Um álbum grandioso para Arthur

Chegou às lojas na sexta-feira o mais recente trabalho de Nick Cave, "Skeleton Tree", marcado pela morte trágica do filho

A vida tem posto à prova Nick Cave mas as golpadas (umas mais duras do que outras) tornaram-no sempre mais forte. A morte do pai num acidente de viação quando ainda era um jovem músico da cena australiana, a vaga de críticas contra o seu álbum de 1985 The Firstborn Is Dead, a dependência da heroína, as várias ruturas amorosas ou a saída dos fundadores Blixa Bargeld e Mick Harvey da sua banda The Bad Seeds... Reergueu-se sempre.

Se esses males foram golpadas, a morte no ano passado do seu filho de 15 anos Arthur (que caiu de uma falésia sob o efeito de LSD) é uma bomba atómica que devasta tudo, fora da escala de uma canção ou de um álbum. Nem sempre a dor tem o dom milagreiro de gerar grandes canções, muitos menos esta.

Nick Cave, especialista em dores humanas, enfrenta o mais terrível teste que o deixa desamparado e alvo de compaixão - ou, no pior cenário, "objeto de piedade" pelos que lhe dirigem "aquele olhar simpático" na fila da padaria, tal como o cantor recorda no arrasador documentário One More Time with Feeling (que passou pelos nossos cinemas na quinta-feira).

O compositor de canções vê-se obrigado ao risco da transparência que corre tão bem a uns e tão mal a outros. Conseguir o monumento emocional - como Sufjan Stevens em Carrie & Lowell (perante a morte da mãe, que mal conheceu) - ou descambar para uma carpideira de mágoas que se torna desconfortável - como Björk em Vulnicura (um inventário dos dias finais com o marido Matthew Barney)? Um acontecimento tão dramático diante de uma figura tão forte multiplicar-se-á para equivaler a um disco tão soberano? Não necessariamente, mas é o que acontece em Skeleton Tree.

Esta dor tão omnipresente encontra no álbum a harmoniosa melodia e a nobreza de uma condizente abstração instrumental e lírica. Arthur, irmão gémeo de Earl, está de repente em todo o lado. A sua morte estilhaçou um processo de gravação que estava a meio. O disco passou a ser ele. Se o sujeito da canção for implicitamente a mulher de Nick Cave, a mãe de Arthur, então é mesmo de Arthur que se estará a falar. Se o canto lírico da soprano Else Torp se atravessa pela canção Distant Sky, esse pode ser também um chamamento de Arthur do além.

Nick Cave recita textos não narrativos e não tanto os canta, enquanto não param os questionamentos, incluindo o da eminência divina ("They told us our gods would outlive us/ But they lied", em Distant Sky). Skeleton Tree e o seu monstro cinematográfico One More Time with Feeling colocam dilemas com um ênfase dramático que dificilmente os melhores filmes de Bergman e Godard conseguiram.

As músicas são desarrumadas ao jeito do experimentalista Warren Ellis, que desvenda lindas constelações de sintetizadores que salpicam de esperança e beleza o negrume envolvente. Skeleton Tree é um álbum grandioso em que viverá para sempre Arthur, mesmo que não o traga de volta. E que faz do sombrio The Boatman"s Call (de 1997) um disco colorido.

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