pela Namíbia, país em que se "imagina a viver" -, fintando involuntariamente os países de expressão portuguesa. Em tempos sucessivos, não sobrepostos, reconquistou a simplicidade e descobriu a maternidade. Pagou do seu bolso grande parte das despesas do novo álbum, por querer chegar a um destino distinto dos anteriores. E cresceu (como cresceu!), profissional e pessoalmente. Ainda bem.

Como é que, de tantos produtores possíveis, se chega precisamente ao Joe Henry, que é um dos mais geniais e menos conhecidos da cena norte-americana?

Neste disco, o meu manager e eu pensámos previamente que valia a pena tentar trabalhar com alguém que tivesse um som diferente do meu, com quem se pudesse fazer um casamento perfeito, no sentido de conseguir alguém que acrescentasse, que não fosse igual ao que eu já tinha feito. Depois de dois álbuns (excluindo o das crianças), eu tinha um som. Mas não queria repetir. O Vasco [Sacramento, manager] gosta bastante do Joe Henry e, entre as várias hipóteses, mandou-me discos dele, para eu ouvir. Ora, o Joe tem um som mais cru, mais rude, vá lá, e eu pensei que era daquilo que a minha música precisava. Eu tenho um lado demasiado doce que não queria repetir, que precisava daquele contraponto. Em Portugal, é muito difícil encontrar um produtor que funcione "chave na mão", a quem se entregue tudo para que ele faça. Neste caso, ele produziu mesmo: eu sentei-me, observei, ia dizendo umas coisas porque não consigo ficar calada, mas foi ele que produziu. E eu gosto imenso do resultado.

Acontece que o Joe Henry é visto como um homem que brilha, passe o exagero, mais pelo que corta do que pelo que inclui ou carrega...

Sim, exato. Um dos aspetos decisivos da produção dele esteve na seleção dos músicos e na escolha das canções. Aí, foi muito engraçado: ele escolheu seis e eu outras seis. Ora, entre as "dele" estavam duas que eu não teria escolhido. Agora estão entre as minhas favoritas... Isso é fantástico: trabalhar com alguém que consegue ver o potencial de canções de que eu não tinha a distância necessária para avaliar... É o caso de Alone, a primeira, que eu nunca pensei que viesse a estar no disco. Escrevi-a num quarto de hotel, em Washington, mas nunca lhe liguei muito. Agora, gosto muito. Essa e o On My Own, que também passou a ser das minhas preferidas...

Voltemos atrás, ao caminho até ao Joe Henry...

Mandámos as canções ao manager, que respondeu no mesmo dia, dizendo que tinha a certeza de que o Joe ia adorar. Ele respondeu no dia seguinte e queria trabalhar... Quando ele escolheu os músicos, eu fiquei um bocado aflita, porque era eu que estava a investir, juntamente com o Vasco. Nada disto foi barato, mas eu encaro isto rigorosamente como um investimento para um passo que eu senti que tinha de ser dado. E, note-se, não estou nada arrependida... Mas houve um momento em que pensei, ainda mais quando soube que íamos gravar praticamente sem ensaios: e se isto corre tudo mal? Depois percebi que eles são mesmo grandes músicos... Eu ia para o meio do estúdio, tocava-lhes a canção, eles tiravam umas notas e ia cada um para a sua cabinazinha, gravar... O estilo do Joe passa por aí: uma vez escolhidos os músicos, ele não intervém muito, porque quer que todos sejam criativos. Deixa os músicos à solta... Ele disse-me, em relação ao Jay Bellerose [baterista] que ele era um pintor e que era preciso dar-lhe espaço para ele pintar a música... Mas eles todos são assim!

Deve ser um descanso e, ao mesmo tempo, um fascínio gravar assim...

Há uma canção, o I"ll Be Home with You Tonight, em que conversámos, gravámos e concluímos: isto vai ficar assim, não vai melhorar. Foi gravada ao primeiro take. Eles talvez achem isso normalíssimo, eu não achei... Gravámos o álbum em três dias e meio e nunca fizemos mais de três takes.

Nem sequer da voz?

Eu não gosto de refazer takes de voz... Às vezes, prefiro que haja imperfeições, mas gosto que a voz seja gravada ao mesmo tempo que os instrumentos, porque ganha uma carga emocional que eu nunca vou conseguir reproduzir se optar por repetir... Mas foi tudo assim, muito orgânico... Eu conhecia alguns dos músicos de outras paragens, desde discos da Madeleine Peyroux a uma banda sonora de que gosto muito, Inside Llewyn Davis, mas não andei a investigar mais nada sobre eles... Além da qualidade, gostei da humildade: eu fiquei a saber dos percursos de cada um, mas em conversas, não em momentos de exibição. Além disso, como eu tenho o Curso Superior de Música, falava a mesma linguagem deles, também não era a coitadinha que estivesse ali no meio, perdida... Acho que ficámos com uma ótima relação, depois de ultrapassada a timidez que, curiosamente, era maior do lado deles do que do meu.

Portanto, pode dizer-se que o desfecho correspondeu à expectativa?

