Uma história da Europa contada em três exposições de fotografia

Retratos dos anos 1990, fotógrafos que se afirmaram nos oitenta e os últimos dias do Muro de Berlim. É a Europa na PHotoEspaña

Nem cronológica nem histórica. Mas sempre em diálogo (e, de todas as formas, sempre com um pé na História). São assim as exposições dedicadas à Europa, ou Europas, no mais importante festival de fotografia e artes visuais de Espanha. Uma começa no ano em que Margaret Thatcher foi eleita primeira-ministra do Reino Unido. A outra começa quando o muro cai. No meio, a visão de um cubano no último mês antes da reunificação da Alemanha.

1 - O retrato no tempo da selfie

Cai o muro de Berlim, chega a internet, chegam novas perguntas: o que é ser europeu? Foi das questões relacionadas com o fim da separação este/oeste que nasceu a exposição Fotografia de retrato na Europa desde 1990, a partir do trabalho de 22 fotógrafos que se dedicam a um género de larga tradição na Europa, o retrato, "na sua tradição humanista e democrática de olhar o indivíduo", como explica o curador da exposição, Frits Gierstberg. "Uma importante tradição europeia que vem do Renascimento, de olhar para o indivíduo como parte de um grupo social, de um contexto". É também um género a que se dedicaram muitos artistas nos anos 90, apesar de pouco mostrado, "por oposição ao momento em que é mais popular", diz, referindo-se, às omnipresentes selfies. "Estamos na era do retrato", constata. Mas, aqui o comissário quis fugir do óbvio. Não há selfies (mas um autorretrato do espanhol Alberto García-Alix), porque "isso seria confuso". Chamou antes "os artistas que estão a pensar o que é o retrato".

"O retrato", acrescenta, "expressa uma posição política, cultural ou social. Hoje, tiramos fotos de pessoas comuns como se fossem importantes".

Dividida por temas, arranca com artistas que têm pensado as questões do público e privado. Há os retratos de pessoas pobres que ironizam a fotografia documental e aqueles, do suíço Beat Streuli, tirados na rua sem que os retratados se apercebam e que com toda a probabilidade nem sabem que estão hoje numa galeria de arte. É legítimo? Esta é a pergunta mais comum. E a máscara que cai entre a multidão? Outra pergunta do artista. Estão aqui em oposição as repetições de Ari Versluis & Ellie Uyttenbroek,. Fotógrafo e profiler (quem escolhe os perfis das pessoas fotografadas) trabalham juntos há 21 anos e com o projeto Exactitudes, exploram as semelhanças entre os indivíduos nas grandes urbes, quando creem que são todos muito diferentes uns dos outros.

Os retratos do alemão Thomas Ruff (1958) estão em destaque nesse segundo grupo de fotos que joga com a ideia de máscara. O artista procura nada mais que o rosto, a tábua rasa do retrato, em imagens ampliadas que, como diz o curador, "podem ser ampliadas tantas vezes quantas quisermos pois não veremos mais do que o que pensamos". Do outro lado, três imagens de Jorge Molder (1947) - o artista com o rosto branco de talco e lábios vermelhos - que vem lembrar "como a máscara está relacionada com o teatro e a performance", realça o curador. "Era evidente para mim que tinha de estar aqui", afirma Frits Gierstberg, durante a visita guiada à imprensa. Os trabalhos crescem em intimidade à medida que se avança pelas salas do CentroCentro, um dos mais recentes espaços expositivos da capital espanhola. Até chegar ao conceito de identidade e ao trabalho da checa Jitka Hanzlová (1958), que volta a casa anos depois do fim do regime comunista, à procura da sua identidade, registada em fotos que não são retratos "evidentes", mas que também entram no conceito do curador.

À medida que o visitante percorre o espaço e deixa para trás a zona mais pública do Centro, entra em imagens mais pessoais. O exemplo maior é o retrato da família de Thomas Struth (Alemanha, 1954), que tem levado fotografias de família para museus como o Metropolitan em Nova Iorque, Guggenheim ou Chicago Art Institute sublinhando que em cada fotografia ressalta a relação entre os vários elementos que a compõem e é tão importante o contexto, que ele capta (ao contrário de Ruff) como a pessoa. Diz-nos quem ela é.

