"Uma performance racista", acusa editora. APEL repudia atitude de voluntária

A voluntária interrompeu um debate em que se discutia o ativismo contra o racismo, dizendo a Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo: "Vê lá se te despachas!". A APEL diz ter tomado medidas para evitar a repetição de incidentes deste teor que "repudia"

"Parecia encomendado. Uma performance racista, num debate contra o racismo. Estava boquiaberta." A editora da Tinta da China Bárbara Bulhosa denunciou a situação na sua página de Facebook. Num debate a propósito do livro Racismo no país do brancos costumes, da jornalista Joana Gorjão Henriques, discutia-se o ativismo. À volta da mesa da Praça Laranja, este sábado na Feira do Livro de Lisboa, estavam Beatriz Dias, da DJASS - Associação de Afrodescendentes, Mamadou Ba, do SOS Racismo, a ativista Ana Tica, e Raquel Rodrigues, da FEMAFRO, Associação de Mulheres Negras Africanas e Afro-descendentes em Portugal.

"A voluntária 'contratada' pela APEL, passou o debate a gesticular e mandar bocas a dizer que não concordava nada com o que estava a ser dito, 'esta gente', repetiu várias vezes. Eu, que estava na primeira fila, ignorei os seus comentários, que para além de serem de uma enorme indelicadeza (estava vestida com a camisola da APEL), revelavam de forma inequívoca o que pensa sobre o racismo e o que diz 'esta gente'", relatou Bárbara Bulhosa.

A dez minutos do final da sessão, a voluntária "começou a mandar calar directamente os intervenientes. Aproximou-se do palco e disse ao Mamadou Ba, que estava a falar: 'Vê lá se te despachas!' O Mamadou Ba, apanhado de surpresa, calou-se e a Joana Gorjão Henriques terminou a sessão imediatamente."

Bárbara Bulhosa lamentou ainda a ausência de um pedido de desculpas por parte da APEL, que só chegaria no dia seguinte: "Pagamos para estar ali, a Feira sempre foi um espaço de liberdade e o que aconteceu ontem mostrou-me que nem sempre estamos à altura das nossas responsabilidades. Pela minha parte, pedi desculpas a todos os intervenientes no debate e farei queixa, desta vez por escrito, ao presidente da APEL."

Nesta segunda-feira a APEL "repudiou" a atitude da voluntária na página de Facebook da Feira do Livro de Lisboa. "A APEL lamenta profundamente os incidentes ocorridos sábado passado, na Feira do Livro de Lisboa, durante a apresentação do livro Racismo no País dos Brancos Costumes, de Joana Gorjão Henriques, editado pela Tinta da China. A APEL não se revê de nenhum modo na atitude assumida pela sua colaboradora que dava apoio logístico à sessão de apresentação." A instituição garantiu ainda que "tomou entretanto medidas para evitar a repetição de incidentes deste teor, que mais uma vez repudia".

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