"Jacobs teria personagens femininas se não fosse proibido"

Está a chegar às livrarias o mais recente Blake e Mortimer. O argumentista Yves Sente, o principal herdeiro de Edgar P. Jacobs, explicou como é fazer a saga hoje em dia.

Quando regressou em 2003 às livrarias a continuação das aventuras de Blake e Mortimer atingiu o número astronómico de 600 mil exemplares vendidos no mercado franco-belga. Daí para cá, os heróis de Edgar P. Jacobs tiveram direito a 11 novos álbuns, a maioria dos quais com argumento de Yves Sente, e todos os natais são número um de vendas no género de ficção.

Em Portugal, a situação não é diferente, e amanhã começam a chegar às livrarias vários milhares de exemplares do novo álbum, O Testamento de William S., com a garantia de cem minutos de leitura à moda do velho Edgar P. Jacobs. Sim, é verdade, a dupla Yves Sente e André Juillard, consegue colocar os dois heróis num mundo muito parecido ao original e, desta vez, embrulha os heróis na velha questão de quem foi realmente Shakespeare, através de uma sucessão de intrincadas peripécias que surpreendem o leitor.

Em jeito de homenagem à colaboração entre Jacobs e Hergé no álbum O Tesouro de Rackham o Vermelho, a dupla pisca-lhes o olho e coloca nas páginas 8 uma personagem que recorda o Capitão Haddock. Mas também recria algum do ambiente de O Mistério da Grande Pirâmide nas pranchas deste novo álbum. Ou põe Mortimer a conduzir um Ferrari Testarossa emprestado pela milionária Peggy Guggenheim... Não falta ação à boa maneira de Blake e Mortimer, nem um engenhoso argumento para celebrar Shakespeare sem desvirtuar o espírito destes álbuns que fizeram história grande na sétima arte.

Edgar P. Jacobs é um grande rival na hora de testar a imaginação?

Não diria um rival, mas sim uma grande inspiração porque desde criança que li todos os Blake e Mortimer e era extraordinário perceber como Edgar P. Jacobs conseguia numa mesma série fazer-nos viajar em géneros tão diferentes como o da ficção científica, do thriller, da espionagem ou da arqueologia.

E não esgotou todos os temas porque se interessou?

Ele foi muito longe, isso posso garantir, em tudo o que fez, mas creio que ainda vou conseguir fazer grandes histórias ao nível da arqueologia e da espionagem, por exemplo. Aliás, tanto eu como Van Hamme [um dos outros argumentistas desta continuação] conversamos antes de dar início a uma nova aventura para não haver repetições. Já criámos histórias no fantástico e com espiões, o que não quer dizer que não se possa voltar ao assunto. A solução é descobrir assuntos em lugares diferentes, de modo a deixar o leitor viajar por novos cenários e encontrarmos ângulos de abordagem nunca feitos. Pode-se reformular um género várias vezes sem o destruir. Eu tinha a impressão de já ter percorrido todos os temas de Jacobs, mas este álbum mostrou-me que não é assim.

Jacobs gostava muito de ficção científica, no entanto quase desapareceu na continuação. Porquê?

Posso revelar que temos um projeto a avançar nesse domínio, mas é uma situação muito difícil porque Jacobs escrevia para um público dos anos 50 e 60, no caso do SOS Meteoros, e dos anos 70, no caso de As 3 Fórmulas do Professor Sato, mas hoje desenhar uma história do género, que se passa nos anos 50, confronta-nos com o facto de a ficção científica ser pouco apelativa para os leitores atuais. Mas é um desafio que está em curso, aviso.

Até porque o ambiente da Guerra Fria e das ameaças terroristas que Jacobs adorava repetem-se.

Sim, quando publicámos A Conspiração Voronov o tema surge a partir de um incidente com um meteorito que trazia uma bactéria, que seria utilizada para fazer uma arma bacteriológica. Essa história seria credível nos anos 50, no decurso da corrida espacial entre russos e americanos, no cenário da espionagem e da Guerra Fria, mas também funciona atualmente porque o assunto das armas químicas continua atual. Portanto, quem leu os álbuns antigos ainda sente que o tema é plausível. E isso é o que importa na recriação de Jacobs.

Para se manter herdeiro de Jacobs é obrigado a seguir um código?

