Uma animação com bolinha vermelha

"Salsicha Party" é o filme de animação mais original deste ano. Mas ser original não é sinónimo de ser bom. Estreia hoje

É certo que o cartaz de apresentação já traz o alvitre, mas convém sublinhar para não restarem dúvidas: Salsicha Party é um filme de animação para adultos. Esta comédia malcomportada de Greg Tiernan e Conrad Vernon, com demasiada população no argumento - Seth Rogen, Evan Goldberg, Kyle Hunter, Ariel Shaffir e Jonah Hill -, chega hoje às salas portuguesas e certamente está talhada a dividir as opiniões e os espectadores.

A controvérsia nasce, acima de tudo, pela ousadia do conteúdo. Salsicha Party revela-se uma mercadoria absolutamente inovadora na grande fábrica do cinema de animação (pelo menos, aquele que integra o circuito comercial), criando um universo absurdo sobre o qual é montado um sistema de escabrosas metáforas sociais.

E de que universo estamos mesmo a falar? O de um supermercado onde encontramos Frank, uma salsicha que, juntamente com os seus companheiros de pacote e prateleira, tem vivido na ansiosa espera do dia em que será levado para a casa de um consumidor. Ele, como todos os outros produtos, foram doutrinados na crença de que, do lado de lá das portas automáticas do supermercado, existe um lugar chamado "Grande Além" povoado por deuses (que são os humanos).

Mas, um dia, uma terrível suspeita é lançada sobre esse mundo desconhecido, pelo testemunho de um frasco de mostarda que foi devolvido à prateleira, e começa a disparar os horrores que presenciou, acabando por se suicidar, e assim gerar um autêntico espetáculo sanguinário no estabelecimento... Uma mostarda a suicidar-se? Sim, tem qualquer coisa de idiotice genial, mas não resulta assim tão bem.

Este é apenas um dos primeiros delírios em que o filme incorre, assumindo depois uma composição rocambolesca e progressivamente mais subversiva, que passa por outras alegorias (para além da não existência de deuses), como o conflito israelo-palestiniano, espelhado nas rixas constantes entre um pão pita (muçulmano) e um bagel (judeu), ou ainda as referências ao Holocausto.

Aparentemente, a ideia seria tirar proveito do ponto de vista da reflexão histórica e social, contudo, convenhamos que o que de facto interessa aos realizadores de Salsicha Party não é a abordagem temática, mas o uso que dela se pode fazer para chegar a outros fins no entretenimento, puro e duro, para adultos. E entreter os adultos, neste caso, só significa isto: sexo.

Aclamado pela sua originalidade conceptual - que não há como negar - Salsicha Party falha, no entanto, nesse propósito de mostrar inteligência ou sequer alcançar humor na transposição de estereótipos sociais para um pacote de batatas fritas ou um rolo de papel higiénico. Seria mais inteligente, isso sim, não usar assuntos tão delicados (nem o efeito choque resulta) para justificar uma orgia de produtos de supermercado...

O filme não consegue concretizar-se nos seus vários pormenores, e muito menos no todo. É apenas uma brincadeira embrutecida, que conta com um excelente elenco de vozes - Michael Cera, James Franco, Salma Hayek, Edward Norton, Kristen Wiig, os realizadores, dois dos argumentistas (Seth Rogen e Johah Hill), entre outros. A verdadeira salgalhada.

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