"Estou cada vez mais longe de ser uma besta"

Valter Hugo Mãe foi o vencedor da 10.ª do Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa. Emocionado por ser tido escolhido entre centenas de obras que foram selecionadas até se chegar aos 12 finalistas, o autor completa um ciclo de presenças no Brasil que seduziram os leitores e o tornaram num dos autores portugueses mais amados no país.

Quem olha para Valter Hugo Mãe (VHM) a receber os troféus literários do Prémio PT vê dois rostos no mesmo corpo do escritor. O do próprio autor e o do ator James Dean, impresso na T-Shirt e a espreitar pelas abas do casaco preto. E se o rosto da estrela de Hollywood transmite um ar cool enquanto fuma um cigarro, já o de Valter Hugo Mãe mostra alguma ansiedade. Que se confirma quando chega a vez de fazer o primeiro agradecimento, onde é parco de palavras, e da qual só recupera ao ouvir o seu nome numa segunda vez. Dessa, Valter Hugo Mãe é mais prolixo no palco, assemelhando-se às deixas que põe na boca das suas personagens literárias.

E foram essas personagens que o levaram por duas vezes ao palco do Auditório Ibirapuera, arquitetado pelo mítico Óscar Niemeyer, onde decorre a sessão para anunciar o vencedor da 10.º edição do Prémio Portugal Telecom. Primeiro, para receber o troféu na categoria Melhor Romance e depois para o Melhor Livro entre as três a concurso: romance, poesia e conto. O romance que está em causa é o seu penúltimo, o ainda em minúsculas "a máquina de fazer espanhóis". Um livro que não divide brutalmente os curadores e o júri que atribuem o Prémio e que até seduziu o concorrente B. Kuncinski, que fez questão de afirmar antes que se o "prémio não fosse para o Valter, então o júri deve ser despedido".

A Valter Hugo Mãe foram exigidas pelos jornalistas presentes outras declarações, que se prolongaram em mini sessões ao longo de uma hora. O escritor confessou ao DN que estava tão surpreendido e emocionado que lhe era difícil concretizar o seu pensamento perante tantas questões: "Até tenho dificuldade em dizer o que sinto. Falava devagar para dizer tudo o que queria." Entre as várias respostas, VHM surpreendeu ao afirmar que o Prémio e o reconhecimento brasileiro o colocava numa outra situação: "Estou cada vez mais longe de ser uma besta!" Ou seja, entre outras particularidades sobre a relação escritor/leitor/crítica, a questão de ter escrito durante muito tempo em minúsculas deixa de ser um foco principal e o seu trabalho literário pode passar a ser analisado sob outras vertentes. Uma coisa, no entanto, VHM garante que não vai mudar, continuará a morar e a escrever em Caxinas, onde colocará os dois troféus [em forma de árvore] junto a uma outra árvore que trouxe da visita feita na semana passada à terra onde nasceu. Já com o prémio na biografia, parte esta sexta-feira para a Croácia, onde outros leitores esperam pelo autor do premiado "a máquina de fazer espanhóis".

Palavras de Valter Hugo Mãe

"Nestes últimos 3 a 4 anos a minha situação [como escritor] também se alterou muito em Portugal. Acelerou tudo e tudo se precipitou de uma forma muito voraz. No Brasil, foi impressionante porque a partir de um encontro [a FLIP], acende-se um rastilho para incendiar um país de leitores inteiro. Foi um fenómeno que não tem repetição nem se pode programar. Alguém que queira muito que isto lhe aconteça dificilmente terá oportunidade de não ficar frustrado por ser impossível repetir-se uma coisa assim. Eu nunca pensei que pudesse acontecer deste modo, daí que só possa ficar espantado e agradecido."

"A crise na Europa afeta-me das unhas dos pés a todos os poucos cabelos que tenho. Não posso dizer que tenha prejudicado demasiado a minha trajetória porque tenho sido muito bem recebido e ainda não senti que haja menos gente a comprar os meus livros. Mas isso é o que irá acontecer quando em janeiro o nosso Governo nos cortar as pernas e as pessoas não puderem comprar os meus livros. Isso vai deixar-me furioso! A verdade é que as pessoas compram cada vez menos livros porque não podem abdicar de comer para comer literatura. A Natália Correia falava de se poder comer a poesia mas a verdade é que não se comem poemas - eu nunca jantei um livro de poesia. Deixei sim de jantar para ler um livro de poesia; deixei de comer para estar concentrado num texto de poesia; mas, mais tarde ou mais cedo, é preciso comer porque o livro não desce ao estômago."

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