"Imagem no Espelho" reconstitui vida e morte de Suggia

Isabel Millet nasceu no Porto, em 1952, dois anos depois da morte de Guilhermina Suggia, professora e grande amiga de sua mãe, a quem deixou em herança a casa onde vivia, após o casamento com o médico José Carteado Mena. Foi nessa casa que nasceu e cresceu e tudo ali lhe falava de Suggia, todos os móveis, cortinados, os sofás onde se sentava, a sua cama que havia sido dela. Além das inúmeras fotografias, algumas mais íntimas que abundavam pelas gavetas. É com essa distância e proximidade que escreveu uma trilogia sobre a maior violoncelista portuguesa e uma das maiores do mundo. O primeiro livro é a história do relacionamento conturbado entre duas celebridades: Guilhermina Suggia e Pablo Casals.

Os três livros "Imagem no Espelho" pretendem ser a reconstituição de uma história de vida?
 
São sobre a vida e sobre a morte. A morte de Guilhermina Suggia marcou-me muito porque toda a vida ouvi falar dela. A minha mãe ficou extremamente impressionada com a sua morte prematura e falava muito daquela mulher culta, cheia de experiências, conquistadora, com uma lógica própria com a qual se relacionava com o mundo. Eu nasci onde ela morreu, e tinha imenso medo daquele quarto, passava a correr (risos), medo de ver a sua imagem. Foi por isso que senti a necessidade de escrever sobre ela.
 
E como foi escrever sobre a primeira mulher a fazer carreira a solo e a atingir tão grande êxito como violoncelista?
 
O primeiro livro  - publicado em Junho de 2009 - é mais leve que os dois seguintes porque é sobre a sua juventude. O que acontece nestes três livros é que vão amadurecendo com a protagonista. Cada livro é completamente diferente do anterior, porque Guilhermina Suggia era uma mulher que mudava completamente conforme o sitio onde estava e com quem se relacionava. A Suggia de Inglaterra é uma pessoa completamente diferente da de Paris.
 
E como era a Suggia de Paris?
 
Muito segura do que queria.  Uma mulher que já encarna no palco a figura de prima-dona, que domina a música e que tem no violoncelo o mais extraordinário de todos os instrumentos. Em 1906 está em Paris, toca nessa altura com Pablo Casals e ainda durante esse ano partilha casa com ele, a Vila Molitor. Ali reúne-se o casal de violoncelistas mais famoso do mundo. Foi sobre esse relacionamento que me debrucei-me no primeiro livro. O romance de ambos encheu as páginas dos jornais da época, porque era uma paixão entre duas pessoas que não se conseguiam entender. E foi aquele conflito enorme que me levou a transformar esta história também em peça de teatro.
 
E o segundo passa-se em Londres não é?
 
O segundo livro chama-se "A Dama do Castelo" e é completamente diferente. A vida de Suggia em Inglaterra onde foi uma diva, onde era adorada, aplaudida e aclamada. Era uma mulher dedicada à música. Apesar do seu talento para o violoncelo, estudava muitíssimo, motivada pelo ideal de perfeição. A artista de Londres dedica muita atenção aos pormenores. Até houve uma vizinha do seu prédio que se queixou porque Suggia além de dar aulas de violoncelo tocava continuamente. Dizia que Suggia se mudou para lá no Outono de 1922 e até 1924 não deixou de tocar.
As histórias são baseadas em factos documentados por cartas, fotografias e uma extensa pesquisa. Mas depois tive que fazer uma reconstituição tal como num filme. Claro que há muito de mim nos livros, era impossível não haver.
No segundo livro publiquei as cartas que ela trocou com o pianista e compositor português José Viana da Mota.
 
 
E foi em Inglaterra que Augustus John pintou o famoso retrato de Guilhermina em concerto...
 
 Sim, em 1923. Hoje o quadro está exposto na Tate Gallery em Londres. Dizem que ela também teve um relacionamento com o pintor, mas acho que os Media lhe atribuíam demasiados relacionamentos. Durante as sessões no atelier do pintor Guilhermina tocava Bach. Augustus John conseguiu captar a aparição imponente de quando entrava em palco e começava a magnetizar o público.
 
 
O terceiro ainda está a escrever não está?
 
