"Westworld" torna-se real numa cidade escondida em Austin

A experiência construída pela HBO antes da segunda temporada da série é tão imersiva que quase provoca uma dissonância cognitiva.

Os anfitriões vestidos de branco registam os convidados com um tablet onde é preciso aceitar termos de serviço preocupantes: em caso de ferimentos ou morte, a companhia Delos não é responsável por nada. O visitante tem de dizer que sim, que aceita a responsabilidade de entrar num mundo onde as regras da realidade moderna não se aplicam. E todos aceitam. A oportunidade de regressar ao passado é demasiado boa para perder.

"O Westworld é como uma cebola, há sempre mais camadas", disse a protagonista, Evan Rachel Wood, durante o painel da série no festival South by Southwest, a decorrer em Austin, nos Estados Unidos. A HBO procurou mostrar isso mesmo levando as pessoas àquele mundo. À entrada da estação Mesa Gold, tal como na série, o visitante recebe um chapéu preto ou branco para simbolizar a sua personalidade: preto para vilão, branco para herói. É depois transportado para uma localização secreta, fora dos limites de Austin, que parece perdida na imensidão do Texas. Foi aqui que a Delos, ou melhor, a HBO, construiu uma réplica de Sweetwater, a cidade onde tudo se passa na série Westworld.

A experiência é notavelmente imersiva. Entra-se pelas carruagens do comboio que leva visitantes e hospedeiros artificiais para a cidade e esbarra-se nas conversas dos habitantes locais. Vestidos com um rigor meticuloso, falando com um sotaque típico dos westerns, conversam sobre coisas que aconteceram naquele dia, como o forasteiro que desatou aos tiros na praça, ou sobre questões existenciais, como a necessidade do sofrimento para a formação da personalidade.

A Sweetwater artificial tem mais de 60 atores que parecem estar numa peça que decorre sem parar, independentemente de ter ou não espectadores. Ninguém sorri se não fizer sentido. Comentam entre si sobre estes visitantes com roupas esquisitas e geringonças nas mãos, olhando boquiabertos para os smartphones que fazem vídeos e tiram fotos.

A minicidade que a HBO construiu perto de Austin durante o festival South by Southwest é, provavelmente, o melhor golpe publicitário alguma vez visto para promover um franchise televisivo. Os cenários são quase demasiado realistas. Há um cemitério com uma campa para Dolores Abernathy, a hospedeira interpretada por Evan Rachel Wood, há as mesas onde se joga póquer no salão Mariposa, as meninas que tentam aliciar estranhos, o xerife e a sua prisão, os trabalhadores que passam com cavalos, o fotógrafo com a sua máquina antiga. O visitante pode explorar por onde quiser, meter-se por atalhos e ir espiar hospedeiros, só para descobrir que eles mantêm a personagem mesmo que ninguém esteja por perto. Esta Sweetwater não é como a Disneyland nem como o Wizarding World of Harry Potter; é o mais parecido com cair num buraco negro e sair do DeLorean de Doc Brown em 1855.

A segunda temporada estreia-se a 22 de abril e é uma das mais antecipadas do ano. "O que eu gosto nesta série é que nos faz colocar questões", disse Evan Rachel Wood. "Tomamos tantas coisas como garantidas que não questionamos a natureza da nossa realidade." A Sweetwater artificial, por momentos, provoca essa dissonância cognitiva: há alguma hipótese de isto não ser completamente falso?

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