Uma exposição em tons púrpura

My Name Is Prince, em Londres, é um tributo comovente sobre a vida e obra de um artista polivalente e inovador que influenciou gerações Paulo Anunciação, em Londres

A ligação de Prince Rogers Nelson a Londres foi sempre especial. No Verão de 2007, o Earth Tour de Prince incluía sete shows ao vivo na arena londrina O2, a maior sala de espetáculos da cidade. A expectativa era tão grande que os 140 mil bilhetes esgotaram em 20 minutos. Prince decidiu alargar a estadia na capital britânica para 15 e depois para um total de 21 espetáculos em noites consecutivas. "Os shows em Londres ficaram na História. Ele dizia sempre que [Londres] era a cidade europeia preferida", contou ao DN Tyka Nelson, de 57 anos, irmã de Prince. "Faz todo o sentido que a primeira exposição oficial [sobre Prince] seja em Londres e precisamente na O2".

Tyka, com os seus óculos de armação XL e longos cabelos com nuances de cor púrpura, está na Inglaterra para a promoção de My Name Is Prince, uma exposição que comemora a vida, a música - e, sobretudo, o guarda-roupa - de Prince. Mais de 300 objetos saíram pela primeira vez de Paisley Park, o enorme complexo privado na cidadezinha de Chanhassen, no Estado de Minnesota, onde ele vivia. Paisley Park tem estúdios de gravação, um nightclub e duas salas de espetáculos e desde 2016 tem também um museu dedicado à vida e obra deste músico, encontrado sem vida em Abril do ano passado num elevador da zona residencial do complexo (a causa provável da morte terá sido uma dose excessiva de fentanil, um analgésico opioide extremamente potente).

A mostra agora instalada na área de exposições temporárias da O2 inclui dezenas de objetos que ilustram a carreira deste artista polivalente e inovador que influenciou várias gerações e vendeu mais de 100 milhões de discos em todo o mundo. A exposição inclui discos de ouro, outros galardões, rascunhos onde Prince escrevinhou letras de canções como Erotic City e várias guitarras - desde a histórica Gibson L6-S que ele usou, aos 21 anos, na primeira vez em que actuou na televisão (no programa American Bandstand, em 1980) às inúmeras guitarras "Cloud" que se transformaram numa imagem de marca do artista. Estas guitarras, com as suas curvas únicas e sensuais, foram originariamente encomendadas por Prince, na década de 1980, a um pequeno fabricante de Minneapolis.

Mas o que sobressai nesta exposição é sobretudo a faceta de Prince enquanto animal de palco - os adereços excêntricos, a maquilhagem e as roupas extravagantes de um artista que tinha uma presença excecional debaixo dos holofotes. Os visitantes podem acompanhar as várias transformações de Prince, características de um estilo (e roupa) em constante evolução: da fase Purple Rain de meados da década de 1980, passando pelos discos e digressões Dirty Mind, Sign o" the Times ou Lovesexy até aos momentos finais da carreira, com a banda 3rdeyegirl.

O espaço dedicado ao álbum e filme Purple Rain ocupa, naturalmente, uma posição de destaque. Prince foi o protagonista deste filme romântico, de 1984, sobre um jovem com um enorme talento musical. A história foi inspirada mais ou menos na biografia de Prince. Apesar das limitações óbvias do jovem ator, Purple Rain - que estreou em Portugal no ano seguinte com o título algo desinspirado de Viva a Música - foi um enorme êxito de bilheteira, tal como o álbum com a respetiva banda sonora. Naquele ano, Prince chegou a ocupar, simultaneamente, o primeiro lugar das tabelas de filmes, de álbuns e de singles (com a canção When Doves Cry, que integrava o álbum).

A sala, toda em tons de cor púrpura, tem vários ecrãs com clipes do filme. Os visitantes podem ver partes do guião manuscritas por Prince, a guitarra "Cloud" popularizada na fita, bem como a famosa gabardina - de cor púrpura, naturalmente -, usada pelo ator/cantor. Mas a verdade é que ele nem era grande fã: "As pessoas associam sempre a cor [púrpura] a Prince porque ele dizia que esta era a cor da realeza. Ele achava que era uma majestade musical. Mas a cor preferida do meu irmão, na realidade, era o laranja", disse ainda Tyka Nelson. Tyka e cinco meios-irmãos são os herdeiros da fortuna milionária deixada por Prince, que morreu aos 57 anos, divorciado, sem filhos e sem deixar testamento.

O ponto alto da exposição é ocupado por um palco com a forma do símbolo do amor - uma estranha combinação dos símbolos masculino/feminino que ele adoptou como nome, em 1993, em protesto contra a editora Warner Bros (nos sete anos seguintes, ele preferia que lhe chamassem O Artista Conhecido Anteriormente Como Prince). Este espaço inclui alguma da roupa mais famosa usada por Prince - como a boina vermelha com correias de ouro da capa do single My Name Is Prince (1992) ou o fabuloso macacão azul com nuvens, visto no videoclipe Raspberry Beret (1985) -, a guitarra "Cloud" cor de laranja que ele usou no espetáculo da Super Bowl de 2007 e adereços como os óculos-para-três-olhos ou a bengala encrustada com cristais e diamantes.

Numa zona reservada aos visitantes que comprem bilhete VIP (preço: 60 libras, cerca de 68 euros), recriou-se o ambiente de bastidores de um espetáculo de Prince. Malas e instrumentos musicais acumulam-se numa das paredes. Noutro canto, dezenas de cabides com roupa de cores gritantes e sapatos e botas de salto alto. As calças revelam uma cinturinha de criança. Prince era magro e baixote (a autópsia refere 1,58 metros) e usava saltos a toda a hora, inclusive para jogar basquetebol. A obsessão pelos saltos altos, aliás, terá provocado os males nas ancas e as dores crónicas que o levaram a recorrer diariamente à bengala e aos analgésicos.

Uma salinha recria o camarim do artista, com dezenas de brincos, joias e outros adereços dourados. Noutra mesa estão pentes, escovas, pincéis e produtos de maquilhagem. Parecia que Prince poderia chegar ali a qualquer momento. My Name Is Prince não tem os grandes ecrãs, o som ou a alta tecnologia de exposições londrinas recentes (Bowie, Stones, Pink Floyd), mas compensa tudo isso com uma intimidade comovedora. Quando entrou no camarim, durante a visita guiada oferecida aos jornalistas estrangeiros radicados em Londres, Tyka Nelson começou a chorar, emocionada. Na quarta-feira, quando visitou pela primeira vez a mostra de Londres, foi pior: "Dei dez ou 15 passos e comecei a chorar desalmadamente e tive de sair. Foi difícil. Agora estou melhor. Acho que o meu irmão iria gostar desta exposição porque é como a casa dele, Paisley Park, numa escala mais pequena. É como se fosse uma casa de bonecas do mundo de Prince", disse.

My Name Is Prince
O2, Londres
Bilhetes: 25 libras (28 euros)
Até 7 de Janeiro

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