E há imagens oficiais, captadas pela lente do francês Christian Courrèges (1950), na sua série Capitais Europeias, cujos protagonistas são os altos quadros da União Europeia. Na exposição, patente até 28 de agosto, está por exemplo Emma Bonino, ex-comissária europeia. Outro tipo de retrato é aquele que faz o belga Stephan Vanflteren (1969), que fotografa pessoas famosas, colocando-se aqui outra pergunta: como captar o que são quando elas já são alguma coisa? Para a exposição veio o retrato do arquiteto holandês Rem Koolhas.

2 - Um cubano em Berlim

É uma das exposições mais poéticas desta 19.ª edição do PHE a que reúne uma seleção de imagens do cubano José Alberto Figueroa (1946) tiradas em Berlim, após a queda do muro, mas antes da reunificação, em maio de 1990. Está na Casa de América até 31 de julho e explica-se sozinha com as imagens que o artista escolheu mostrar, quase todas inéditas, e lendo os textos que as acompanham da autoria da curadora Cristina Vives, mulher de Figueroa. Ela estava em Berlim em novembro de 1989, e, perante a notícia de que o muro ia cair, telefonou para Cuba. "Telefonei para La Habana para que Figueroa, meu esposo, soubesse que algo grande estava a passar-se". Em maio, o casal está em Berlim preparando uma exposição no lado leste numa galeria chamada Haus der Junge Talente. "À inauguração apenas compareceram eles e dois ou três amigos", conta o fotógrafo durante a visita à imprensa, anteontem. É nessa altura que, munido de uma câmara point and shoot, como qualquer turista, "e sem querer interferir com as pessoas", começa a fazer fotografias do muro, sempre do lado oriental, ora fotografando o arame farpado, ora as pessoas que passavam pelos buracos que iam sem abertos. Vindo de Cuba e com acesso a menos informação do que aquela que encontra in situ, O artista resume numa só frase os pensamentos de então: "Aquilo está a acabar". E embora as fotos tenham já um quarto de século, ganham inesperada atualidade. "Esta não é fotografia de uma história passada mas de uma história presente", considera Figueroa, colaborador de Alberto Korda entre 1964 e 1968. Acredita que "algo se vai passar", em Cuba. "Agora parece mais iminente". Aquele momento em que lhe apetece repetir o título da exposição: Und Jetzt? (E agora?) - retirado originalmente deu um graffitti escrito por uma amiga em Berlim.

3 - Os pioneiros dos anos 80
"São os anos que confirmam os fotógrafos como artistas". As palavras são da curadora Maria Wills sobre a seleção de nomes de Transições. Dez Anos que transformaram a Europa. A partir do acervo da coleção Motelay, pretende-se ilustrar uma década de mudanças, aquela que começa em 1979 com a eleição de Margaret Thatcher e termina com a queda do muro em 1989, a que correspondem três acontecimentos-chave: liberalizam-se algumas operações financeiras, é o tempo das novas tecnologias, preâmbulo da Internet, e existe uma crise na URSS.

Reino Unido, Rússia e Ucrânia (ex-URSS) e Alemanha são territórios privilegiados pelos fotógrafos. Os exemplos de autores da escola de Dusseldorf confirmam a escolha, "com técnicas e formas muito próximas da prática artística", diz o outro curador da exposição, Alexis Fabry.

A exposição, patente no Círculo de Belas Artes até 25 de setembro, retoma o trabalho de Thomas Ruff, e os seus retratos, que, inicialmente o artista não queria mostrar. Nascido Zell, estudou em Dusseldorf entre 1977 e 1985 e nos seus trabalhos dos anos 80 e 90 quis questionar o valor de verdade da imagem documental, que o levou à série em que fotografa rostos de pessoas comuns, sem expressão nem glamour. Ruff, aproxima-se de Graham Smith (1947), que também escolhe captar gente que gira à sua volta, mas interessa-se pelo mínimo possível

Maris Wills explica que nesta seleção as datas podem não ser completamente exatas, algumas saem deste período porque são de fotógrafos que "fizeram um corpo de trabalho importante nesta época". Pode ser vista até 25 de setembro no Círculo de Belas Artes.

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