Um cometa chamado Paulo Cunha e Silva

Era o vereador da Cultura que iluminava o Porto, podia ser o próximo ministro. "Insubstituível", diz Rui Moreira

"Onde?";"Agora". Eram duas das palavras mais utilizadas por Paulo Cunha e Silva no Facebook. Um desafio repetido post a post, numa vertigem de acontecimentos, propostas, projetos, perguntas, imagens. A última, de 10 de novembro, é uma foto sua no que parece uma fábrica abandonada, fitando, através dos óculos, uma planta, ou um mapa, estendido nas mãos. "Onde estava e o que fazia? Hoje de manhã".

Ontem de manhã, depois da notícia - Paulo tivera um ataque cardíaco depois do jantar, às 00.15 era declarado morto -, esta imagem e frase liam-se diferente. "O meu amigo mais parecido com um cometa, o Paulo", escreveu a empresária Catarina Portas. "Não consigo acreditar." Um cometa: uma imagem tão tão apropriada para alguém que outra amiga, a jornalista Maria João Guardão, descreve como "uma máquina de viver, de imaginar, de incitar, de partilhar, de pensar, de alucinar."

Brilhante, desconcertante, prolixo, transfronteiriço (melhor dizendo: abolidor de fronteiras), frenético, veloz - às vezes, quase impossivelmente. E com um rasto de luz de quilómetros, a iluminar tudo à volta. Aos 53 anos, o atual vereador da cultura da Câmara do Porto mantinha a energia e a capacidade de alegria - sempre uma forma de esperança - de um miúdo, o miúdo cujo sorriso e olhar travesso se surpreende em tantas destas fotos de Facebook. O olhar e sorriso que os amigos lhe conheciam nas conversas em que de repente se saía com uma frase acrobática, as palavras penduradas umas das outras numa corrente de sentido vertiginosa, insuspeita e sempre elegante, mesmo se ocasionalmente indecifrável.

Falava às vezes como um oráculo, o Paulo; como se proferisse frases para gravar na pedra ou no aço, em formulações poético-cubistas; frases-obras-de-arte, para ver de diferentes ângulos e com diferentes iluminações. Falava como pensava, com risco, com rasgo, impelindo, obrigando, à torção. Assim: "Como se o espaço fosse a maldição e, simultaneamente, a felicidade do tempo." Ou assim: "A perplexidade vai aumentando, porque o conhecimento é de certa forma uma esfera, e à medida que aumenta o conhecido a superfície que a esfera estabelece com o desconhecido é cada vez maior." E ainda: "A esperança é o vetor da vida, e por isso o único instrumento que temos para frequentar o futuro."

Poster boy da transversalidade

"Quando o escutávamos sentíamos um pensamento em movimento. Era verdade, não era postiço", diz o crítico de cinema João Lopes. Teresa Lacerda, que o conhe- ceu em 1990 na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, onde ele começou como assistente da cadeira de anatomia e agora dirigia, com ela, a de Introdução ao Pensamento Contemporâneo, considera-o "a pessoa mais inteligente que conheci". "Às vezes, ao princípio, sentia-me mal porque não compreendia o que ele dizia. Estava muito longe do que ele era capaz de pensar na altura, mas ajudou-me a fazer o meu percurso sem sobranceria." Justamente, frisa João Lopes, "as pessoas que se distinguem muito na chamada área cultural distinguem-se não pelo saber que são capazes de ostentar mas pelo desejo de saber que conseguem suscitar nos outros. E creio que ele se distinguia por isso. E pela transversalidade: era uma espécie de poster boy disso. Sempre achei muito curioso que a sua formação médica lhe desse capacidade de olhar para a cultura dessa forma." Outra capacidade rara, para o crítico de arte e ensaísta Alexandre Melo, que conheceu Paulo Cunha e Silva nos anos 90 e colaborou com ele várias vezes, era a "de contaminação e mobilização da imaginação, das energias, e invenção criativa à volta dele, envolvendo grupos muito alargados de artistas e pensadores que pudessem ser chamados à dinâmica cultural permanente que era a sua vida e pensamento."

Uma conetividade típica da rede neuronal, sublinha Teresa. Que Paulo, sempre interessado por todos os avanços tecnológicos como pelas descobertas na área do corpo (a sua tese de doutoramento, editada em livro em 1999, intitula-se O Lugar do Corpo) e especialmente do cérebro, emulava na sua forma de pensar e de se relacionar. "Custa pensar o mundo sem ele. Era uma pessoa tão ativa, tão frenética, tão elétrica, em efervescência de fazer coisas, é difícil pensar nele morto."

Toda a gente parece concordar nisso: ninguém como ele, nem perto. O médico que foi o melhor aluno da turma mas nunca exerceu, que, filho de um juiz e de uma professora que se conheceram e casaram em Coimbra, nasceu em Beja "por acidente" (a colocação do pai) e foi criado em Braga desde os seis anos e, como contou num texto recente para o Público, começou a escrever "crítica" de arte aos 14 anos para O Correio do Minho; que aos 18 foi viver para o Porto e aos 26 já conhecia 50 países, "todos os museus europeus e os principais do mundo"; que desde 1990 colaborou com Serralves impondo a paixão da "transversalidade" - "Fazia ciclos que eram olhados de forma desconfortável e que agora estão na moda porque ligam a ideia de pensamento e de performance, com pessoas de múltiplas áreas" - e na Porto 2001 Capital Europeia da Cultura foi responsável pelas áreas do Pensamento, Ciência, Literatura e Projetos Transversais; o presidente do Instituto das Artes entre 2003 e 2005, o conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Roma entre 2009 e 2012. O homem que fez tanta coisa, comissariou tanta coisa, inspirou tanta coisa e tanta gente que talvez todas as páginas deste jornal não chegassem para enumerá-las e que, no citado texto do Público, confessou: "Costumo dizer que tenho a sensação de que cheguei aos 53 anos sem nunca ter trabalhado. Porque sempre fiz o que gostava. E se não gosto saio. Portanto, se me veem num sítio, é porque estou feliz nesse sítio."

A caminho de Xangai

Estava feliz, e em muitos sítios, como de costume. Nos próximos dias, por exemplo, devia acompanhar o seu presidente, Rui Moreira, à China. "Íamos apresentar uma série de projetos culturais em Xangai, na área das indústrias criativas. Tenho de cancelar a viagem, porque não sei onde estão as notas dele." Amigo "inseparável" de Paulo desde que o conheceu, "na exposição de um amigo, em Braga, no início dos anos 90", o autarca tem um sorriso na voz ao descrevê-lo. "Quando me desafiaram para concorrer à Câmara, disse-lhe que só me metia nisso se ele viesse comigo. E creio que ele atingiu o pico da felicidade quando lhe disse: "Agora temos a cidade. Para avançar." Conseguia fazer o milagre das rosas - tendo poucos recursos conseguia fazer coisas fantásticas e envolver muita gente."

E agora? O presidente da Câmara suspira: "Há aquele provérbio - os cemitérios estão cheios de pessoas insubstituíveis. Mas o Paulo é mesmo. Não é substituível. Tem de ser a cidade a acordar e responder aos desafios que lhe foram lançados."

Em câmara ardente no Rivoli (o teatro que ele "devolveu" ao Porto) desde as 17.00 de ontem, o corpo que foi Paulo Cunha e Silva sai hoje, em cortejo a pé, para o cemitério da Lapa, às 14 horas.

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