Estou no início, mas já tenho imenso material recolhido. O último da trilogia passa-se em Portugal. Pensei em chamá-lo "Regresso ao Porto" mas decidi chamar-lhe "Rua da Alergia nº 665", o endereço da casa para onde Suggia foi viver quando casou com o Dr. Carteado Mena, grande médico e cientista da época, que fez muitas experiências com raio-x. Essas descobertas acabaram por lhe atacar os dedos da mão direita, teve de amputá-los, depois também o braço... era um homem muito doente e morreu desse mal.
 
Guilhermina sempre teve muito medo de perder a liberdade o que a levou a casar-se?
 
Quando casou já não era jovem. Tinha mais de 40 anos e o Dr. Carteado era bastante mais velho do que ela... talvez mais de 50.
Suggia sentia-se insegura, muito sozinha e o médico amparava-lhe muito os pais. Mas nunca se deram bem, porque também ele não a entendia. Não era possível um homem entende-la. Naquela época nem homens nem mulheres a entendiam. Guilhermina era muito criticada, especialmente no Porto. O Dr. Carteado Mena tinha princípios muito rígidos, muito tradicionalistas e como é que havia de entender uma mulher como a Guilhermina, que era uma artista, uma celebridade?
Os problemas começaram logo durante o noivado e Guilhermina hesitou muito antes de casar, não tinha certezas.
Ainda assim, com dúvidas, escolheu Carteado Mena...casou porque admirava pessoas inteligentes. Carteado Mena vivia no Grande Hotel do Porto e Suggia conheceu-o por causa de uma doença da mãe.
 
E era criticada porquê?
 
Porque fugia às regras sociais. Não era uma esposa que estivesse em casa, quando os pais adoeceram não foi ela que os tratou, estava em digressão em Inglaterra. As pessoas não entendiam isso.
 
E sendo uma mulher tão segura de si, o que a levaria a ter tal medo?
 
Era o compromisso. Tinha medo que a limitasse. O seu maior receio era precisamente perder a liberdade. Era uma pessoa livre, foi educada para isso, não como uma rapariga do tempo dela mas educada pelo o pai como se fosse um rapaz, tal como a irmã. Augusto Suggia educou-as para uma carreira. Foi por isso tão mal entendida porque comportava-se como um homem se comportaria. Guilhermina Suggia foi a mulher mais feminista de que me lembro sem saber que era.
 
Mas nem depois de casar Guilhermina abandonou a música...
 
Nunca, nunca. Foi viver para o Porto quando casou e também porque estava perto dos pais, mas continuava a fazer muitas digressões por Inglaterra e por Espanha. Fazia muitas tournées e passava épocas em Inglaterra que considerava a segunda pátria. No Porto chamavam-lhe a inglesa excêntrica.
 
Excêntrica?
 
Por ser muito extravagante. Vestia roupas que ninguém vestia. Naquela época ninguém ousava usar enormes chapéus ou cores garridas. Era muito espectacular.
A minha mãe contava que antes de a conhecer a via ao longe na praia com uns fatos-de-macaco coloridos a passear os cães, Era uma pessoa que dava grandes gargalhadas. Nada discreta antes pelo contrário.
 
Voltando à trilogia, de onde surgiu a ideia de "Imagem no Espelho"?
 
Tem a ver com uma frase que encontrei no livro "Portrait in a Mirror" que pertencia a Guilhermina que infelizmente não menciona o autor. Dei com aquela frase e de repente achei que era fantástico, era mesmo aquilo.
Quis escrever o livro em espelho, em duas dimensões. Por vezes o narrador é Guilhermina e outras o narrador é alguém que a observa. É Guilhermina vista por ela e vista de fora. Imagem no espelho é como o mundo a vê e como ela se vê. Há pontos que coincidem outros não. É uma tentativa de entender-se ao falar sobre ela própria ainda que de forma dura, cruel, sem esconder nada.
Um pouco como eu ao escrever. Não escondo nada sobre a vida dela, até porque não escrevo nada que não se saiba. Não escrevo em critica bem pelo contrário, tento meter-me na pele dela. A Guilhermina que no início do livro remexe nas recordações que encontra na papeleira sou eu ao mexer nas suas fotografias, cartas, agendas e livros de autógrafos que até hoje guardo comigo.
 
Escreveu a narrativa como um reflexo?
 
Sim é escrito em espelho. Como uma imagem que reflecte, que vem e vai. O que queria contrapor era como as pessoas a viam e ainda vêem e como ela se via. No fundo a realidade e a fantasia porque as pessoas vêem a diva, que não existe, que é palco, ilusão. Depois há a pessoa real.

