Uma tarde com Cesariny e o ministro que não deixa de ser poeta

Luís Filipe Castro Mendes esteve ontem no Centro Cultural de Belém para participar na tarde dedicada a Mário Cesariny.

"A esta hora entre os blocos de prédios enevoados, a bela marcha diurna dos calceteiros na praça e os dois amantes que hoje não dormiram vão partir nos braços da sua estrela." Luís Filipe Castro Mendes segura o pequeno livro entre as mãos e começa a ler o poema Corpo Invisível de Mário de Cesariny mas é interrompido pelo público que lhe pede que leia mais alto. Ele aproxima-se do microfone e recomeça. Lê com entusiasmo. Para para beber água, fazendo um sinal com a mão para que ninguém aplauda. Continua. É um dos poemas longos de Cesariny, escrito em 1950, e o ministro da Cultura escolheu-o por um motivo: "Foi o primeiro poema de Mário Cesariny que li e ficou sempre como uma referência para mim", explica.

O ministro, que também é poeta, foi o primeiro declamador da Maratona de Leitura dedicada ao poeta surrealista e que foi um dos mais concorridos eventos da habitual celebração do Dia Mundial da Poesia, que se realizou ontem à tarde no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Elísio Summavielle, o presidente do CCB, que pouco depois também tomaria o microfone para ler um divertido cadavre exquis, não escondeu a sua surpresa ao descobrir o "excelente declamador" que se escondia por trás do político. O ministro sorri. "Gosto muito de declamar poesia, vim aqui fazê-lo mesmo por gosto", contaria ao DN pouco depois de ter deixado a Maratona de Leitura a meio para poder dar uma volta pelo CCB, assistir a algumas das sessões e, finalmente, ler alguns dos seus poemas numa outra sala onde decorria uma sessão dedicada à poesia latino-americana. "Esta não é a primeira vez que venho ao Dia da Poesia no CCB, gosto de vir aqui, ouvir encontrar outros poetas. É um momento de encontro", explicou.

Este ano, o evento foi completamente dedicado a Mário Cesariny (1923 - 2006). Entre os muitos momentos, todos com entrada livre, havia uma pequena exposição, com algumas esculturas, desenhos e colagens, e houve um recital a cargo dos alunos da Casa Pia, jovens que vestiram as camisolas brancas da sua instituição e desafiaram a vergonha de enfrentar o público para dizerem os poemas de um artista que foi casapiano.

"O Mário Cesariny era um homem que nunca dizia banalidades e nem nunca o ouvi dizer inconveniências", afirmou o político João Soares numa conversa em tom informal que decorreu, na sala Luís Freitas Branco, e que juntou alguns dos amigos do artista, como o escritor José Manuel dos Santos, a pintora Ilda David, o presidente do CCB Elísio Summavielle e o editor Manuel Rosa. Cada um tinha uma mão cheia de histórias com Cesariny para partilhar. Desde aquela vez em que, num restaurante muito "queque" o poeta pediu para levar o resto da costeleta para casa, até aos cigarros fumados com autorização dos médicos na casa-de-banho do IPO. Soares lembrou as noites passadas a conversar no quarto de Cesariny, entre desenhos e telas. "Adormeci muitas vezes naquele sofá", contou. Houve quem recordasse que além de tudo era um grande pianista e José Manuel dos Santos não quis deixar de sublinhar aquela que considera a característica mais importante de Cesariny: a liberdade. "Foi uma pessoa que se construiu na resistência para poder ser livre. Nunca aceitou em nenhum momento da vida que alguém pusesse em causa a sua liberdade e, por isso, pagou um preço muito alto."

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.