Um festival em que a realidade do país quase atrapalhou

O Literatura em Viagem sentiu a concorrência dos acontecimentos mas sobreviveu à visita do Papa Francisco em Fátima, ao tetra campeonato do Benfica e à vitória na Eurovisão.

Nunca um festival literário foi tão fustigado pelos acontecimentos do dia como a 11.ª edição do Literatura em Viagem (LEV) que decorreu no fim de semana em Matosinhos. Ou era a visita do Papa a coincidir com a sessão de abertura em que o cientista Carlos Fiolhais explicava Einstein no tempo e no espaço, não se esquecendo de contar a passagem ignorada do físico por Portugal em 1925; ou era o jogo do Benfica a sobrepor-se ao debate entre Hélia Correia e Frederico Lourenço deixando alguns espectadores nervosos com o aproximar da hora do início; bem como a emissão do Festival Eurovisão, a decorrer em simultâneo à entrevista de vida do jornalista/autor Rodrigues Guedes de Carvalho, que apresentava o seu novo livro, O Pianista do Hotel.

Aliás, os escritores estrangeiros presentes eram incapazes de não ficar curiosos com tudo o que acontecia fora do auditório da Biblioteca Florbela Espanca. A canadiana Rachel Cusk quis saber o que era Fátima, bem como o que tinha mesmo acontecido lá para que o Papa reunisse um milhão de pessoas no Santuário. O espanhol Jesús Carrasco, ao ver Salvador Sobral, reconheceu-o e exclamou: "Vamos ganhar" com um desejo ibérico e uma satisfação que após a vitória reafirmou. Até o inglês David Mitchell não deixou de analisar o comportamento dos que acompanhavam o jogo quando foi passear ao centro histórico do Porto e acabou numa loja de pedras e fósseis a debater ao telefone com a mulher quais os exemplares de minerais que deveria levar antes de se sentar na Ribeira com o maior copo de gin que já vira na vida.

Mesmo com esta concorrência desleal, as sessões do LEV foram acontecendo, pois a sala com duas centenas de lugares esteve sempre cheia com leitores a tentarem ficar aliados do verdadeiro romance que se escrevia à volta deles, dando razão à frase "a realidade é mais inventiva do que a ficção". Até porque, sendo os temas desafios intelectuais, havia que estar atento ao que os autores diziam quando subiam ao palco. Foi o que aconteceu quando as escritoras Tânia Ganho e Rachel Cusk debateram se chegava de Shakespeare e era preciso reinventar o cânone literário atual. Tânia Ganho a afirmar que era preciso dar voz às mulheres marginalizadas na história da literatura e que os clássicos fazem falta e são como a química - "se não os estudamos, não os podemos compreender" - enquanto Rachel Cusk questionava se os jovens ainda devem ser obrigados a ler o difícil autor inglês ou se Medeia se adapta aos tempos em que vivemos. Ou Hélia Correia, descrente do legado grego perante a atualidade quando permanece incapaz de perder o fascínio pelo tempo em que se viviam dias iluminados em Atenas, e Frederico Lourenço a dizer que até um burro se tornaria notado por traduzir a Odisseia e a Ilíada quando o fez, pois só existiam duas traduções desatualizadas do francês. Bem como as afirmações de poetas, o sérvio Árpád Kollár e a mexicana Juana Adcock, que foram viver, respetivamente, para a Hungria e para a Escócia e confrontam-se com os dilemas das novas pátrias e de como manter audível a voz literária. Ausente da sessão em que se apresentava o livro de conversas consigo feitas por Valdemar Cruz, Álvaro Siza fez falta para explicar como arquitetar muitas das questões que passaram pelo auditório e que o pivô da SIC Rodrigo Guedes de Carvalho acabou a refletir ao fim da segunda noite, usando algumas palavras características da linguagem do Norte enquanto confessava a necessidade absoluta de "voltar a escrever" ao fim de dez anos sem lançar um livro novo.

Enquanto a literatura era escalpelizada no auditório, o ilustrador Lord Mantraste fazia uma pintura de grandes dimensões, reproduzindo o estilo das capas para livros que produziu nos últimos tempos num desenho com a Europa de países de costas voltadas e o papel do livro. Diz que o truque para criar as ilustrações é "não pensar muito no que fazer por antecipação e deixar que o sublime se imponha à criatividade." A 11.ª edição do LEV, pode dizer-se, ultrapassou a cascata de acontecimentos do país e a literatura acabou por viajar por Matosinhos.

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Betinho

"NBA? Havia campos que tinham baldes para os jogadores vomitarem"

Nasceu em Cabo Verde (a 2 de maio de 1985), país que deixou aos 16 anos para jogar basquetebol no Barreirense. O talento levou-o até bem perto da NBA, mas foi em Espanha, Andorra e Itália que fez carreira antes de regressar ao Benfica para "festejar no fim". Internacional português desde os Sub-20, disse adeus há seleção há apenas uns meses, para se concentrar na carreira. Tem 34 anos e quer jogar mais três ou quatro ao mais alto nível.