Maestro que criou o discurso dos sons arrumou a batuta

O austríaco Nikolaus Harnoncourt anunciou o termo da sua atividade de maestro. Fecha-se assim um percurso que, ao longo de seis décadas, alterou o nosso modo de escutar

Tal como Joseph Haydn com a composição, também Nikolaus Harnoncourt terá sentido o esgotamento das forças físicas e intelectuais necessárias para preparar e dirigir (mais) um concerto. Nos últimos tempos, tornara-se frequente ele cancelar compromissos, até que o próprio decidiu assumir e oficializar perante o mundo da música aquilo que sentiu no seu íntimo: a incapacidade de continuar. Foi na ocasião de um concerto do Concentus Musicus, o grupo que fundou há 60 anos, no famoso Musikverein de Viena - sala onde dirigiu mais de 300 concertos.

Uma breve nota de seu punho foi inserida no programa de concerto. Nela falava de "uma relação inusualmente profunda" estabelecida entre si e o público ao longo do tempo, falando, a propósito, da "afortunada comunidade de descobridores" por ambos formada. Um descobridor, Harnoncourt, e que formou gerações de descobridores, fossem eles colegas artistas ou simples melómanos.

Neste vídeo, pode assistir à compilação de vários momentos de um ensaio da 5.ª Sinfonia de Beethoven por ele dirigido, no quadro da edição 2007 do Festival Styriarte (de que ele era uma espécie de pai espiritual). E bem ilustrada fica a famosa tendência de Harnoncourt para ir buscar analogias extra-musicais, amiúde bem bizarras e humorísticas, para explicar o que pretende dos músicos em dada passagem:

Carreira brilhante

Falar de Nikolaus Harnoncourt (n. 6/12/1929) é falar de uma personalidade fulcral na moldagem do nosso entendimento da música e do fenómeno musical em si. Através de milhares de concertos, de centenas de gravações e de alguns livros, Harnoncourt dava sempre algo de novo a descobrir - e primeiramente aos músicos que de cada vez, tinha diante; depois, ao público, desde que escutasse com atenção. A sua conceção da música no tempo, e da dialética da música no seu tempo/para o nosso tempo fez com que as suas interpretações nunca soassem dogmáticas, mas também nunca rotineiras. Havia sempre muito de novidade nas suas leituras, mas que era também atual e comunicante. Isto é: a música, dirigida por Harnoncourt, era fiel aos princípios do compositor e da época em que fora composta, mas também era rica de sentidos e interpelante para nós, os ouvintes dos séculos XX e XXI.

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