Sim, sim... Há muito tempo que eu andava atrás de um som assim - é quentinho, é, de alguma maneira, americano... Quando o engenheiro de som [Ryan Freeland] me mandou as músicas, ainda antes das misturas, eu já gostava... Tem o som do folk, por causa dos músicos (que tocam muito folk) e por causa das minhas audições nos últimos tempos. Ainda tem um bocadinho do jazz, também...

Esta mudança também é favorecida pelo tipo de composição?

Acho que são as minhas canções deste momento... São mais "canção", mais preocupada com a letra... E também com o facto de eu ter chegado a um momento em que decidi voltar para a simplicidade. Depois de se estudar jazz, às vezes, não é fácil esse regresso. Mas acho que muitos músicos e artistas sentem essa necessidade. Eu vejo isso com pintores, como Picasso ou como Miró, que, a dada altura, só fazia um traço... Não me estou a comparar com o Miró [risos], mas acho que é um dado comum esse regresso à base, ao simples... Eu sempre ouvi Dylan ou Tom Waits, mas agora vou ouvindo cada vez mais folk e dou de caras com três acordes em que está tudo, não é preciso elaborar mais... Neste caso, não há grandes solos, não há complicações... Todos os arranjos são espontâneos.

A simplicidade é algo que dê muito trabalho?

Não... Dá muito trabalho voltar à simplicidade, mas é o que há de mais genuíno. Há uma fase em que tentamos transformar o que fazemos em algo mais difícil - para mostrar que sabemos. Portanto, o delicado é voltar à simplicidade... Neste disco, não há exibicionismos de espécie nenhuma, nem sequer vocais. É assim a música de que eu gosto, a música que eu ouço, é assim que trabalham as minhas maiores referências... Veja-se o caso da Joni Mitchell, que diz agora que não gosta de ouvir a forma como cantava antigamente, que era exibicionista e que se tornou mais serena, mais simples, por exemplo, no disco com cordas [a coletânea Both Sides Now] em que ela regrava e soa ainda melhor. Embora eu adore tudo o que ela fez...

Há outra "novidade" neste disco, que é um sentimento de felicidade...

Pela primeira vez, não tive medo de ser pirosa, de falar de amor e de ser tudo uma coisa demasiado cor--de-rosa... Eu cantava mais o lado melancólico do amor e, neste disco, apeteceu-me falar mais do lado bom do amor... Há uma canção em francês que repete "je t"adore, je t"adore, je t"adore" - mas é isso que apetece dizer quando uma pessoa está apaixonada, não há nada de mal nisso, nada de intelectualmente inferior... Basta pegar, por exemplo, nas cartas de amor de Fernando Pessoa. Se o Pessoa pode escrever sobre a queridinha e os miminhos, porque não eu? [risos] O que eu pensei: se é tão bom estar apaixonado, porque hei de eu ter pudor em passar isso nas canções?

Não concorda, portanto, com a ideia de que a felicidade não é inspiradora...

É um processo curioso: quando estamos felizes, conseguimos escrever coisas imensamente tristes. O contrário não é verdadeiro... Mas, francamente, neste disco fiz o que me apeteceu, desde o tom geral até cantar um tema em francês...

As canções foram escritas antes de saber que estava grávida, certo?

Sim. Por exemplo, a Stormy Wea- ther, que fecha o disco, já tinha sido cantada nos concertos do segundo disco, em Lisboa e no Porto... De resto, desde que soube que estava grávida, só escrevi uma canção para o meu filho, mais nada...

Quando gravou o disco, já estava grávida. Isso mudou alguma coisa?

Não consigo saber ao certo... Claro que estava mais sensível, chorava a ver vídeos... Talvez tenha trazido uma sensibilidade extra. Houve um pormenor engraçado: quando gravei, aos três meses de gravidez, já me sentia acompanhada, mesmo do outro lado do mundo...

E agora, como é conciliar as canções com as rotinas indispensáveis ao filho, José?

É uma programação dia a dia, às vezes hora a hora, consoante as alterações. Mas penso que muitas mães estariam de volta a um trabalho dito normal, com horários mais rígidos do que o meu... Eu tenho sorte, há a flexibilidade de que outras não dispõem.

Já percebeu se o mocinho é bom de ouvido ou ele ainda não deu sinais?

Há uma aplicação no telemóvel que programa uma hora de música por dia, especificamente para ele ouvir... E eu faço isso - é preciso estimulá-lo, balançá-lo... Não consigo uma hora, mas vinte minutos não falham, de manhã, depois de ele acordar e de comer... E ele adora! A playlist dessa aplicação muda todos os meses. Neste mês é mais clássico, mas já houve um que tinha base no jazz, com McCoy Tyner, Miles Davis... Como eu vou cantando com as músicas, dei por mim a cantar Bach. Ou seja, eu também lucro. E todos os dias lhe canto aquela canção dos Beach Boys...

God Only Knows...

Claro! Faz todo o sentido, não é? E ele adora aquela bossa, O Pato, que dá direito a coreografia e tudo... O meu namorado é que está proibido de cantar, porque tem uma péssima voz. Mas está reservado para mais tarde, para o desporto, há de ensiná-lo a surfar...

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG