Viggo Mortensen protagoniza a saga de uma família insólita

Revelado em Sundance e premiado em Cannes, "Capitão Fantástico" encena as atribulações de uma família em crise

Quando, no passado mês de maio, o filme Capitão Fantástico (chega hoje às salas portuguesas) passou no Festival de Cannes, alguma imprensa americana da área do entertainment entregou-se a um dos seus desportos favoritos: fazer profecias para os próximos Óscares (que, já agora, convém lembrar, serão entregues a 26 de fevereiro de 2017). Assim, no papel principal de Capitão Fantástico, Viggo Mortensen surgiria como um candidato natural a uma nomeação para melhor ator...

Provavelmente, vão acertar. Em todo o caso, seria algo inglório que um objeto tão atípico - e tão sedutor - fosse enredado no jogo mais ou menos gratuito de listas e tops que, todos os anos, reduzem os Óscares a uma especulação em formato Excel, menosprezando a singularidade dos... filmes.

De facto, estamos perante um filme tão original e envolvente quanto a personagem a que Mortensen empresta uma solidão radical, paradoxalmente contagiante. O título pode gerar um pequeno equívoco: nada a ver, entenda-se, com as aventuras mais ou menos ruidosas e repetitivas de super-heróis. Este "Capitão Fantástico" é um pai de família enredado numa teia de factos e ilusões de onde não é fácil sair. Tendo educado os seis filhos de acordo com as regras muito estritas de um primitivo contacto com a natureza, a súbita doença da sua mulher vai conduzi-lo a um confronto, afinal, inevitável. Dito de outro modo: por crueldade ou empatia, o mundo à sua volta começa a cobrar um preço inesperado, desagregando a utopia libertária da sua família.

Capitão Fantástico é um filme realizado por um ator, Matt Ross, que vimos, por exemplo, em personagens secundárias de filmes como O Aviador (2004), de Martin Scorsese, ou Boa Noite, e Boa Sorte (2005), de George Clooney. Não admira, por isso, que, para além de Mortensen, a qualidade global das interpretações seja tão forte e decisiva. A representação das crianças e, em particular, dos adolescentes (destaque para George MacKay e Samantha Isler) escapa a qualquer cliché romântico ou mediático, instalando um belo paradoxo: o pano de fundo pode ser a idealização de um mundo mágico, mas os gestos e comportamentos das personagens surgem tocados por um realismo à flor da pele.

Não podemos deixar de reconhecer que Capitão Fantástico é um filme fora de moda, não pactuando com visões cor-de-rosa, mais ou menos moralistas, das relações pais/filhos. A saga desta família insólita testemunha, afinal, a persistência de um cinema americano genuinamente independente, apostado em experimentar novas narrativas, mesmo quando trabalho sobre temáticas tradicionais. Por alguma razão, o filme teve a sua primeira exibição pública, em janeiro deste ano, nesse "templo" da produção independente que é o Festival de Sundance.

Em qualquer caso, para a história, registe-se que Matt Ross saiu de Cannes com o prémio de realização atribuído pelo júri de "Un Certain Regard" (secção do festival que integra a seleção oficial, embora os seus filmes não concorram para a Palma de Ouro). Convenhamos que uma nomeação para um Óscar seria um suplemento a não menosprezar.

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