Uma obra-prima de Caravaggio esteve esquecida 150 anos num sótão

Ainda não está confirmada a autoria do quadro, mas tem enorme valor artístico mesmo que não tenha vindo das mãos do mestre italiano

Uma obra de Caravaggio fica escondida durante mais de 150 anos num sótão inutilizado, até a família que vive na casa ter uma fuga de água e a descobrir. Parece história de filme, mas é a que se conta em França agora que o quadro encontrado em abril de 2014 foi alvo de um parecer da equipa de peritos do gabinete parisiense Eric Turquin, esta terça-feira: "Esta obra recentemente descoberta [é] de grande valor artístico, e podia ser identificada como uma composição desaparecida de Caravaggio".

Ainda não se sabe se a obra foi feita diretamente pelo mestre italiano Caravaggio, que viveu em Itália entre 1571 e 1610, mas mesmo que não o seja é uma "obra marcante do caravagismo", afirma o gabinete de Eric Turquin no seu parecer.

O ministério da Cultura francês optou por impedir que o quadro fosse retirado do país durante 30 meses, atribuindo-lhe estatuto de Tesouro Nacional, para permitir que este seja analisado e a sua autenticidade confirmada, escreve o jornal Le Monde.

O quadro, que mostra a cena bíblica de Judite a decapitar Holofernes, estava numa zona de sótão por baixo do telhado de uma casa antiga na região de Toulouse, onde se mantinha há pelo menos 150 anos. Os proprietários da casa encontraram-no quando tiveram uma fuga de água que os levou a inspecionar o sótão que não usavam. A obra estava num excelente estado de conservação, e o leiloeiro local Marc Labarbe optou por chamar o gabinete de peritos parisienses para o analisar.

Caravaggio tem uma outra pintura, essa sim de autoria confirmada, intitulada Judite e Holofernes, que mostra a mesma cena bíblica, mas com várias diferenças. Esse quadro, exposto na Galeria Nacional de Arte Antiga em Roma, tem muitas semelhanças com a pintura recém-encontrada, desde a posição em que Holofernes se encontra até à presença da criada de Judite e ao pormenor dos cortinados vermelhos que enquadram a cena, mas tem também várias diferenças, desde as cores das roupas às expressões e posições das personagens.

Dois dos peritos consultados por Eric Turquin atribuíram o quadro encontrado no sótão ao pintor francês Louis Finson, contemporâneo do mestre italiano e conhecido por fazer cópias ou versões de quadros de Caravaggio. Outro perito afirmou, porém, que o quadro era genuíno de Caravaggio e "uma obra-prima". O quadro vai agora ser analisado por peritos do Museu do Louvre, mas Turquin afirmou hoje em conferência de imprensa: "Nunca vai haver consenso".

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