Uma americana no museu de Östlund

Estreia-se hoje no LEFFEST O Quadrado, Palma de Ouro de Cannes. Esta sátira tem Elisabeth Moss no elenco. A premiada atriz americana falou ao DN. O filme chega às salas quinta-feira.

O humor sueco segundo Ruben Östlund. Sim, na verdade, O Quadrado, Palma de Ouro em Cannes, tem muito da alma sueca, mas tem também uma fustigação universal. Fala-nos das perceções sobre a arte moderna, sobre a forma como nos relacionamos com as novas formas de marketing e de como nos deixamos cair na nossa falta de moralidade. Tal como Força Maior (2014), há neste cinema um efeito de provocação, de erosão. Esta noite, Östlund vem ao Lisbon & Sintra Film Festival (LEFFEST) apresentar este muito entretido espetáculo de miséria humana. Não vem o macaco, que é uma espécie de mascote do filme, mas Östlund é sempre muito divertido nas conversas com o público. Será certamente um dos momentos mais concorridos do festival.

Um dos compassos morais do filme é a personagem de Anne, jornalista americana que aterra num museu de arte moderna em Estocolmo e acaba por ter um estranho affaire com o diretor artístico. Uma personagem perfeita para uma das atrizes americanas mais celebradas dos nossos dias, a contagiante Elisabeth Moss, revelada em Mad Men e consagrada noutra série que cheira a cinema: Top of the Lake, de Jane Campion, que lhe deu o Globo de Ouro de Melhor Atriz. Foi com ela que o DN esteve à conversa em maio, numa piscina de Cannes, alguns dias antes de o filme chegar ao ouro.

Afinal, o que faz uma americana numa sátira sueca? A resposta é simples: Moss era fã de Östlund: "Amo o Força Maior, mas foi ele quem quis que fizesse uma audição para este filme. O Ruben estava à procura de atrizes e fiquei muito entusiasmada quando soube que queria falar comigo! Acima de tudo, sou muito fã de filmes internacionais. Sinto que é bom um ator não ficar limitado ao seu pequeno país. Fiquei muito lisonjeada em ficar com este papel!"

O ano de 2017 está a ser mágico para a atriz. Além da avalancha de O Quadrado, já venceu o Emmy de Melhor Atriz de elenco em The Handmaid"s Tale, talvez a série mais aclamada dos últimos tempos, tendo ainda brilhado em The Bleeder, de Philippe Falardeau. Sobre todo este êxito, tem uma máxima: "um ator não pode ter ego pois a primeira coisa que o espectador vê é a autoconsciência do ator. Quer estejas a fazer comédia ou um drama em que estejas a chorar, tens de deixar o ego à porta! Contudo, para mim é fácil. Não sou de ter ego... Não tenho uma grande ideia de mim mesma."

Elisabeth Moss não representa quando diz isso nem quando confessa que a televisão na América tem mais qualidade do que o cinema: "Tem que ver com dinheiro. Os filmes ou são muito gigantes ou muito pequenos. Quase não encontramos filmes no meio, não são financiados! Por isso, não encontramos em Hollywood muitos cineastas capazes de fazerem filmes interessantes e de autor... Percebi agora com O Quadrado que na Escandinávia o Estado apoia muito o cinema. É do caraças como um país deixa o Ruben filmar durante quatro meses!! Espantoso! Foi uma das experiência mais desafiantes da minha carreira."

De Mad Men não conta se tem saudades, mas também não se fica por meias-palavras: "Filmei nove anos essa série. Foi um trabalho que mudou a minha vida, dos 23 aos 32 anos. O que gosto das séries televisivas é poder estar muito tempo com uma personagem. O comprometimento é diferente, há uma outra consistência."

De Cannes, garante que o que a deixa arrepiada é a famosa subida da escadaria nas estreias de gala: "Olho sempre assustada para as red carpets, são sempre estranhas... Nunca sei como devo colocar a minha perna e fico sempre com receio de não ter o cabelo bem. Ainda assim, a red carpet de O Quadrado foi divertida, voltaria lá num estalar de dedos." Desejos de carreira? "Ter uma carreira longa, tal como a Judi Dench, a Helen Mirren e a Maggie Smith, a minha atriz preferida. Vou pela qualidade e também gosto de personagens femininas fortes."

Antes de os seus publicistas terminarem a entrevista, perguntamos-lhe se já teve em alguma entrevista algum momento desconfortável, tal como acontece entre a sua personagem e o curador de arte. Ri e responde com um sorriso: "Claro que já tive momentos desconfortáveis e estranhos em entrevistas. Aliás, já fiz questão de não responder a certas perguntas. Mas o pior é não saber responder a perguntas que não entendo. Isso ou ter de responder a perguntas tipo "o que é a vida?"" Por outro lado, já estive na pele de entrevistadora - já fiz isso para revistas. Sabe que mais? Achei dificílimo. "Quando sou entrevistada na televisão fico muito nervosa, tão nervosa que desenvolvo um truque: faço uma performance onde finjo que sou boa pessoa. Na verdade, acho que sou boa pessoa."

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