Uma festa ao rubro para os dez anos do RED Trio

Piano, contrabaixo e bateria. Podia ser uma formação clássica de jazz, mas Rodrigo Pinheiro, Hernâni Faustino e Gabriel Ferrandini juntaram-se para nos inquietar enquanto rasgam fronteiras sonoras. Numa década, o grupo ganhou experiência e reputação internacional. A comemoração acontece esta noite, com a estreia de temas e uma big band criada para o efeito

Disse certa vez Mark Twain que nunca conseguia fazer um bom discurso de improviso se não o preparasse antes durante horas. O RED Trio levou à letra a tirada do escritor norte-americano e dedicou-se a ensaiar, ontem e quinta-feira, para o espetáculo que esta noite leva ao palco do Teatro Maria Matos.

O pianista Rodrigo Pinheiro e o contrabaixista Hernâni Faustino já levam uns anos de atividade musical e, ainda assim, não escondem uma certa ansiedade. Não é para menos. O RED Trio, o qual se completa com o baterista Gabriel Ferrandini, celebra dez anos com um concerto inédito a todos os títulos: cada um dos músicos apresenta em estreia uma peça para formações de nove ou dez elementos. "Nunca tocámos além do quinteto", constata o homem que há pouco mais de uma década convidou Pinheiro e Ferrandini para fundarem o grupo.

"Como estamos a fazer improvisação livre, o ensaio é um contrassenso. Cada um, individualmente, trabalha muito", explica o pianista. No entanto, a ocasião impõe-se. Há uma estrutura musical a estrear-se e muita gente em palco: "Para prepararmos o espetáculo do Maria Matos temos de ter ensaios. Quando estamos em trio conhecemo-nos muito bem, sabe- mos o tipo de interação que cada um de nós tem com os outros." O que inclui espaço para "algo de que não se está à espera, surpresas e ideias inesperadas". Enfim, música feita no momento e do momento, algures nos escombros do jazz. "Podes trabalhar estruturas mas a improvisação é chegarmos e tocarmos. Podes criar um sistema de endurance, mas às tantas perdes a frescura, o sparkle", completa Faustino.

Celebração é a palavra de ordem, ao apresentarem-se com instrumentistas com quem tocam, "uns há muito tempo e outros que não, mas todos músicos que admiramos e com quem gostávamos de trabalhar", diz Pinheiro.

John Butcher (saxofone), Sei Miguel (trompete), Fala Mariam (trombone), Mattias Ståhl (vibrafone), Ricardo Jacinto (violoncelo), Carlos Santos (laptop), Nuno Torres (saxofone), Ernesto Rodrigues (violino), Luís Vicente (trompete), Pedro Sousa (saxofone), Miguel Mira (contrabaixo), Rodrigo Amado (saxofone), David Maranha (órgão) e Miguel Abras (baixo) são os convidados especiais que compõem a Celebration Band.

Dez anos é muito tempo, como canta Paulo de Carvalho? "Parece pouco", responde Hernâni Faustino. "Agora sabemos o que queremos tocar e isso foi-se tornando cada vez mais natural. Já não precisamos de estar a combinar coisas, não fazemos nada disso. Ao início ensaiávamos muito e trabalhávamos bastante para criar um som de banda", conta.

"Foi muito tempo, mas passou rápido", contrapõe Rodrigo Pinheiro. "A música que fazemos agora é muito diferente daquela que fazíamos no início. Ao início a música era mais agressiva, com mais contrastes do que agora. Agora é mais pensada", continua. "É mais depurada", acrescenta Faustino. Completa Pinheiro: "Cada um de nós cresceu e mudámos como músicos. O grupo foi ganhando experiência e recebendo perturbações externas dos convidados com quem tocámos. E acabámos por pensar a música do grupo de uma forma diferente. Isso acabou por acontecer de uma forma consciente, porque queríamos mudar, mas também de uma forma inconsciente."

Num ponto estão ambos de acordo: realizaram muitos concertos. "Mais do que aqueles de que nos conseguimos lembrar", diz Rodrigo. Ao longo dos oito discos que publicaram - dois deles com o britânico John Butcher, um com o sueco Matthias Stahl - foram granjeando admiradores e colecionando críticas rendidas à inventividade e força do grupo, em especial no estrangeiro. Daí que vejam com naturalidade o facto de na atualidade atuarem mais fora de Portugal do que no nosso país.

Na memória guardam as atuações no festival de Saalfelden, na Áustria, ou em Nova Iorque, com o trompetista Nate Wooley.

O espetáculo no Teatro Maria Matos vai ser gravado, abrindo a possibilidade de posterior edição em disco. Em que palcos a formação gostaria de tocar? "Ao longo destes anos temos sido continuamente surpreendidos", reage o pianista. "É verdade que já tivemos tantas boas surpresas ao sermos contactados para tocar em sítios incríveis, em todos os festivais importantes na Europa, e em alguns locais emblemáticos", diz o contrabaixista. Falta um país, revela, no qual querem tocar: o Japão. Um objetivo para os próximos dez anos.

RED Trio & Celebration Band

Teatro Maria Matos, Lisboa

Hoje, 22.00

Bilhetes de 3 euros (menores de 18 anos) a 12 euros

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Nuno Artur Silva

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