Vazia e sem destino, Casa volta a ser leiloada

Família do cineasta reconhece que não há qualquer ligação com o edifício, que vai hoje, pela segunda vez, a hasta pública com um valor-base de licitação de 1,5 milhões de euros

Quando no início da década de 1990 Manoel de Oliveira comunicou a vontade de doar o seu acervo, a Câmara do Porto, então presidida pelo socialista Fernando Gomes, propôs-se construir um edifício de raiz para receber todo o espólio. A Casa Manoel de Oliveira, na zona da Foz do Douro, começou a tomar forma em 1998 a partir de um projeto do arquiteto Eduardo Souto de Moura e tinha como objetivo ser a residência do cineasta e um polo museológico dedicado à sua obra.

Contudo, nunca chegou a ser formalizado qualquer acordo com o realizador para o uso do edifício, concluído em 2003, que cerca de duas décadas depois de ter sido idealizado continua vazio e à espera de um destino. Hoje, pelas 10.30, nos Paços do Concelho, o atual executivo autárquico, liderado por Rui Moreira, realiza um leilão para tentar vender, pela segunda vez, o edifício, com um valor-base de licitação de 1,58 milhões de euros.

Adelaide Trêpa, filha do cineasta, falecido em abril de 2015, com 106 anos, reconhece ao DN que a venda não diz nada à família. "Não existe qualquer ligação entre aquele espaço e o meu pai. Chamam-lhe Casa Manoel de Oliveira, mas nunca foi assinado qualquer protocolo para que assim fosse. Ao longo destes anos, houve uma intenção de um antigo presidente da câmara, que entretanto se desvaneceu, pelo que não temos nada a ver com o destino que a casa possa ter", sublinhou.

Da parte da autarquia, dona da casa, a falta de ligação entre o edifício e o homenageado também é assumida. "Manoel de Oliveira recusou a casa, entre outras coisas, por faltar uma sala de projeção. O próprio autor do projeto reconheceu numa reunião com a câmara que o edifício não corresponde da melhor forma ao destino que lhe queriam dar. Além disso, o Museu de Serralves vai construir uma outra casa dedicada a Manoel de Oliveira."

Com estes dados todos, a autarquia sente-se à vontade para vender a casa. "Sobretudo considerando que Manoel de Oliveira e o próprio Souto de Moura consideraram este primeiro projeto desadequado", sustenta ao DN fonte oficial da câmara, salientando que a grande diferença em relação à hasta pública anterior é o facto de as duas frações serem vendidas em conjunto, o que se pode tornar "mais atrativo" para quem quiser investir. "Além disso, Souto de Moura propôs-se a fazer algumas alterações para adequar a casa para o mercado de habitação. Há particularidades que a tornam menos interessante sob o ponto de vista do mercado, como as áreas ou a luz, que estavam projetadas para uma parte museológica", acrescentou fonte da autarquia.

Para a câmara, que não quer ter "mais templos de cultura" a seu cargo, antes investir o orçamento em programação cultural nos espaços que já tem, o objetivo é "vender um imóvel que está parado há mais de vinte anos". A Fundação Sindika Dokolo, do marido da empresária angolana Isabel dos Santos, chegou a ponderar este espaço na cidade, tal como o Palacete Pinto Leite, como possíveis futuras instalações da sede para a Europa do seu acervo de arte. No entanto, nos últimos meses, a intenção de sediar no Porto parte da coleção de Sindika Dokolo não terá tido desenvolvimentos.

Por outro lado, também sem avanços continua a criação da nova Casa do Cinema Manoel de Oliveira pela Fundação Serralves, que aguarda financiamento comunitário para a concretização do projeto concebido por Siza Vieira.

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