E porquê dividido em três?
 
No início tinha pensado escrever apenas sobre a sua relação com o Pablo Casals, mas depois decidi escrever sobre tudo. Foi uma vida demasiado rica para não ser conhecida, e como foi uma pessoa que se transformava imenso, dependendo das circunstâncias, e de com quem vivia, achei que era divisível em três partes.
 
Era muito temperamental?
 
Muitíssimo temperamental. Um temperamento artístico, com muitas nuances, variava muito de humor. Falar do seu temperamento implica falar de música, porque a vida de Suggia é sempre acompanhada de música e do violoncelo. Mesmo ao tocar a expressão dela variava conforme aquilo que a música lhe dizia. Era como uma actriz. Uma crítica inglesa dizia que quando Guilhermina Suggia se dedicou ao violoncelo perdeu-se uma grande actriz. Digo que não se perdeu nada, porque ela continuava a ser actriz e uma violoncelista genial. Foi um animal de palco, muito visual com os seus vestidos fabulosos que conseguia empolgar a audiência. Mas também podia ser extremamente sóbria e austera a tocar.
 
Se Guilhermina Suggia não tivesse feito o caminho artístico teria uma personalidade diferente?
 
Acho que seria impossível ela não ser uma artista. Isso nasce com as pessoas.
 
Mas foi o pai que a iniciou na música...
 
Pois, mas tinha talento. Foi uma criança prodígio. Augusto Suggia fazia tudo para promover as filhas, tinha um gosto enorme nas duas e impulsionou-as muito. A irmã também era uma óptima pianista mas não foi genial como ela.
 
O comportamento do pai não era nada comum na época...
 
Pois não. Por isso acho que Guilhermina nunca seria quem foi se não fosse o pai. Agusto Suggia era um homem extraordinário. Não pertencia a uma família religiosa portanto não tinham preconceitos nem ideias domésticas ou casadoiras para as filhas. Era o oposto. Imagine-se naquela época ir estudar para a Alemanha, e depois fazer uma tournée por toda a Europa, sozinha. Estamos a falar em 1904.  A tournée começou por ser com a irmã e os pais acompanhavam, mas às vezes Guilhermina ia sozinha. Viajava em comboios, fazia viagens nocturnas e apeava-se num apeadeiro num país qualquer, onde não conhecia nada e onde estava uma pessoa que também não conhecia à espera dela. Era convidada por príncipes, reis, nobres, para os paços reais... até na Rússia tocou.
 
 
E a rainha Dona Amélia percebeu o génio...
 
Sim claro. Suggia foi tocar ao Palácio das Necessidades, a família real assistiu e ficaram encantados. A rainha chamou-a no fim do concerto e perguntou-lhe o que mais desejava e Guilhermina respondeu que desejava era ir estudar para o estrangeiro. E então a rainha prometeu-lhe uma bolsa de estudos.
Virgínia também tinha talento mas não era brilhante nem tinha aquele o glamour da Guilhermina. E aconteceu que o piano ficou como acompanhamento e a irmã sentiu-se na sombra. E quando foram em tournée pela Europa Virgínia acabou por desistir.
 
 
Estes livros não são a sua estreia como escritora...
 
Não. Escrevi outros. O primeiro intitula-se "Alice e o Abismo" e o segundo "O Cão na Casa Verde" que mereceu uma ilustração da pintora Paula Rego por ter gostado muito do livro. Também se passa na casa de Guilhermina Suggia e as personagens têm como base pessoas reais da minha infância. É um romance muito apático.
 
Como é que a sua mãe - que também se chamava Isabel Millet - conheceu Guilhermina Suggia?
 
O meu avô tocava violino em casa e assistia aos concertos no circulo musical do Orfeon Portuense e a minha mãe, que na altura devia ter uns 10 anos, foi assistir a um concerto da Guilhermina Suggia com o professor Luis Costa e ficou fascinada. Desde esse dia nunca mais largou o meu avô porque queria à força tocar violoncelo. Então o meu avô conseguiu arranjar-lhe aulas com Augusto Suggia. Passado um ano o professor faleceu e a minha mãe passou a ter aulas com Luis Antunes. Mas nessa época Guilhermina tinha regressado ao Porto e surgiu a ideia de ter um grupo de alunos mas só professores e músicos formados. A minha mãe através de Ernestina Silva Monteiro conseguiu uma audição com Suggia que a ouviu por favor. No final disse à minha mãe que não dava aulas a principiantes. Só passados 3 anos é que Suggia contactou  a minha mãe e disse-lhe que tinha uma inglesa em sua casa - a Miss Marcel - disposta a dar-lhe aulas. Por causa da Segunda Guerra Mundial voltou para Inglaterra e foi assim que Guilhermina Suggia ficou professora de minha mãe.
 
