Trienal de Arquitetura dedica a edição de 2019 à racionalidade

Cinco exposições, espalhadas por cinco locais da capital, falam sobre "A Poética da Razão", o tema central da 5.ª Trienal de Arquitetura de Lisboa, entre 3 de outubro de 2018 e 2 de dezembro de 2019

Éric Lapierre, arquiteto e teórico francês, é o curador-geral da próxima Trienal de Arquitetura. A apresentação foi feita hoje pelo presidente da associação, José Mateus. A Poética da Razão é o tema central desta edição, a quinta da história destes encontros que visam "levar a arquitetura a um público não especializado".

Professor na Escola de Arquitetura de Marne-la-Vallée, em Paris, Éric Lapierre esteve em Lisboa em 2016 para uma palestra e foi uma das 48 equipas, 14 portuguesas, oriundas de 16 países, que apresentou um projeto de curadoria para a próxima edição da Trienal de Arquitetura.

"Não fazia trabalho curatorial há uns anos e queria repetir", explica Lapierre sobre os motivos que o levaram a concorrer. Docente de Architecture & Experience diz sobre a cidade de Lisboa que "é muito aberta internacionalmente falando, na relação com as ex-colónias, nomeadamente o Brasil, o que é muito rico", disse, à margem da conferência de imprensa que decorreu hoje no edifício de 17 andares de escritórios em Picoas, da autoria de Patrícia Barbas e Diogo Seixas Lopes, um exemplo dessa racionalidade construtiva que o curador quer abordar durante o próximo ano.

A racionalidade na arquitetura vem sendo estudada na faculdade onde leciona há cerca de dois anos com a equipa curatorial que o acompanha e que também leciona na escola de Marne-La-Vallée. "A programação e o tema são da nossa responsabilidade. A Trienal não tem sido mais que respeitosa das nossas decisões, o que é uma grande responsabilidade."

Cinco exposições em cinco pontos da cidade fazem a espinha dorsal da Trienal de Arquitetura:

No MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, Economia de Meios, com curadoria do próprio Éric Lapierre, traz para o debate a massificação da arquitetura. "Parecem existir dois caminhos: o dos edifícios que quebram a tradição e os que querem destruir a história; a produção pós-moderna que quer reutilizar de diferentes maneiras o que já existe", resume, lembrando que no século XX se construiu mais do que em toda a humanidade.

Na Garagem Sul (CCB) estará Do Lado do Campo - Permacultura para arquitetos, uma exposição que pretende juntar agricultura e arquitetura, a partir da curadoria do filósofo Sébastien Marot. Em jeito de exemplo, Lapierre, a quem coube a apresentação de todo o programa, referiu o livro Agricteture, dos anos 30, e recordou que agricultura e arquitetura andam juntas desde o tempo de Vitrúvio.

Na Galeria Millennium, Espaço Interior, sobre imaginação e as novas formas que dá aos arquitetos, comissariada pelos italianos Mariabruna Fabrizi e Fosco Lucarelli.

Na Culturgest, O que é o Ornamento? Explica LaPierre: Com o modernismo, ele desapareceu. Em autores como Alvar Aalto, "o edifício transforma-se em ornamento". E nesta exposição, pretende-se "explorar a ambiguidade do ornamento". Um trabalho comissariado por Ambra Fabi e Giovanni Piovene.

No Palácio Sinel de Cordes, no edifício que tem servido de sede à Trienal de Arquitetura, Beleza Natural fala da racionalidade da construção, a partir de propostas dos curadores Laurent Esmilaire e Tristan Chadney. Podem ser selecionados para esta mostra projetos apresentados no concurso destinado a estudantes, aberto a partir de 24 de maio a universidades de todo o mundo.

A equipa curatorial conta ainda com o arquiteto português Vasco Pinelo de Melo, que tem sido assessor do gabinete de urbanismo do vereador Manuel Salgado na Câmara Municipal de Lisboa, como consultor para uma intervenção urbana estratégica em Lisboa.

À margem das exposições, vão decorrer conferências na Fundação Calouste Gulbenkian e serão atribuídos o prémio Début, destinado a arquitetos até 35 anos ou coletivos com idade média até 35 anos, e o prémio carreira.

Com uma histórico de 150 mil visitantes na última edição, ao longo de 2016, o orçamento da Trienal de Arquitetura será de 950 mil euros, parte dele financiado pela Direção-Geral das Artes. José Mateus lembrou que a candidatura da associação Trienal de Arquitetura ficou em primeiro lugar no concurso de apoios sustentados da Direção-Geral das Artes, o que corresponde a um financiamento de 1,1 milhões, divididos por quatro anos, entre 2018-2021.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.