João Salaviza e Renée Nader Messora vencem prémio especial do júri

Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos é um mergulho destemido na vida de um casal de índios do Estado de Tocatins. Uma pequena grande maravilha que venceu o Prémio Especial do Júri no Un Certain Regard.

Não espanta o prémio de Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, mais uma distinção para o cinema português. Ressalve-se que o Prémio Especial do Júri no Un Certain Regard faz parte da Seleção Oficial do Festival de Cannes. É um feito imenso para um projeto lusobrasileiro muito íntimo de João Salaviza e de Renée Nader Messora, a realizadora com quem partilha a autoria do filme, que é também sua mulher.

Depois de Montanha e de curtas-metragens onde experimentava outras linguagens, o realizador português, filho de um brasileiro, entregou-se a uma história de alucinação numa tribo de indígenas no Estado de Tocatins, os krahô. O resultado é de uma beleza serena, quase lancinante onde se conta a história de um casal de índios que começa uma nova etapa da sua vida depois de uma chamamento do lado dos mortos. E as vozes dos mortos veem da água, a voz do espírito do pai que ainda está debaixo das águas da aldeia. Aliás, neste encantamento, a câmara do casal está sempre perto, pegada ao respeito mais profundo por esta tribo. Nesse sentido, é um filme que se entrega tanto aos prazeres da narrativa como às tradições e modo de vida de uma cultura oposta da nossa. Se é verdade que o lado de observação tem uma chave escancarada do espetro etnográfico, também torna-se impossível desmentir o deslumbramento das imagens, sobretudo quando os planos revelam a vida acontecer, seja na selva, na cidade (há uma segmento em que o índio chega ao pesadelo urbano brasileiro) ou na noite. A fotografia, com muito pouco artifício, é assinada pela própria Renée, e é capaz de jogar e inventar reflexos e sombras.

Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos é uma prova que dentro do real é possível sermos transportados para um mundo do "outro lado". Um mundo que está a desaparecer e que é impossível não amar. Não foi por acaso que a equipa do filme, na sessão oficial, chegou com cartazes para protestar contra a forma como o governo brasileiro na intervém na demarcação dos territórios dos índios. Por tudo isto, o júri presidido por Benicio Del Toro não poderia passar ao lado deste espantoso objeto possuído.

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