Livraria de Óbidos encheu para ouvir Roger Crowley

Pacheco Pereira acredita que "se há um livro bom sobre os Descobrimentos é este": "Os Conquistadores", do historiador Roger Crowley

A Livraria Santiago não tinha lugares vagos: leitores e admiradores de Roger Crowley, o britânico que acaba de lançar Os Conquistadores, o livro que conta "como Portugal Criou o Primeiro Império Global". Foi ontem ao final da tarde, em Óbidos, à hora em que na vila caía o pano sobre mais um dia do Festival do Chocolate, e começa a desenhar-se nova edição do Folio, o outro festival (literário) que espalha magia dentro e fora das muralhas.

O livro de Crowley foi o mote para a conversa de fim de tarde entre os historiadores José Pacheco Pereira e José Manuel Garcia, a convite da Editorial Presença. E o primeiro, que o país conhece em diversas facetas, quis fazer logo de início uma ressalva: "Não sou um especialista. Vou falar como um leitor comum. Posso dizer que temos muitos livros sobre os Descobrimentos, mas nenhum como este. Por isso, se quiserem ler um bom livro, bem escrito, é este o livro."

Já antes disso, José Manuel Garcia (a quem coube a revisão técnica do livro) descrevera com todo o entusiasmo de quem teve a sorte de o ler em primeira mão. "Este livro mostra bem como Portugal conseguiu dominar o mundo, economicamente e através do cristianismo. O principal conquistador foi Afonso de Albuquerque, o terrível", considerou. A ambos ficou a mesma sensação, verbalizada por Pacheco Pereira: "Muita gente da minha geração detesta os Descobrimentos. Mesmo nas universidades, quase nunca estudamos nada para além da Revolução Francesa", e por isso o contributo do escritor ganha uma dimensão ainda maior.

Pacheco Pereira vai mais longe na importância da obra, ao considerar que "este livro ajuda à reconciliação com a nossa história, com o estudo desse período da história". De resto, há ali também a (re)descoberta de uma história familiar, a que o historiador dedica (propositadamente) pouca exposição pública.

É disso exemplo o navegador, cosmógrafo e militar Duarte Pacheco Pereira (1460-1533), cujas gravuras existiam na sala de visitas do pai, desde que se lembra. No meio da conversa, deixa a nota de lamento, quando se refere à Peregrinação, obra de Fernão Mendes Pinto: "A UNESCO não quis incluir o livro na lista dos mais importantes porque aludia ao racismo." Desgostado, lembra como é importante não branquear a história, num mundo que "era muito diferente". Tanto quanto são hoje os portugueses, quando comparados com os da época dos Descobrimentos. Desse tempo, "sabemos os nomes e as datas, mas não sabemos como viviam as pessoas. É também isso que nos mostra este livro de Crowley".

Vasco da Gama em vez de Colombo

A forma como Roger Crowley construiu a narrativa permite ao leitor entrar no realismo da época dos Descobrimentos e conhecer de forma apaixonada e apaixonante figuras como Afonso de Albuquerque ou Vasco da Gama. O escritor está convencido de que a história universal endeusou Cristóvão Colombo, mas acredita que a figura de Vasco da Gama teria todas as condições para o suplantar. "Era uma figura genial. O maior", disse o escritor e historiador, especializado há muito nos grandes impérios marítimos europeus. E o que o levou, afinal, a escrever sobre aquele período em que Portugal deu novos mundos ao mundo? "Recebi um e-mail de um leitor português que lera o meu livro sobre Veneza e convenceu-me de que escrever sobre os Descobrimentos portugueses seria um próximo passo fascinante", afirmou o escritor, em entrevista ao DN, publicada recentemente.

Tal como Conquistadores, as suas obras foram best-sellers do The New York Times. Leitor de Inglês na Universidade de Cambridge e professor de Inglês em Istambul, é autor de diversas obras de história, algumas delas premiadas. Vive em Gloucestershire, Inglaterra.

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