João Tordo: "Há escritores que se expõem demais"

João Tordo deu fim à sua trilogia. O que virá a seguir pode ser um livro bastante diferente.

João Tordo tem um livro novo, o último volume da trilogia iniciada com O Luto de Elias Gro, continuada com O Paraíso segundo Lars D. e finalizada com O Deslumbre de Cecilia Fluss. Explica que o primeiro "fala de um homem na idade adulta, o segundo é protagonizado por uma mulher de 63 anos e o terceiro é sobre um jovem de 14". Acabado o trio, no próximo livro pode mudar em muito o registo, mas sobre essa nova fase ainda é muito cedo para falar: "Está numa fase embrionária." A única revelação que faz é: "Poderá não ser ficção."

A crise dos últimos anos influenciou esta trilogia?

Não. Teve importância em livros anteriores, mas estes já são romances pós-crise. Resultam mais de uma crise pessoal, a de ter chegado a um momento em que percebi que precisava de mudar a literatura que estava a fazer. Foram muitos livros em pouco tempo e é preciso transformar. Gosto do que fiz, mas fazia falta desafiar-me a mim próprio com esta trilogia. Sentia-me estagnado em 2012 e isso é o fim do escritor.

Deve-se à concorrência entre os muitos autores da nova geração?

Competição? É saudável, mas não entro nela, pois não me submeto a níveis de exposição indesejada. Há escritores que se expõem de mais, só que eu não tenho uma ambição desmedida. Sou introspetivo e gosto de anonimato.

Foi mais difícil chegar ao fim da trilogia ou dar-lhe início?

O final foi mais complicado porque tinha guardadas centenas de anotações com ideias e pormenores que era preciso incluir neste volume, de modo a fazer ressonância com os anteriores e que levasse o leitor de volta ao primeiro livro.

Podem ler-se sem uma ordem?

Sim, daí a dificuldade em fazer que tudo batesse certo mas sem necessidade de se ler os outros. Não é uma trilogia narrativa, só o é a nível temático.

Houve pormenores essenciais que não couberam no fecho da trilogia?

Não, mas existiam questões novas relacionadas com o budismo, bem como um protagonista adolescente que vive um período em que tudo é difícil de compreender. O tema era o de como lidamos com tudo isto quando se chega à idade adulta e é suposto sermos seres bem formados e eficazes.

Cada livro teve um plano próprio?

Não, apenas tinha um plano para o primeiro e do segundo sabia a história e que o queria contar do ponto de vista feminino. O que foi muito complicado, porque era difícil entrar na personagem, daí que tenha feito o habitual nesta trilogia cada vez que senti dificuldades: regressar à infância. A dado momento, percebi que cresci rodeado de vozes femininas, sempre uma qualidade: a compaixão. Que as mulheres têm em abundância e falta aos homens.

E as dificuldades do 3º volume...

Aconteceu a mesma coisa: regressar muito à infância e à adolescência e descobrir as qualidades desta voz que estavam em falta. Principalmente o esquecimento, porque pretendia escrever sobre o modo como a memória joga connosco e nos ilude até construir a pessoa que seremos. Esse foi o desafio.

O protagonista diz que "aos 14 anos as coisas mudam a uma velocidade inapreensível". Daí a velocidade narrativa?

O curioso é que a velocidade torna--se mais lenta a cada página do livro devido ao que descobre. O início mostra a urgência da juventude, depois há uma quebra e uma elipse de três décadas, que constitui o sentido do romance.

O budismo aparece porquê?

Não sou budista nem nada que se pareça, mas havia necessidade de encaixar o tema na história porque os conceitos budistas tratam da dificuldade de existir numa vida tal como ela e de sair do sofrimento. Buda tem as respostas.

Porque aparece tanto a memória?

Acho que neste mundo instantâneo a memória vai sendo cada vez mais rarefeita e menos fixada. As redes sociais simbolizam isso, uma memória coletiva momentânea que desaparece para sempre num buraco sem fundo. Tendemos a viver em flashes e perdemos coisas importantes porque o que somos deriva de uma identidade que é construída a partir de sítios mais antigos. É o que os livros fazem bem, porque a literatura tem um tempo diferente do tempo quotidiano.

Há influências de outros escritores na construção desta trilogia?

Várias, mas neste terceiro volume talvez um livro do Julian Barnes que é sobre a memória. Mais importante foi José Saramago, porque queria colocar os meus temas em lugares sem nome. A trilogia não tem geografia ou tempo físico, as personagens têm nomes estranhos que tanto podem ser ou não portugueses. Foi algo que aprendi com o Saramago dos últimos romances, o tentar abordar a literatura de outro modo.

Este é um livro algo ordinário...

Não acho, tudo faz parte da idade da personagem, 14 anos, em que há desejos e as hormonas estão em ebulição. Adolescência é sobretudo desejo.

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