Que idade tinha a sua mãe nessa altura?
 
Quando foi ter com Guilhermina Suggia pela primeira vez tinha 18 anos. Não foi a sua única aluna. A violoncelista também deu aulas a Pilar Torres, Madalena Moreira de Sá e Costa e até o meu pai foi aluno dela. Acabaram por se tornar grandes amigas. Quando morreu deixou a casa onde vivia em herança à minha mãe.  Até a empregada de confiança dela, a Clarinda, nos primeiros tempos foi nossa empregada também. Depois que Guilhermina morreu a Clarinda casou com o motorista porque Suggia não lidava bem com o casamento, nem com o dela nem com os dos outros.
 
Os alunos de Suggia seguiram todos carreira musical?
 
Sim. A orquestra sinfónica do Porto que se chamava na altura orquestra sinfónica do conservatório  nacional foi fundada por Maria Adelaide Freitas Gonçalves e Guilhermina colaborou como directora artística da orquestra. A minha mãe, como aluna de Suggia, foi um dos primeiros elementos senão o primeiro da orquestra.
 
 
Foi por esse medo que recusou casar com Pablo Casals?
 
Sim. Pablo Casals era catalão, espanhol, e portanto machista, muito possessivo. O que ele mais queria era que Guilhermina abandonasse a carreira por ele. E isso era completamente impossível.
 
Mas como violoncelista não teve a sensibilidade de perceber a carreira de Guilhermina?
 
Havia um grande ciúme por causa da carreira dela. Eram ambos geniais e tinham personalidades fortíssimas que chocavam precisamente por causa disso. Pablo era uma pessoa sóbria que não tocava com grandes exageros, era muito concentrado. Guilhermina era o contrário, extrovertida, glamorosa, exuberante, por isso dava mais nas vistas. As palmas eram mais para ela, as críticas eram para ela, falava-se mais dela na comunicação social e ele não suportava isso ao ponto de lhe esconder os violoncelos para não estudar.
Há uma carta de Guilhermina escrita no Porto em que comenta sobre uma amiga que tem o marido doente: "coitada que tem de estar presa e não pode ir para onde lhe apetece". Era absolutamente livre.
 
Pode dizer-se a que a única coisa que a prendia era a música?
 
A música não a prendia, libertava-a. Porque através da música sentia que era necessário viver a vida para que a arte fosse cada vez mais enriquecida. Acreditava que amadurecimento enriquece a arte.
 
Então quer dizer que adoptou a sua família como dela?
 
Sim. Os pais morreram e a irmã vivia em Paris, casou com um francês, mas zangaram-se e deixaram-se de falar.
Virgínia tinha uma vida social muito intensa, recebia muito em casa e às vezes tocava para os convidados. Uma senhora ouviu-a e encantada propôs-lhe voltar a tocar - porque Virgínia tinha abandonado a carreira - e dar concertos também em Portugal. Virgínia escreveu a Guilhermina muito entusiasmada a propor-lhe que tocassem juntas mas Guilhermina não quis tocar com a irmã. Como não sabia dizer-lhe isso nunca lhe respondeu à carta e a irmã nunca lhe perdoou. Guilhermina deve ter pensado que não estava à altura de tocar com ela porque tinha interrompido a carreira. A irmã morreu três anos antes dela exactamente com a mesma idade com que morreu Guilhermina: 65. Morreram sem se voltar a falar.

Apesar de ter sido mulher e ter nascido ainda no século XIX parece não ter sido difícil o sucesso...

 
Acontecia que Guilhermina era uma força da natureza. É comum ler-se nas criticas que os aplausos eram estrondosos, ressoavam nas salas com o público enfeitiçado. Dizem que assistir a um concerto dela era perfeitamente mágico. Em Lisboa uma vez tocou no Teatro São Luiz, levaram-na em braços até ao hotel em ovação.
 
A Isabel equipara-la a alguma outra portuguesa no plano mundial?  
 
