Uma caricatura de Tupac Shakur

ALL EYEZ ON ME Benny Boom

São objetivos elementares de um biopic dignificar a personalidade que se biografa, e/ou apresentá-la na sua complexidade humana. All Eyez On Me, filme que lança no título a ideia de enfoque sublinhado no seu protagonista, o mítico rapper Tupac Shakur (assassinado em 1996), não responde minimamente a qualquer destes desígnios. É talvez o mais desajeitado retrato que se podia dar do músico afroamericano, limitando-se a passar a história da sua vida diante dos nossos olhos como uma coleção de curtos momentos de viragem, embaraçosamente escritos, e cheios de frases feitas.

Onde está a figura inspiradora? A turbulência íntima? Nem uma ideia fora da caixa. Até da sua música se ouvem apenas os refrões, porque as letras, esses conteúdos mais graves, iriam ocupar espaço num filme que não quis cumprir senão a timeline de uma vida. Um trabalho nulo.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.