Um ano para descobrir os segredos do Convento

Uma vez por mês será possível ir aos subterrâneos do Palácio de Mafra ver o que nunca é mostrado. É é gratuito, como várias outras propostas.

É possível que este ano, três séculos desde que foi lançada a primeira pedra da construção do edifício, ordenada pelo rei D. João V, caia por terra o mito quase tão velho como Palácio Nacional de Mafra, de que nos seus subterrâneos vivem ratos gigantes sem olhos. Todos os meses, até novembro, a Escola de Armas abre as portas para fazer uma visita gratuita a estes locais, e é um dos pontos altos da programação para 2017. A primeira é no dia 27, às 21.30, com início no claustro militar, isto é, por zonas interditas na visita habitual.

Mas, para início de celebrações, a festa começa com o Concerto para Reis, ao som dos seis órgãos históricos da basílica e do coro masculino do Lisboa Cantat, liderados por Jorge Alves. A lotação é de 700 pessoas, antes do Natal já tinham 600 reservas (os bilhetes custam 5 euros). Recuperados em 2010, após um século de silêncio, os órgãos ouvem-se em conjunto todos os meses, no primeiro domingo de cada mês (entrada: 3 euros), sob direção artística do músico João Vaz, que é também um dos instrumentistas.

"Os concertos têm uma atratividade que extravasa os limites do país, porque são um acontecimento cultural que não é replicável", afirma Mário Pereira, diretor do Palácio de Mafra, o terceiro monumento mais visitado do país entre os que são tutelados pela Direção Geral do Património Cultural. Este ano recebe seis organistas de seis países europeus diferentes para um concerto que assinala o Dia da Europa, a 9 de maio (21.00) e o Festival Internacional de Órgão, como membro da organização European Cities of Historical Organs (ECHO), entre 24 e 28 de maio. Outro concerto à margem do ciclo habitual é o que acontece a 11 de junho, com seis organistas austríacos.

Músicos austríacos e de outros seis países europeus vão a Mafra para tocar nos órgãos históricos da basílica em maio

Conhecer o palácio, dos tratados à obra

No ano em que o Palácio de Mafra prepara o dossiê da sua candidatura a Património da Humanidade da Unesco, as atenções viram-se também para o arquiteto do edifício, o alemão João Frederico Ludovice. Em parceria com a Ordem dos Arquitetos, o historiador Paulo Pereira comissaria a exposição Do Tratado à Obra, que a partir de 17 de novembro há de trazer à luz 63 tratados de arquitetura que estão na biblioteca de Mafra. "Muita dessa tratadística esteve na base de desenhos que foram materializados", explica Mário Pereira, dando como exemplo o caso do arquiteto italiano Francesco Borromini (1599-1667), cujas soluções foram adotadas décadas depois.

O Palácio de Mafra foi consagrado a 22 de outubro de 1730, no dia do 41.º aniversário de D. João V (1689-1750), 12 anos após o início das obras. Ainda não estava completo, mas a data coincidia com um domingo, o único dia em que podia ser abençoado pela Igreja. Na Basílica foram usadas madeiras mais tarde a substituídas pelos mármores atuais.

As lunetas dessa época são material de uma outra exposição. As Lunetas de Mafra, entre Matéria e Mensagem. "Uma foi restaurada e vamos expor as outras, que estão em reserva", observa Mário Pereira, explicando que uma delas é assinada pelo pintor André Gonçalves, autor da Assunção de Nossa Senhora, outra obra que se pode ver em Mafra. "Não estão minimamente estudadas", afirma Mário Pereira. E, por isso, a elas será dedicada uma conferência no mesmo dia em que é inaugurada a exposição, 11 de novembro.

A biblioteca, uma das joias do Palácio, tem destaque na programação, à boleia dos seus mais distintos habitantes: os morcegos, que zelam pela conservação dos itens que ali se guardam. A 17 de junho e 12 de agosto, às 21.00, com entrada gratuita, há visitas noturnas para conhecer as espécies que habitam o monumento.

Melhorar o conforto e fazer obras

No século XIX, a família real portuguesa queixava-se da falta de conforto do Palácio. Maria Pia, mulher do rei D. Luís, mandou instalar a chamada um elevador a manivela, batizado de caranguejola, para o seu pai, o rei Vítor Emanuel de Itália. Foi desativada nos anos 40 do século XX e será convertida em elevador este ano respondendo a outras queixas de falta de conforto. "Em 2015, tivemos sete reclamações, quatro diziam respeito às acessibilidades. Sentimos muito isso como uma falha", admite o diretor.

No palácio decorrem obras de restauro da pintura mural da Sala do Trono, à vista dos visitantes, enquanto se aguarda luz verde para avançar com o início das obras de recuperação dos dois carrilhões do Palácio Nacional de Mafra.

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