O escritor dos homens que nunca foram meninos

Autor de 'Esteiros' nasceu há cem anos. Homenagem em Baião, Alhandra e Vila Franca. Reedição de 'Os Contos Vermelhos'.

A aldeia é conhecida pelas bengalas artesanais que, nos dias de hoje, muitos estudantes exibem alegremente na Queima das Fitas. Chama-se Gestaçô, concelho de Baião, e foi aí, faz hoje cem anos, que nasceu Soeiro Pereira Gomes. Homem da palavra insubmissa, dedicou o seu primeiro romance - Esteiros - "aos filhos dos homens que nunca foram meninos". O escritor e dirigente comunista é al- vo de diversas homenagens: em Baião, Alhandra e Vila Franca de Xira.

O livro Os Contos Vermelhos, obra que narra episódios da vida e da luta na clandestinidade, tem uma reedição para assinalar o centenário do nascimento do autor. Na próxima quinta-feira, o jornal Avante! terá a companhia desse livro com conta histórias de homens comuns e de medos, que também Soeiro viveu quando entrou na clandestinidade. O medo, como escreveu Manuel Gusmão, "de ser preso, medo de falar, medo de ter medo, medo da tortura e sofrimento, medo de perder a vida e os afectos que a tecem".

Na terra onde nasceu, as comemorações do 25 de Abril , este ano, são dedicadas ao autor de Esteiros. A Câmara de Baião, em parceria com os CTT, lança um selo comemorativo do centenário do escritor e "homem de uma profunda sensibilidade social". O presidente da autarquia, o socialista José Luís Carneiro, refere que um representante do PCP recordará o contributo de Soeiro para a resistência antifascista. A vida e a obra do romancista será abordada noutra intervenção, durante a sessão solene da Assembleia Municipal comemorativa da revolução de Abril.

Em Gestaçô, aldeia onde nasceu Soeiro, existe um monumento evocativo do escritor. E todos os anos, recorda José Luís Carneiro, em Abril, "sempre que o PS está à frente da autarquia", o autor comunista é homenageado com a deposição de uma coroa de flores.

Os tributos estendem-se a outras geografias que o homem da palavra e activista político percorreu na sua curta vida. No dia 19, a homenagem acontece em Alhandra - onde viveu, trabalhou e sonhou uma sociedade livre, nos anos 30 do século passado -, no museu local (Casa Sousa Martins); em Vila Franca de Xira, o Museu do Neo-Realismo dedica-lhe uma exposição, patente ao público entre Novembro e Fevereiro de 2010.

Filho de uma família de pequenos agricultores - irmão da escritora infanto-juvenil Alice Pereira Gomes e do matemático Alfredo Pereira Gomes -, Soeiro Pereira Gomes aprendeu a ler com o pai no jornal O Primeiro de Janeiro, ainda antes de entrar na escola primária. Em Coimbra, mais tarde, tira o curso de regente agrícola.

Aquele que viria a ser um dos principais nomes do neorealismo português embarca para Angola e regressa, um ano depois, desiludido com a experiência. Em 1931 casa com Manuela Câncio Reis: fixa residência em Alhandra, trabalhando nos escritórios da fábrica Cimento-Tejo. Nove anos depois, adere ao PCP e ingressa na célula da empresa.

Álvaro Cunhal, que ilustrou Esteiros ("pediu-me que ilustrasse e assim fiz, certo porém de que os modestos desenhos não eram dignos do valor da obra literária"), destacava o papel que Soeiro Pereira Gomes teve na reorganização do partido nos anos 40. "Militante na fábrica e nas lutas operárias, tinha ainda outros aspectos de extraordinário valor: no movimento associativo, na realização de obras sociais, no desporto, na relação estreita, solidária com as populações".

Quando a ditadura salazarista tentava silenciar os crimes do holocausto nazi, com a proibição de se ouvir as emissões da BBC em língua portuguesa em locais públicos, Soeiro abria a janela da sala, na sua casa, onde tinha a telefonia, para que muitos populares pudessem ouvir, discretamente, as informações de Londres.

Em 1941 publica Esteiros, a obra mais conhecida e mais comovente do autor. Uma história de trabalho infantil, de extrema miséria. "Pequena obra- -prima", considerou Cunhal. Este romance, ainda segundo o líder histórico do PCP, também ele autor de várias obras literárias, "traduz (não em ternos de análise política, mas com igual força de expressão e convencimento) o humanismo dos ideais e da luta dos comunistas".

No mês de Maio de 1944, acossado pela PIDE, entra na clandestinidade, e escreve o romance Engrenagem. É eleito para o Comité Central dois anos depois. A doença, no entanto, tolhe-lhe o caminhada: morre em 1949, com 40 anos de idade.

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