Luís Represas. Como sobreviver à moda de ocasião

Com parceiros de diferentes gerações, faz a festa de 40 anos de profissional. Sabe do valor do caminho percorrido, mas não se agarra a ele. Nem o renega. E continua a fazer pontes, entre estilos e gerações

Vale como um anúncio, mas sem o proverbial exagero publicitário: é - pelo menos - um dois em um, este caminho musical de Luís Paulo Fonte Represas, que se prepara para uma comemoração, e descentralizada, para assinalar de forma muito ativa os seus 40 anos de carreira. Se calhar, em nome do rigor, talvez devesse falar-se em percurso profissional, uma vez que no próximo verão passam já 41 anos sobre a fundação (em Sagres, para um simbolismo acrescido ou apenas para aproveitar férias) dos Trovante. Há quatro décadas, o que aconteceu foi mesmo a estreia em disco do grupo que juntava Luís Represas a Manuel Faria, João Gil, Artur Costa e João Nuno Represas, registando-se mais tarde a entrada de Fernando Júdice, António José Martins e José Salgueiro, parte integrante da fase mais exposta da banda que, em 1977, começava a mostrar ao que vinha com a edição de Chão Nosso.

Quando se refere a dicotomia (que não a duplicidade) de Represas, são múltiplas as vertentes para se considerarem dois "andamentos": um cantor (e coautor) de coletivo que passa a "empresário em nome individual" (passe a expressão e fique a ideia); um artista que chega às cantigas também pela via política e que sabe, sem renegar nada, ultrapassar o segmento e alargar o auditório; o criador que se vai posicionando - sem que isto implique uma teoria da conspiração - de forma a que ele recorremos como elo de ligação entre diferentes idades e distintas escolas musicais (se gravou com José Afonso, Pablo Milanés, Martinho da Vila e José Cid, também colaborou em discos de Sétima Legião, Mafalda Veiga, Rui Veloso e Donna Maria); se, em distintos períodos, foi um cantor "na moda", nunca se deixou cercar como uma voz "da moda". De resto, a forma como conseguiu reconhecimento público e crítico depois da dissolução dos Trovante (em 1992), reconquistando mesmo que não recomeçando, é disso demonstração.

Dos bares às grandes salas

Luís Represas aproveitou bem a prolongada escala em locais de encontros noturnos. Em paralelo com os primeiros anos dos Trovante, motivou frequentes enchentes no bar lisboeta Happening, em que o reportório escolhido revelava algumas das suas paixões, por exemplo a música do Brasil (entrou no culto a sua versão de Cordilheiras, popularizada por Simone e que Represas viria a gravar no álbum "de intérprete" Reserva Especial, em 2001). Com o crescimento dos Trovante, cujo salto em direção ao grande público foi dado com o disco Baile no Bosque, de 1981, acabou por ir trocando os espaços mais acanhados e/ou íntimos pelas grandes salas - e aí convém assinalar a conquista do Coliseu dos Recreios, em 1984, algo inédito para uma banda vinda da música popular portuguesa e de uma corrente política bem definida.

Aproveitando as reconhecidas "lições" de José Afonso, Sérgio Godinho ou Fausto, os Trovante foram acrescentando as suas próprias "fórmulas resolventes", capazes de os tornar indispensáveis a gerações que se tomariam como mais marcadas pelo rock e pela pop, mantendo ao mesmo tempo o interesse dos públicos mais maduros. Foi essa invejável mas "pesada" herança que Represas teve de gerir depois da separação do grupo. Teve, então, o engenho e a arte de musicar um poema de Francisco Viana e de convidar Pablo Milanés para o dueto de uma canção "eterna": a Feiticeira que, ainda hoje, é pedra-de-toque nos seus espetáculos, como fica provado pelo facto de surgir em todos os discos ao vivo publicados pelo cantor - e são nada menos de quatro, entre 1996 e 2015.

Mais chegado à canção do que na época do grupo, Luís Represas foi publicando com regularidade novos discos, em que foi descobrindo novos parceiros e, com isso, garantindo novos pormenores numa sonoridade que lhe é característica. Basta pensarmos no pianista e arranjador cubano Miguel Nuñez, no pianista português Bernardo Sassetti, no "mago" irlandês Davy Spillane (nas flautas e flautins como nas gaitas-de-foles), no cantor das Canárias, Pedro Guerra, em Martinho da Vila ou Simone. A sua apetência pelas "pontes" e pela inclusão ficou evidente no álbum Reserva Especial, concebido e executado como um disco para abordar as canções de terceiros [declaração de interesses: o autor deste texto colaborou na escolha do reportório para este álbum] e em que a viagem geográfica, temporal e estética nos obriga a percorrer grandes distâncias, com a voz de Represas como medida-padrão. Para as melhores memórias, fica também a reunião dos Trovante, em 1999, a pedido do presidente Jorge Sampaio - por causa de uma canção e em função de uma causa, Timor.

Em Elvas, longe dos maiores centros, a cruzada de Luís Represas para passar incólume entre os pingos "da moda" vai continuar: por isso, lá estarão uma orquestra, um coro, amigos e próximos como António Victorino d"Almeida, Sara Tavares e Cuca Roseta. E lá se registará um momento particular, quando, pela primeira vez (o que é difícil de acreditar), Represas estiver lado a lado com Carlos do Carmo. Que até teve importância particular na possibilidade de Luís chegar onde chegou - mas essa é outra história.

Coliseu Comendador Rondão de Almeida, Elvas
Hoje, às 22.00
Luís Represas c/ Orquestra Sinfónica Ibérica, Carlos do Carmo, António Victorino d"Almeida, Sara Tavares, Cuca Roseta e cantores da Academia de Música de Elvas, do Colégio Luso-Britânico e do Centro Educativo Alice Nabeiro
Bilhetes de 15euro a 40 euro

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