Luís Miguel Cintra deixa os palcos

O ator Luís Miguel Cintra anunciou que, por motivos de saúde, não voltará a subir ao palco.

Ontem à noite, após a última apresentação de Hamlet, de Shakespeare, que esteve em cena no Teatro da Cornucópia, em Lisboa, o ator e encenador Luís Miguel Cintra anunciou que, por motivos de saúde, este tinha sido o seu último trabalho como ator.

Distinguido este ano com o Prémio Carreira da Academia Portuguesa de Cinema, Luís Miguel Cintra tem 66 anos. Filho do filólogo e linguista Luís Lindley Cintra, iniciou-se no teatro ainda estudante da Faculdade de Letras. "A decisão consciente foi mais baseada num carácter lúdico, de continuar a ser criança, continuar a poder brincar ao faz de conta, descansar da angústia da realidade", contaria mais tarde. O jogo do teatro abriu-lhe o mundo e permitia-lhe trabalhar a partir de textos e autores de que gostava, algo que sempre foi uma marca do seu trabalho enquanto encenador.

Cintra foi bolseiro da Gulbenkian na Bristol Old Vic Theatre School, e em 1973 fundou com o Jorge Silva Melo o Teatro da Cornucópia de que ainda hoje é o principal mentor. É encenador e ator de filmes de Manoel de Oliveira e de filmes de outros realizadores. Foi Prémio Pessoa em 2005 e em 2014 o Festival de Teatro de Almada homenageou-o por toda a carreira.

A doença de Parkinson reaproximou-o da fé, como contou numa entrevista ao DN em agosto deste ano: "É a noção de que a vida começa a passar para um outro lado, e uma pessoa começa a querer dar um sentido ao que viveu. E sobretudo a querer dar um sentido à morte, a querer encarar a morte."

Nessa entrevista, falava já do fim da carreira, que se aproximava e do futuro do Teatro da Cornucópia: "Não pode nem deve continuar muito tempo. Teve sempre uma coerência e uma qualidade muito grandes. Custa-me fazer uma redução da qualidade que necessariamente acontecerá. As coisas têm um tempo. Não quer dizer que deixemos de trabalhar, mas estamos todos reformados, os mais velhos, e isso quer dizer alguma coisa. As pessoas acabaram a sua vida muito ativa, podem fazer coisas com mais cuidado."

Numa outra entrevista ao DN, há dois anos, a propósito dos 40 anos da Cornucópia, Luís Miguel Cintra confirmava o quanto sentia necessidade do teatro - "não fazendo é como se me tirassem a comida" - mas admitia que estava na hora de pensar em parar.

O ator Nuno Lopes, que tantas vezes já trabalhou com a Cornucópia, partilhou o momento da despedia, ontem à noite, e hoje conta, na sua página de Facebook, o "espanto e a tristeza profunda de todos os que estavam na sala". "Entendo a decisão, obviamente, e espero que a Companhia tenha o apoio financeiro do estado para que o Luís Miguel continue a encenar e a presentear-nos com espectáculos como este seu Hamlet durante muitos anos. Mas nem sei explicar por palavras o quão triste é para mim ver o ator que me ensinou a representar sair de palco, não sei explicar o quão triste é saber que nunca mais vou poder ver o meu actor favorito a representar no palco onde tive a honra de me estrear a seu lado", diz Nuno Lopes.

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