O código é, principalmente, ser um apaixonado pela sua obra. Só assim é que se continua o trabalho de forma respeitosa. Aliás, os nossos nomes não têm importância, só há obrigação dos álbuns agradarem aos leitores. Sabe-se com alguma nostalgia que não é Jacobs, mas estes Blake e Mortimer lembram os que gostávamos de ler e, fundamentalmente, mantêm a mesma densidade, qualidade do argumento e do desenho, com personagens que levamos a sério. Há muito trabalho de documentação para não se falharem os detalhes e respeitar a herança. Não é Jacobs mas é um bom Blake e Mortimer.

Jacobs usava uma estrutura gráfica muito fixa. É difícil manter uma "coisa" velha em álbuns novos?

Não, porque é uma estrutura muito eficaz. Em Jacobs, a câmara está sempre perto do personagem, não há grandes planos. Se alterássemos, o leitor estranharia. Por isso, fazemos as coisas à sua maneira

É difícil fazer a investigação quando se está situado no passado?

Uma boa investigação exige muito trabalho, mas é um dos grandes prazeres que tenho com André Juillard [o desenhador] a busca por uma boa foto ou fonte histórica. Com a Internet a vida é mais fácil, mas também fazemos algumas deslocações para ver os locais onde o álbum se passa. Em O Bastão de Licurgo fomos a Londres três vezes, em O Juramento dos Cinco Lords foi Oxford e em A Conspiração Voronov estivemos em Liverpool. Quando viajamos já temos o argumento pronto e o que procuramos é o cenário e alguns pormenores para acrescentar à história, de forma a tornar tudo mais fiel.

Quando o foco é em Blake é um argumento muito diferente do que quando calha a Mortimer?

São personagens muito diferentes e tentamos dar mais destaque a um do que ao outro alternadamente. Biograficamente, Jacobs deixou escrito um ótimo perfil deles, o que facilita pôr as histórias no tempo.

Como fizeram com o jovem Mortimer no 6.º Continente?

Exatamente. Ter as informações que ele deixou faz-nos parecer que estamos a desenhar os álbuns para os quais Edgar P. Jacobs não teve tempo em vida.

Seriam estas as histórias que Jacobs teria escolhido para fazer?

Não sei, mas o que ele dizia na sua biografia sobre Blake e Mortimer faz pensar que deixou pistas para um trabalho futuro. Que é o seguido por quem faz as continuações.

Seria a favor destas continuações?

Eu não o conheci mas, segundo o editor responsável por este projeto, seria favorável. Afinal, no fim da vida recuperou os direitos autorais e criou a sociedade Os Estúdios Jacobs para se fazerem novos trabalhos. Portanto, se fez tudo isto, deveria ser esta a sua vontade. O mais curioso é que os álbuns de Edgar P. Jacobs continuam a vender, estão nas estantes das livrarias e a ser descobertos por novas gerações.

Que é o álbum de Jacobs que mais aprecia?

A Marca Amarela, com certeza, mas tenho um grande amor pelo Mistério da Grande Pirâmide. Ficou-me para sempre na cabeça. Mas também gosto de A Armadilha Diabólica, que é terrível.

O vilão Olrik precisa de estar sempre presente?

Essa é a parte mais aborrecida, que também fez sofrer Jacobs ao tentar ver-se livre dele, só que os leitores reclamaram e foi obrigado a recuperar o personagem. Agora, passa-se o mesmo, exigem Olrik. Pode nem ter um papel muito importante mas deve aparecer pois é o mestre do mal.

Neste álbum, tal como em anteriores, existem várias personagens femininas, o que era impossível em Jacobs. O que mudou?

Jacobs teria desenhado personagens femininas se não fosse proibido. Fê-lo no Raio "U", mas na revista Tintim era impossível porque tinha um público muito grande nos colégios católicos e existia uma Lei de Proteção da Juventude, de 1956, com regulamentos muito complicados, que impediam a existência de personagens femininas na história. Atualmente, isso seria incompreensível, pois não há livros para rapazes e raparigas. Os principais serão sempre Blake, Mortimer e Olrik, mas há sempre mulheres. É a grande diferença quanto a Jacobs.

Blake e Mortimer teve álbuns duplos e triplos. Há previsão de mais?

A próxima aventura vai ter dois volumes. O primeiro passa-se em Hong Kong e o segundo na China profunda.

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