É difícil... mas a Maria João Pires também é conhecida a nível mundial. Também há em Portugal uma pessoa genial que é a Eunice Munhoz como actriz, mas como é portuguesa tem mais dificuldade em representar no estrangeiro por causa da língua.
 
Considera que Suggia está um bocado na ignorância dos portugueses em comparação com Pablo Casals?
 
Infelizmente está. Como a Suggia era muito de palco também era muito do momento. Não gostava de gravar, gravou pouco, morreu cedo. Já Pablo Casals gravou muito e morreu tarde. E acontece outra coisa: a Suggia era portuguesa e nós não temos gosto em nos orgulharmos dos nossos valores. Já os espanhóis são orgulhosos.
 
É fácil comprar um disco de Guilhermina em Portugal?
 
Em Portugal nem há. Só por encomenda. E em Inglaterra só se encontra um disco onde ela toca Haydn, Bruch e Lalo. Houve em tempos na Fnac porque encomendaram.
Quando era criança havia muitos discos lá em casa. Tínhamos um gramofone e discos daqueles que se quebravam, nem era vinil, e ao tocar ouvia-se muito ao longe como se fosse algo fantasmagórico, parecia-me uma música de outro mundo.
 
 
No seu livro fez uma discrição pormenorizada dos vestidos dela e dos feitios que escolhia quando ia à modista...
 
É que na rua da Alegria havia um armário cheio dos vestidos de concerto com que brincava às mascaradas. Quando os meus pais tinham concerto à noite eu ia brincar com os vestidos. A minha mãe acabou por vende-los mas reconheço bem como eram. Ainda tenho um dourado, e há outro no Museu da Música. Usava uns vestidos glamorosos com muita roda, que se espalhavam à volta do violoncelo como no quadro de Augustus John, embora esteja um bocadinho exagerado. Aquele vestido era dourado e não vermelho como está retratado, e o pintor primeiro pintou-o de branco e depois decidiu-se pelo vermelho sangue. Nem tinha cauda e até dizem que juntou um lençol para fazer todas aquelas pregas. É um quadro de uma época em que tudo era teatral. Mas essa parte da vida dela conto no segundo livro.
 
Percebe-se que gosta do quadro. Foi por isso que o incluiu na sua peça para teatro?
 
Foi pela imagem. A peça chama-se "Concerto para dois Violoncelos" e recria o primeiro livro. É sobre o conflito entre Guilhermina e Pablo e termina com o rompimento entre ambos.
 
Já foi representada?
 
Ainda não. Ganhou uma menção honrosa no Prémio Bernardo Santareno e agora gostava muito de a ver em cena, pode ser que alguém se interesse por pô-la em palco.
 
Histórias de amor entre pessoas famosas não faltam na nossa história. Mas pode esta relação ser mais uma prova que as grandes paixões nunca têm um final feliz?
 
Sim, talvez. A paixão não vê a realidade. Quando estamos apaixonados vemos a outra pessoa como a queremos ver, como a idealizamos, não vemos os seus defeitos. E depois quando caímos na realidade pode haver uma decepção brutal. Ou não aceitamos a pessoa como ela é ou transforma-se em algo mais profundo, o dito amor que aceita os defeitos e até é capaz de gostar dos próprios defeitos.
 
Foi isso que aconteceu entre Guilhermina e Pablo?
 
Não foi bem. Talvez no início existisse paixão, mas acho que havia e houve sempre amor até ao fim da vida deles. Embora Pablo tivesse ressentimentos terríveis, nem queria falar nela, porque Guilhermina não era uma mulher de um homem só e aquele episódio da traição marcou-o de uma forma incrível. Dizia ter sido o dia mais desgraçado da sua vida. Então apesar do amor enorme que tinham um pelo outro não conseguiam entender-se. Eram incompatíveis. Aquilo que cada um queria o outro não lhe podia dar.
Há umas cartas trocadas com o pianista Viana da Mota em que ela conta ter ido assistir a um concerto de Pablo Casals em Inglaterra mas que parecia muito cansado e distraído. Não tinha gostado de o ouvir. Há quem diga que isso aconteceu porque ela estava na primeira fila e o músico ficou tão perturbado que não conseguiu tocar nada de jeito.
À carta que ela lhe enviou ele não respondeu pessoalmente, mandou uma pessoa da confiança dele responder-lhe e marcar-lhe lugar no Festival de Prades (em França), mas ela não foi porque já estava muito doente, morreu de cancro no fígado.
 
