Um certo sabor português no novo concerto de Luís Tinoco

Filipe Quaresma é o solista na estreia absoluta, amanhã, em Almada, do Concerto para violoncelo de Tinoco. Repete no domingo, no CCB

"Há muito que desejava escrever para o violoncelo, assim como tinha o desejo de escrever um Concerto para o Filipe. Esta encomenda veio ao encontro de ambos os anseios", conta Luís Tinoco, autor do Concerto para violoncelo que amanhã tem estreia absoluta em Almada. Ao seu lado, Filipe Quaresma faz as contas: "Já me tinham dedicado duas obras para violoncelo solo. Agora, esta é a primeira obra concertante", diz o violoncelista de 36 anos, natural da Covilhã e entretanto fixado no Porto.

E é também o primeiro Concerto para violoncelo de autor português desde o de Joly Braga Santos (1924-88), estreado em 1987, na Gulbenkian. Há 30 anos, portanto.

A génese da obra foi trabalho em pingue-pongue: "Houve sempre uma experimentação de tudo o que o Luís ia escrevendo, trocámos muitas ideias, encontrámo-nos, ele colocava-me muitas questões", para Luís replicar: "com o Filipe, cujo trabalho conheço há muito e com o qual muito me identifico, eu tinha o à vontade e a confiança para tentar e falhar, e depois também podia pôr as "mãos na massa" junto com o intérprete, o que é sempre bom!"

Luís diz que "quis conhecer a personalidade musical do Filipe e por isso pedi-lhe que me enviasse partituras do repertório moderno de que gostasse particularmente". Paradoxalmente, isso levou-o a escrever uma obra onde quem se revela é ele próprio: "quando ouço certa música do Luís, ou quando toco esta em particular, há sempre algo que me faz lembrar Portugal: o mar, a natureza, as pessoas, a nostalgia, esse tipo de imagens... E há algo de longínquo, também, de melancólico, talvez", afirma Filipe. O compositor, claro está, não o sabe explicar: "Já quando estudava em Londres, colegas de outras longitudes identificavam algumas dessas qualidades na minha música. Será algo que tenho em mim, malgré moi..." (risos).

Sobre a música, fala quem a toca: "É uma obra muito colorida, plana no sentido da sobriedade expressiva que preside ao seu decorrer. Também explora muito bem os registos mais nobres do instrumento e as suas reverberações naturais de uma forma que lhe assenta sempre bem e o valoriza. Não é uma música fácil de entender, mas é sempre muito rica de expressão e de sentimento". E Filipe também identifica nela um virtuosismo menos óbvio: "o virtuose da obra está em achar-lhe a expressão correta, a afinação, os cambiantes de cor todos que pede e os espaços sonoros diferenciados que cria". E percebemos a frase de Luís: "há um dado momento em que começamos a sentir prazer em escrever obras para pessoas concretas."

Repertório moderno e contemporâneo não é novidade para Filipe: "já toquei os concertos de Lutoslawski, Ligeti, Lopes-Graça, Dutilleux, Wuorinen, o Cântico do Sol da Gubaidulina..." Mas o seu gosto pantagruélico recua até à época barroca: "a variedade do que faço é das coisas que mais me agrada na minha carreira. Nunca me aborreço e com isso conheço pessoas, músicas e culturas muito diversas!"

E depois da estreia? "Espero ter oportunidade de a tocar tantas vezes quanto possível. A obra merece-o, por ser tão bela e expressiva!", declara o solista - "Agora é a tua vez de trabalhar, Filipe!", atalha Luís, a brincar, e no mesmo registo, acrescenta: "Ainda pensei que ias dizer: "esquecer-me dela o mais rápido possível"... (risada geral)".

Após estes concertos, Filipe regressa a Lisboa no final de abril para os Dias da Música; e já prepara um disco com o pianista António Rosado: "vamos gravar as sonatas de César Franck e de Freitas Branco".

FICHA

solista: Filipe Quaresma (violoncelo)
Orquestra Sinfónica Portuguesa/maestro: Pedro Neves
obras de Cherubini, Luís Tinoco (estreia mundial) e Mendelssohn (Sinfonia 'Escocesa')
Teatro Municipal Joaquim Benite, sábado, 21.00
Grande Auditório do CCB, domingo, 17.00
bilhetes dos 5 aos 20 euros

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?