Um trailer de duas horas

Talento não falta, mas o caderno de encargos dos efeitos especiais é demasiado extenso

Na ânsia de produzir mais uma sequela para ocupar o planeta, alguém se lembrou de que uma grande ideia (?) seria reencenar o Homem-Aranha, não como jovem vigilante da grande metrópole, antes como adolescente com as hormonas em ebulição...

Entenda-se: a sexualidade exprime-se, aqui, através de algumas trocas de olhares castos que, tal e qual, podiam figurar numa minificção "romântica" para um anúncio de desodorizante. Vogamos em plena esquizofrenia concetual: por um lado, talento não falta a Homem-Aranha: Regresso a Casa, a começar por Tom Holland, o novo intérprete principal; por outro lado, o filme vai cumprindo, com esforçada monotonia, um caderno de encargos definido pelos técnicos de efeitos especiais.

Enfim, a deontologia obriga-nos a não revelar que o companheiro de quarto de Peter Parker descobre a sua identidade secreta de Homem-Aranha. E também que o mau da fita, uma espécie de enorme pássaro metálico, é a personagem interpretada por Michael Keaton. Ou ainda que há uma cena fulcral em que esse malvado parte ao meio um ferryboat, o Homem-Aranha consegue manter as duas partes ligadas com os fios das suas teias e, enfim, o Homem de Ferro, interpretado por Robert Downey Jr., vem ajudar a completar o salvamento... Mas de que deontologia estamos a falar? A revelação de todas essas peripécias está... no trailer do filme!

Dir-se-ia que há filmes que já não são filmes, apenas trailers dilatados para duas horas de duração (143 minutos neste caso). Resta uma consolação: em alguns momentos, Robert Downey Jr. volta a mostrar o rosto - sem a sua carapaça de ferro, lembramo-nos que ele tem sido o mais subaproveitado dos grandes atores americanos. E é triste lembrarmo-nos disso.

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