No seu livro dá a entender que Guilhermina escondeu sempre dos pais que não era casada com Pablo Casals.
 
Não. Os pais sabiam. A farsa era mais para a sociedade portuense porque a mãe a avisava quando ia em digressão com Pablo Casals as pessoas falavam. Então decidiu mandar dizer por carta que tinham casado e assinava Guilhermina Casals Suggia para calar as bocas do mundo.
 
Mas uma mulher tão livre como ela precisava calar as bocas do mundo?
 
Era muito à frente da época mas precisava porque sempre ficou agarrada à terra natal. E os pais estavam no Porto e também deveriam sofrer as consequências daquelas criticas. Penso que acabou por ser mais por sugestão da mãe.
 
Sendo tão admirada ainda assim era criticada?
 
Particularmente no Porto. Naquele tempo o mundo não era global nem sequer o país e a critica acontece muito às celebridades. Há por um lado a admiração e por outro a censura. Os artistas nunca se comportam como as pessoas comuns, são sempre extravagantes e diferentes e não aceitam as regras estabelecidas.
Guilhermina em 1900 tinha uma vida como nós a vivemos agora. Ainda hoje há pessoas que não a entendem, continua a ser criticada e contam anedotas às vezes de mau gosto.
 
Que vida era essa que provocava tal indignação?
 
O facto de ter vivido com o Pablo Casals sem ser casada. Depois teve vários casos. Atribuíram-lhe também um caso com o pintor Augustus John e isso era um escândalo. E quando voltou para o Porto era muito extravagante. Falava com muitas palavras em inglês e usava roupas garridas, gostava muito de amarelo vivo.
Teve o primeiro automóvel que existiu no Porto, ao mesmo tempo que uma senhora alemã. Foi a primeira mulher a conduzir. Era ela quem se conduzia aos concertos. O meu tio dizia que era um Renault preto muito barulhento.
 
 
Depois dos estudos na Alemanha como foi recebida quando voltou a Portugal?
 
Quando acabou os estudos em Leipzig andou em tournée, depois quando voltou a Portugal não a queriam ouvir. Foi Lambertini, amigo do pai e proprietário da revista A Arte Musical, que escreveu um artigo muito indignado e assim cederam ouvi-la no Orfeon Portuense. O sucesso foi enorme. Guilhermina apresentou-se como uma diva e ficaram fascinados com ela. Depois desse concerto partiu com a irmã em digressão.
 
Era impensável não escrever sobre Guilhermina Suggia?
 
Era. Faz parte das minhas raízes. Tive dúvidas porque Mário Cláudio já tinha escrito, Fátima Pombo também mas a certa altura fizeram um documentário sobre ela e ao vê-lo tive a certeza. O documentário começa com o funeral e isso bateu-me fundo. Só se vê uma fotografia e tive a impressão de a ver em movimento, foi estranho.
 
O que distingue o seus livros do de Mário Cláudio ou de Fátima Pombo?
 
São estilos completamente diferentes. Mário Cláudio é um dos meus escritores favoritos mas está escrito de uma forma muito diferente. Os dois livros de Fátima Pombo são biografias.
 
Como explicou anteriormente os seus escritos são fundamentados em pesquisa...
 
Sim. Fiz uma pesquisa exaustiva e adorei. Fui ao Museu do Carro Eléctrico porque queria fazer a reconstituição do que teria sido a viagem que Guilhermina e o pai fizeram entre Matosinhos e Espinho. Em 1898 era uma viagem e tanto, com a máquina a vapor - como um eléctrico mas aberto e puxado por uma máquina a vapor - e o americano - puxado por duas parelhas de mulas -, como veículos desde Leixões passando pelo Infante no Porto, à estação onde é São Bento para atravessar a ponte até ao Café Chinês, em Espinho, que descobri no Instituto Português de Fotografia ser onde hoje está o Casino.
 
Quanto tempo demorou a pesquisa?
 
Demorei quase dois anos a escrever. As pesquisas dão-me imenso prazer.
 
 
O que aconteceu a todo o espólio de Guilhermina Suggia?
 
A minha mãe vendeu parte do espólio para a Câmara Municipal de Matosinhos. A Câmara interessa-se muito pela violoncelista e já fizeram uma exposição e têm apoiado muitas iniciativas sobre ela. Também existem vários objectos no Museu da Música, como o vestido e um violoncelo.


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