"Uso a ficção para contar a verdade"

O jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos apresentou hoje o seu mais recente livro 'A Mão do Diabo', na Sociedade de Geografia de Lisboa.

A trama segue Tomás de Noronha na sua busca incessante por descobrir os responsáveis pela crise ocidental. Embora se trate uma trama ficcional, José Rodrigues dos Santos não se esquece de frisar que usa "a ficção para contar a verdade". "Os mistérios com que o Noronha lida são mistérios verdadeiros", afirma o autor.

Neste livro em particular o escritor confunde-se com o jornalista, o jornalista que quer explicar à população os motivos da crise. José Rodrigues dos Santos afirma que as pessoas estão confusas e, por isso, é que decidiu escrever esta obra.

Numa tentativa de explicar que a crise não existe só fruto da desregulação dos mercados mas sim da estruturação das democracias, o autor deu à plateia um exemplo prático. "Imaginemos que um camião passa numa rua e a rua treme. A rua tem 150 casas e só caem 10 ou 15. A culpa do colapso é do camião ou das más estruturas das casas? A verdade é que não caíram todas", diz o autor, acrescentando que "a casa da China não caiu, mas caiu a da Grécia e a de Portugal", por exemplo. Assim sendo, a culpa reside essencialmente na estruturação, pois todas as casas que caíram tinham problemas, problemas diferentes, mas problemas. A metáfora serviu para explicar como as democracias com más estruturas internas foram as primeiras a ser afetadas pela crise.

Como a ficção do livro se confunde com a realidade, o autor descortinou alguns dos motivos que, em conjunto, conduziram o Ocidente à situação atual, como: "a crise estrutural de cada país", "a crise da arquitetura do euro, que provocou parte da crise", "a crise da dívida" e, a mais grave, "a crise do ocidente". Isto porque acontecimentos isolados podem não provocar acidentes, "mas todos ao mesmo tempo é a catástrofe". Como o autor afirmou "um acidente de avião nunca acontece por uma só causa".

Em gráficos que foram mostrados à plateia, José Rodrigues dos Santos explicou novamente alguns dos fatores que conduziram à crise, como a entrada da China, em 2001, na Organização Mundial do Comércio.

Considerou que Portugal tem, neste momento, uma "crise da dívida" e mencionou um estudo sobre o assunto que diz todas as crises da dívida têm um momento em comum: "todas envolvem austeridade". Neste momento Portugal tem duas opções: "pagar ou não pagar, ou seja, são opções más, muito más, ou péssimas, não há boas", "se um político disser o contrário está a mentir". O autor disse ainda, em tom de brincadeira, que se alguém descobrir uma maneira de pagar a dívida sem envolver austeridade, ganha o Prémio Nobel da Economia. Segundo Rodrigues dos Santos é importante os portugueses pensarem se querem de facto continuar no euro.

Para terminar a sua apresentação, em tom de ironia, explicou uma maneira de descobrir se os políticos estão a mentir ou não. Isto porque, ao contrário de uma maioria das pessoas que, quando mentem não olham nos olhos, os políticos são inteligentes e conseguem fazê-lo com um olhar frontal. A solução para descobrir se então a mentir, reside, segundo ele, num trejeito que todos têm no rosto. E esse trejeito é... falar, disse Rodrigues dos Santos.

Quando questionado sobre o valor do ouro, o autor disse que de facto o ouro pode resolver alguns problemas, por exemplo com a sua venda, mas nunca a longo prazo, afirmando "quando vês um homem com fome não lhe dês um peixe, ensina-o a pescar".

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