"A minha preocupação é só a de agarrar Dom Quixote antes que fuja"

Até ao final de Janeiro, o Instituto Cervantes apresenta 40 desenhos de Júlio Pomar sobre D. Quixote de Cervantes.

A barba branca de Júlio Pomar reflete-se no chão escuro azulejado do Instituto Cervantes, em Lisboa, o melhor local para exibir uma pequeníssima parte de um dos temas de trabalho de uma vida do pintor: Dom Quixote. São 40 desenhos em que o foco vai para o Cavaleiro da Triste Figura, que, sob o olhar do mestre Pomar, nunca perde a compostura nestas telas. Mesmo que seja num [quase] rabisco, a cavalo e com Sancho, ou numa composição complexa, mas sempre em execuções e suportes diferentes, para serem observadas pelos visitantes até ao fim de janeiro.

Ouvi-o dizer que estava preocupado com a reação dos visitantes a certos desenhos, por poderem achar que eram só improvisos de tão simples. Mas não foi assim?

Nem por sombras! Esta é uma série muito mais elaborada e com outras relações do que as que fiz noutras alturas e, aparentemente, são mais elaborados. Não é apenas uma aparência, porque esta última fase não teria sido possível sem que tivesse havido esse primeiro pé.

Afinal, regressa três vezes ao tema.

Independentemente do tema, há o modo como vai servindo aquilo que se passa com o sujeito ou com o autor dos desenhos. Não sei de que modo será fácil medir o que, além da rapidez da execução, é o trabalho posterior. Não é por acaso que esse trabalho é rápido, pois quando as baterias que foram voluntariamente carregadas têm, pelas próprias condições de produção, a necessidade de serem descarregadas. Para um tipo de trabalho lento como o meu, é curioso que a maior parte daqueles desenhos fossem produzidos em poucos minutos.

A primeira leitura que faz sobre Dom Quixote é em 1959 com a versão de Aquilino Ribeiro?

Antes já fizera desenhos ocasionais e sem o sentido de publicação em consequência de uma velha paixão pelo texto. Foi uma boa coincidência ter podido trabalhar para uma segunda e, se me viesse novamente uma proposta, ainda a aceitava.

O texto de Aquilino Ribeiro marcou-o ou era mais uma tradução?

O texto do Aquilino reflete a língua dele, que, sem qualquer juízo de valor, é completamente diferente da língua de Cervantes. Isso vê-se logo na entrada, quando o Cervantes descreve os hábitos de alimentação do Dom Quixote ao domingo e Aquilino não consegue coibir-se de acrescentar com os "inevitáveis restos à volta". No entanto, nunca fiz as minhas leituras com a intenção de encontrar semelhanças ou diferenças entre as traduções, daí que pense ser esta para que fiz estes desenhos uma das melhores.

E antes de 1959 o que havia?

Há umas seis pinturas, com a Dulcineia, por exemplo, que é imaginada como tendo uma beleza impressionante.

É mais sedutor desenhar a Dulcineia ou Dom Quixote?

Sem dúvida o Dom Quixote, pois a Dulcineia é uma fantasia.

Cada um tem o seu próprio Dom Quixote. Considera que o seu é o mais próximo do de Cervantes?

Não, não tenho essa pretensão.

O que o leva a desenhar é mesmo uma atração literária?

Exatamente, porque tem a ver com a invenção de Cervantes.

Tal como fez com Edgar Allan Poe, Pessoa ou Camões?

O único livro que propus ilustrar a uma editora foi o de Rabelais, por uma razão muito simples: tinha encontrado num alfarrabista em Paris uma edição com a grafia original e que lia mais facilmente. Como havia um editor que tinha feito uma tradução do Pantagruel, que estava na gaveta, surgiu a oportunidade de lhe juntar os meus desenhos.

Entre Camões e Pessoa qual o entusiasmou mais?

Não se pode estar a comparar, são ambas pessoas fascinantes.

Usa folhas de bloco na exposição. Significa urgência em passar o que tem na cabeça ou há outra razão?

Gosto de utilizar os papéis por acaso e não me repugna utilizar um qualquer papel.

A nobreza não está no suporte?

Não, porque há uma vida do papel que é importante. Talvez seja a origem de um cidadão de um país pobre que tem medo de estragar.

O papel influencia o desenho?

Ah sim, é a matéria que se toca.

Sentiu vontade de conhecer a região onde se situa Dom Quixote?

Nunca senti essa necessidade.

Quase todos estes trabalhos são a preto e branco. É a tonalidade que melhor reflete Dom Quixote?

Sim, predominantemente.

Quando o começa a desenhar fá-lo sempre do mesmo modo?

A minha preocupação é só a de agarrar Dom Quixote antes que fuja.

Montado em cavalos?

Evidentemente.

Não há desenhos com moinhos?

... É engraçado que não existam... Mas tenho-os noutras séries. Como é que isso me escapou?

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